O Melhor de A. W. Tozer

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Sumrio

Introduo ........................................................................................................................................................
5
   # Excertos Extrados de  Procura de Deus ................................................................................................... 7
1. Seguindo a Deus de Perto ......................................................................................................................... 7
2. A Voz do Verbo ..................................................................................................................................... 10
3. Mansido e Descanso ............................................................................................................................. 15
   # Excertos Extrados de O Poder de Deus.................................................................................................... 18
4. Nascido Depois da Meia-Noite ............................................................................................................... 18
5. Ertico Versus Espiritual ........................................................................................................................ 19
6. Para Estarmos Certos, Temos de Pensar Certo......................................................................................... 20
7. A F se Arrisca a Falhar ......................................................................................................................... 21
8. O Valor de uma Imaginao Santificada ................................................................................................. 23
9. Proximidade E Semelhana..................................................................................................................... 24
10.     Por Que Somos Indiferentes Quanto ao Retorno de Cristo ................................................................... 25
   # Excertos Extrados de Deus Fala com o Homem que Mostra Interesse ...................................................... 27
11.     Deus Fala com o Homem Que Mostra Interesse .................................................................................. 27
12.     A Posio Vital da Igreja .................................................................................................................... 28
13.     Organizao: Necessria e Perigosa .................................................................................................... 29
14.     As Divises nem Sempre So Ms...................................................................................................... 31
15.     A Responsabilidade da Liderana ....................................................................................................... 32
16.     A Orao de um Profeta Menor .......................................................................................................... 33
17.     Precisa-se: Coragem com Moderao.................................................................................................. 34
18.     Este Mundo: Parque de Diverses ou Campo de Batalha? ................................................................... 36
19.     A Autoridade Decrescente de Cristo nas Igrejas .................................................................................. 37
   # Excertos Extrados de Esse Cristo Incrvel .............................................................................................. 41
20.     Esse Cristo Incrvel ........................................................................................................................... 41
21.     O Que Significa Aceitar Cristo ........................................................................................................... 42
22.     A Insuficincia do "Cristianismo Instantneo" .................................................................................... 43
23. No Existe Substituto para a Teologia....................................................................................................... 44
24.     A Importncia da Auto-Anlise .......................................................................................................... 46
25.     Sinais do Homem Espiritual ............................................................................................................... 47
   # Excertos Extrados de A Raiz dos Justos ................................................................................................... 49
26.     A Raiz dos Justos ............................................................................................................................... 49
27.     E Fcil Viver com Deus...................................................................................................................... 49
28.     Quanto a Receber Admoestao ......................................................................................................... 51
29.     O Grande Deus Entretenimento .......................................................................................................... 52
30.     Bblia Ensinada ou Esprito Ensinado? ................................................................................................ 53
31.     A Cruz E uma Coisa Radical .............................................................................................................. 54
   # Excertos Extrados de De Deus e o Homem............................................................................................... 56
32.     O Relatrio do Observador ................................................................................................................. 56
33.     Exposio Requer Aplicao .............................................................................................................. 57
34.     Cuidado com a Mentalidade de Carto de Fichrio.............................................................................. 58
35.     O Uso e Abuso do Bom Humor .......................................................................................................... 59
36.     Cultivemos a Simplicidade e a Solido ............................................................................................... 60
37.     O Mundo Bblico E o Mundo Real...................................................................................................... 62
38.     Louvor em Trs Dimenses ................................................................................................................ 62
   # Excertos Extrados de O Homem: a Habitao de Deus ............................................................................ 64
39.     O Homem: a Habitao de Deus ......................................................................................................... 64
40.     Por Que Alguns Acham a Bblia Difcil .............................................................................................. 64
41.     A F: uma Doutrina Incompreendida .................................................................................................. 66
42.     A Verdadeira Religio no se Baseia em Sentimentos mas na Vontade ................................................ 67
43.     A Velha e a Nova Cruz ....................................................................................................................... 69
44.     Deus Deve Ser Amado por Ele Mesmo ............................................................................................... 70
45.     Como Provar os Espritos ................................................................................................................... 71
46.     Algumas Idias sobre os Livros e a Leitura ......................................................................................... 77
47.     Os Santos Devem Andar a Ss............................................................................................................ 78
   # Excerto Extrado de Como Encher-se com o Esprito Santo....................................................................... 81
48.     Como Encher-se com o Esprito Santo ................................................................................................ 81
   # Excerto Extrado de A Adorao: Jia Ausente na Igreja Evanglica ........................................................ 84
49.     A Adorao: Ocupao Normal dos Seres Morais ............................................................................... 84
   # Excerto Extrado de Quem Colocou Jesus na Cruz? .................................................................................. 87
50.     Cristo, Voc se Considera Muito Inferior?......................................................................................... 87
   # Excerto Extrado de Caminhos para o Poder ............................................................................................ 93
51.    Os Milagres Seguem o Arado ............................................................................................................. 93
  # Excerto Extrado de Deixe Ir o Meu Povo ................................................................................................. 95
52.    O Sistema Jaffray ............................................................................................................................... 95
Introduo
    "Penso que minha filosofia  esta: Tudo est errado at que Deus endireite as coisas."

    Esta declarao do Dr. A. W. Tozer resume perfeitamente a sua crena e o que ele tentou fazer durante
seus anos de ministrio. Todo o foco de sua pregao e tudo aquilo que escreveu concentrava-se em Deus.
No tinha tempo para mascates religiosos que inventavam novos meios de promover suas vendas e elevar
suas estatsticas, Da mesma forma que Thoreau, autor por ele muito admirado, Tozer marchava ao som de
um tambor diferente; e por esta razo, no geral achava-se fora de compasso com muitos dos participantes
na parada religiosa.

    Mas o que nos fazia am-lo e admir-lo era justamente esta excentricidade evanglica. Ele no temia
dizer-nos o que estava errado, nem vacilava em mostrar-nos como Deus poderia endireitar as coisas. Se um
sermo pode ser comparado  luz, A. W. Tozer lanava ento um raio laser do plpito, um raio que
penetrava o seu corao, queimava a sua conscincia, expunha o pecado e fazia voc gritar: "Que devo fazer
para ser salvo?" A resposta vinha sempre igual: renda-se a Cristo; conhea pessoalmente a Deus; cresa
para assemelhar-se a Ele.

    Aiden Wilson Tozer nasceu em Newburg (ento conhecido como La Jose), Pensilvnia, a 21 de abril de
1897. Em 1912 a famlia mudou-se da fazenda de Akron, Ohio; e em 1915 ele converteu-se a Cristo,
entrando imediatamente numa vida de grande intensidade devocional e testemunho pessoal. Em 1919
comeou a pastorear a igreja da Aliana em Nutter Fort, em West Virgnia. Tambm serviu em igrejas nas
cidades de Morgsntown, West Virginia; Toledo, Ohio; Indianapolis, Indiana; e em 1928 iniciou seu trabalho
na igreja da Aliana em Chicago (Southside Alliance Church). Ali serviu at novembro de 1959, quando
tornou-se pastor da igreja Avenue Road em Toronto. Um repentino ataque cardaco a 12 de maio de 1963
ps fim a esse ministrio e Tozer foi introduzido na glria.

     Estou certo de que Tozer alcanou mais pessoas atravs de seus escritos do que de sua pregao.
Grande parte do que escreveu foi refletido na pregao de pastores que alimentavam a alma dos seus fiis
com as palavras dele. Em maio de 1950, Tozer foi nomeado redator da revista "The Alliance Weekly", agora
The Alliance Witness, talvez a nica revista religiosa comprada principalmente pelos seus editoriais. Ouvi
certa vez o Dr. Tozer, numa conferncia na Associao da Imprensa Evanglica, criticando os editores que
praticavam o que ele chamava de "jornalismo de supermercado -- duas colunas de anncios e um corredor
de material de leitura". Ele era um escritor exigente e to rigoroso consigo mesmo quanto com os demais.

     O que toma conta de ns e no nos deixa escapar mais nos trabalhos de Tozer? Ele no teve o
privilgio de cursar uma universidade nem um seminrio, ou sequer uma escola bblica; todavia, deixou-
nos uma estante de livros que ser consultada at a volta do Senhor por aqueles que buscam crescer em
espiritualidade.

     A. W. Tozer escrevia com convico. Ele no tinha interesse em agradar os superficiais cristos
atenienses que estavam em busca de novidades. Tozer voltou a cavar os velhos poos e nos chamou de
volta aos velhos caminhos, acreditando ardentemente nas verdades por ele ensinadas e pondo-as em
prtica. Certa vez disse a um amigo meu: "Consegui a antipatia de todos em toda plataforma a que subi
neste pas durante a realizao de uma Conferncia Bblica!" O povo no corre para ouvir algum cujas
convices tragam constrangimento.

    Tozer era um mstico -- um mstico evanglico -- numa era pragmtica e materialista. Ele contnua a
chamar-nos para observar aquele mundo da realidade espiritual que fica alm do mundo fsico que tanto
nos seduz. Ele nos pede para agradar a Deus e ignorar a multido, para adorar a Deus a fim de nos
assemelharmos a Ele. Quo desesperadamente precisamos hoje dessa mensagem!

    A. W. Tozer tinha o dom de tomar uma verdade espiritual e coloc-la sob a luz, a fim de que, como um
diamante, cada faceta fosse vista e admirada. Ele no se perdia nos pntanos homilticos; o vento do
Esprito soprava e ossos mortos ganhavam vida. Seus ensaios so como delicados camafeus, cujo valor no
 determinado pelo seu tamanho. Sua pregao caracterizava-se por uma intensidade espiritual que
penetrava o corao, ajudando-o a ver Deus. Feliz o cristo que pode dispor de um livro de Tozer quando
sua alma est sedenta e ele sente que Deus se distanciou.
     Isto leva quela que julgo ser a maior contribuio que A. W. Tozer faz em seus escritos: ele o estimula
tanto com relao  verdade, que voc se esquece de Tozer e procura a sua Bblia. Ele mesmo repetiu
muitas vezes que o melhor livro  aquele que faz voc desejar p-lo de lado e pensar por si mesmo.  raro
eu ler Tozer sem procurar meu caderno de notas e escrever nele alguma coisa que mais tarde possa ser
transformada numa mensagem. Tozer  como um prisma que recolhe a luz e depois revela a sua beleza.

     Selecionar o "melhor de A. W. Tozer"  uma tarefa impossvel. Melhor para quem? Para que
necessidades? Como pastor, eu escolheria cinquenta ensaios que iriam desafiar e abenoar o corao de
meus irmos no ministrio, mas Tozer  lido por muitos que no exercem essa funo. Por ser escritor, eu
poderia escolher captulos dos seus livros que revelam sua habilidade com as palavras; mas a maioria dos
leitores no escreve livros. Aqueles dentre ns que apreciamos os escritos de Tozer certamente temos os
nossos favoritos, mas tenho certeza de que no haveria dois que concordassem.

     Dos livros de Tozer publicados pela Christian Publications de Harrisburg, Pensilvnia, fiz selees com
base no tema e seu desenvolvimento. O Dr. Tozer dizia com freqncia as mesmas coisas de modos
diversos, e tentei escolher os temas principais em sua melhor expresso. Se um de seus ensaios favoritos
estiver faltando, talvez voc seja compensado lendo um outro que tenha perdido ou esquecido.

     Se este livro for a sua primeira introduo a A. W. Tozer, permita-me ento sugerir a melhor maneira
de ler seus ensaios. Voc deve l-los lentamente e com reflexo, meditando enquanto l.  medida que l,
oua o que Tozer chamava de "a outra Voz" falando a verdade atravs dessas breves mensagens. Se certa
verdade se puser a queimar em seu corao, coloque o livro de lado e deixe que Deus o oriente. Aguarde em
silncio diante dEle e bem fundo em seu corao Deus lhe falar.
# Excertos Extrados de  Procura de Deus

   1. Seguindo a Deus de Perto

    "A minha alma apega-se a ti: a tua destra me ampara" (Sl 63:8.).

   O evangelho nos ensina a doutrina da graa preveniente, que significa simplesmente que, antes de um
homem poder buscar a Deus, Deus tem que busc-lo primeiro.

     Para que o pecador tenha uma idia correta a respeito de Deus, deve receber antes um toque
esclarecedor em seu ntimo; que, mesmo que seja imperfeito, no deixa de ser verdadeiro, e  o que
desperta nele essa fome espiritual que o leva  orao e  busca.

     Procuramos a Deus porque, e somente porque, Ele primeiramente colocou em ns o anseio que nos
lana nessa busca. "Ningum pode vir a mim", disse o Senhor Jesus, "se o Pai que me enviou no o trouxer"
(Jo 6:44), e  justamente atravs desse trazer preveniente, que Deus tira de ns todo vestgio de mrito
pelo ato de nos achegarmos a Ele. O impulso de buscar a Deus origina-se em Deus, mas a realizao do
impulso depende de O seguirmos de todo o corao. E durante todo o tempo em que O buscamos, j
estamos em Sua mo: "... o Senhor o segura pela mo" (Sl 37:24.).

     Nesse "amparo" divino e no ato humano de "apegar-se" no h contradio. Tudo provm de Deus,
pois, segundo afirma Von Hgel, Deus  sempre a causa primeira. Na prtica, entretanto (isto , quando a
operao prvia de Deus se combina com uma reao positiva do homem), cabe ao homem a iniciativa de
buscar a Deus. De nossa parte deve haver uma participao positiva, para que essa atrao divina possa
produzir resultados em termos de uma experincia pessoal com Deus. Isso transparece na calorosa
linguagem que expressa o sentimento pessoal do salmista no Salmo 42: "Como suspira a cora pelas
correntes das guas, assim, por ti,  Deus, suspira a minha alma. A minha alma tem sede de Deus, do Deus
vivo: quando irei e me verei perante a face de Deus?" E um apelo que parte do mais profundo da alma, e
qualquer corao anelante pode muito bem entend-lo.

    A doutrina da justificao pela f -- uma verdade bblica, e uma bno que nos liberta do legalismo
estril e de um intil esforo prprio -- em nosso tempo tem-se degenerado bastante, e muitos lhe do
uma interpretao que acaba se constituindo um obstculo para que o homem chegue a um conhecimento
verdadeiro de Deus. O milagre do novo nascimento est sendo entendido como um processo mecnico e
sem vida. Parece que o exerccio da f j no abala a estrutura moral do homem, nem modifica a sua velha
natureza.  como se ele pudesse aceitar a Cristo sem que, em seu corao, surgisse um genuno amor pelo
Salvador. Contudo, o homem que no tem fome nem sede de Deus pode estar salvo? No entanto, 
exatamente nesse sentido que ele  orientado: conformar-se com uma transformao apenas superficial.

      Os cientistas modernos perderam Deus de vista, em meio s maravilhas da criao; ns, os crentes,
corremos o perigo de perdermos Deus de vista em meio s maravilhas da Sua Palavra. Andamos quase
inteiramente esquecidos de que Deus  uma pessoa, e que, por isso, devemos cultivar nossa comunho com
Ele como cultivamos nosso companheirismo com qualquer outra pessoa.  parte inerente de nossa
personalidade conhecer outras personalidades, mas ningum pode chegar a um conhecimento pleno de
outrem atravs de um encontro apenas. Somente aps uma prolongada e afetuosa convivncia  que dois
seres podem avaliar mutuamente sua capacidade total.
      Todo contato social entre os seres humanos consiste de um reconhecimento de uma personalidade
para com outra, e varia desde um esbarro casual entre dois homens, at a comunho mais ntima de que 
capaz a alma humana. O sentimento religioso consiste, em sua essncia, numa reao favorvel das
personalidades criadas, para com a Personalidade Criadora, Deus. "E a vida eterna  esta: que te conheam
a ti, o nico Deus verdadeiro, e a Jesus Cristo, a quem enviaste".

    Deus  uma pessoa, e nas profundezas de Sua poderosa natureza Ele pensa, deseja, tem gozo, sente,
ama, quer e sofre, como qualquer outra pessoa. Em seu relacionamento conosco, Ele se mantm fiel a esse
padro de comportamento da personalidade. Ele se comunica conosco por meio de nossa mente, vontade e
emoes.
    O cerne da mensagem do Novo Testamento  a comunho entre Deus e a alma remida, manifestada em
um livre e constante intercmbio de amor e pensamento.

     Esse intercmbio, entre Deus e a alma, pode ser constatado pela percepo consciente do crente. 
uma experincia pessoal, isto , no vem atravs da igreja, como Corpo, mas precisa ser vivida, por cada
membro. Depois, em conseqncia dele, todo o Corpo ser abenoado. E  uma experincia consciente: isto
, no se situa no campo do subconsciente, nem ocorre sem a participao da alma (como, por exemplo,
segundo alguns imaginam, se d com o batismo infantil), mas  perfeitamente perceptvel, de modo que o
homem pode "conhecer" essa experincia, assim como pode conhecer qualquer outro fato experimental.

     Ns somos em miniatura, (excetuando os nossos pecados) aquilo que Deus  em forma infinita. Tendo
sido feitos a Sua imagem, temos dentro de ns a capacidade de conhec-lO. Enquanto em pecado, falta-nos
to-somente o poder. Mas, a partir do momento em que o Esprito nos revivifica, dando-nos uma vida
regenerada, todo o nosso ser passa a gozar de afinidade com Deus, mostrando-se exultante e grato. Isso 
este nascer do Esprito sem o qual no podemos ver o reino de Deus. Entretanto, isso no  o fim, mas
apenas o comeo, pois  a partir da que o nosso corao inicia o glorioso caminho da busca, que consiste
em penetrar nas infinitas riquezas de Deus. Posso dizer que comeamos neste ponto, mas digo tambm que
homem nenhum j chegou ao final dessa explorao, pois os mistrios da Trindade so to grandes e
insondveis que no tm limite nem fim.

     Encontrar-se com o Senhor, e mesmo assim continuar a busc-lO,  o paradoxo da alma que ama a
Deus.  um sentimento desconhecido daqueles que se satisfazem com pouco, mas comprovado na
experincia de alguns filhos de Deus que tm o corao abrasado. Se examinarmos a vida de grandes
homens e mulheres de Deus, do passado, logo sentiremos o calor com que buscavam ao Senhor. Choravam
por Ele, oravam, lutavam e buscavam-nO dia e noite, a tempo e fora do tempo, e, ao encontr-lO, a
comunho parecia mais doce, aps a longa busca. Moiss usou o fato de que conhecia a Deus como
argumento para conhec-lO ainda melhor. "Agora, pois, se achei graa aos teus olhos, rogo-te que me faas
saber neste momento o Teu caminho, para que eu Te conhea, e ache graa aos Teus olhos" (Ex 33:13). E,
partindo da, fez um pedido ainda mais ousado: "Rogo-te que me mostres a tua glria" (Ex 33:18). Deus
ficou verdadeiramente alegre com essa demonstrao de ardor e, no dia seguinte, chamou Moiss ao
monte, e ali, em solene cortejo, fez toda a Sua glria passar diante dele.

    A vida de Davi foi uma contnua nsia espiritual. Em todos os seus salmos ecoa o clamor de uma alma
anelante, seguido pelo brado de regozijo daquele que  atendido. Paulo confessou que a mola-mestra de
sua vida era o seu intenso desejo de conhecer a Cristo mais e mais. "Para O conhecer" (Fp 3:10), era o
objetivo de seu viver, e para alcanar isso, sacrificou todas as outras coisas. "Sim, deveras considero tudo
como perda, por causa da sublimidade do conhecimento de Cristo Jesus meu Senhor: por amor do qual
perdi todas as cousas e as considero como refugo, para ganhar a Cristo" (Fp 3:8).

     Muitos hinos evanglicos revelam este anelo da alma por Deus, embora a pessoa que canta, j saiba
que o encontrou. H apenas uma gerao, nossos antepassados cantavam o hino que dizia: "Verei e seguirei
o Seu caminho"; hoje no o ouvimos mais entre os cristos.  uma tragdia que, nesta poca de trevas,
deixemos s para os pastores e lderes a busca de uma comunho mais ntima com Deus. Agora, tudo se
resume num ato inicial de "aceitar" a Cristo (a propsito, esta palavra no  encontrada na Bblia), e da por
diante no se espera que o convertido almeje qualquer outra revelao de Deus para a sua alma. Estamos
sendo confundidos por uma lgica espria que argumenta que, se j encontramos o Senhor, no temos
mais necessidade de busc-lO. Esse conceito nos  apresentado como sendo o mais ortodoxo, e muitos no
aceitariam a hiptese de que um crente instrudo na Palavra pudesse crer de outra forma. Assim sendo,
todas as palavras de testemunho da Igreja que significam adorao, busca e louvor, so friamente postas de
lado. A doutrina que fala de uma experincia do corao, aceita pelo grande contingente dos santos que
possuam o bom perfume de Cristo, hoje  substituda por uma interpretao superficial das Escrituras, que
sem dvida soaria como muito estranha para Agostinho, Rutherford ou Brainerd.

     Em meio a toda essa frieza existem ainda alguns -- alegro-me em reconhecer -- que jamais se
contentaro com essa lgica superficial. Talvez at reconheam a fora do argumento, mas depois saem em
lgrimas  procura de algum lugar isolado, a fim de orarem: " Deus, mostra-me a tua glria". Querem
provar, ver com os olhos do ntimo, quo maravilhoso Deus .

     meu propsito instilar nos leitores um anseio mais profundo pela presena de Deus.  justamente a
ausncia desse anseio que nos tem conduzido a esse baixo nvel espiritual que presenciamos em nossos
dias. Uma vida crist estagnada e infrutfera  resultado da ausncia de uma sede maior de comunho com
Deus. A complacncia  inimigo mortal do crescimento cristo. Se no existir um desejo profundo de
comunho, no haver manifestao de Cristo para o Seu povo. Ele espera que o procuremos. Infelizmente,
no caso de muitos crentes,  em vo que essa espera se prolonga.

    Cada poca tem suas prprias caractersticas. Neste exato instante encontramo-nos em um perodo de
grande complexidade religiosa. A simplicidade existente em Cristo raramente se acha entre ns. Em lugar
disso, vem-se apenas programas, mtodos, organizaes e um mundo de atividades animadas, que
ocupam tempo e ateno, mas que jamais podem satisfazer  fome da alma. A superficialidade de nossas
experincias ntimas, a forma vazia de nossa adorao, e aquela servil imitao do mundo, que
caracterizam nossos mtodos promocionais, tudo testifica que ns, em nossos dias, conhecemos a Deus
apenas imperfeitamente, e que raramente experimentamos a Sua paz.

    Se desejamos encontrar a Deus em meio a todas as exteriorizaes religiosas, primeiramente temos
que resolver busc-Lo, e da por diante prosseguir no caminho da simplicidade. Agora, como sempre o fez,
Deus revela-Se aos pequeninos e se oculta daqueles que so sbios e prudentes aos seus prprios olhos. 
mister que simplifiquemos nossa maneira de nos aproximar dEle. Urge que fiquemos to-somente com o
que  essencial (e felizmente, bem poucas coisas so essenciais). Devemos deixar de lado todo esforo para
impression-lO e ir a Deus com a singeleza de corao da criana. Se agirmos dessa forma, Deus nos
responder sem demora.

    No importa o que a Igreja e as outras religies digam. Na realidade, o que precisamos  de Deus
mesmo. O hbito condenvel de buscar "a Deus e"  que nos impede de encontrar ao Senhor na plenitude
de Sua revelao.  no conectivo "e" que reside toda a nossa dificuldade. Se omitssemos esse "e", em breve
acharamos o Senhor e nEle encontraramos aquilo por que intimamente sempre anelamos.

    No precisamos temer que, se visarmos to-somente a comunho com Deus, estejamos limitando
nossa vida ou inibindo os impulsos naturais do corao. O oposto  que  verdade. Convm-nos
perfeitamente fazer de Deus o nosso tudo, concentrando-nos nEle, e sacrificando tudo por causa dEle.

     O autor do estranho e antigo clssico ingls, The Cloud of Unknowing (A nuvem do desconhecimento),
d-nos instrues de como conseguir isso. Diz ele: "Eleve seu corao a Deus num impulso de amor; busque
a Ele, e no Suas bnos. Da por diante, rejeite qualquer pensamento que no esteja relacionado com
Deus. E assim no faa nada com sua prpria capacidade, nem segundo a sua vontade, mas somente de
acordo com Deus. Para Deus, esse  o mais agradvel exerccio espiritual".

     Em outro trecho, o mesmo autor recomenda que, em nossas oraes, nos despojemos de todo o
empecilho, at mesmo de nosso conhecimento teolgico. "Pois lhe basta a inteno de dirigir-se a Deus,
sem qualquer outro motivo alm da pessoa dEle." No obstante, sob todos os seus pensamentos, aparece o
alicerce firme da verdade neotestamentria, porquanto explica o autor que, ao referir-se a "ele", tem em
vista "Deus que o criou, resgatou, e que, em Sua graa, o chamou para aquilo que voc agora ". Este autor
defende vigorosamente a simplicidade total: "Se desejamos ver a religio crist resumida em uma nica
palavra, para assim compreendermos melhor o seu alcance, ento tomemos uma palavra de uma slaba ou
duas. Quanto mais curta a palavra, melhor ser, pois uma palavra menor est mais de acordo com a
simplicidade que caracteriza toda a operao do Esprito. Tal palavra deve ser ou Deus ou Amor".

     Quando o Senhor dividiu a terra de Cana entre as tribos de Israel, a de Levi no recebeu partilha
alguma. Deus disse-lhe simplesmente: "Eu sou a tua poro e a tua herana no meio dos filhos de Israel"
(Nm 18:20), e com essas palavras tornou-a mais rica que todas as suas tribos irms, mais rica que todos os
reis e rajs que j viveram neste mundo. E em tudo isto transparece um princpio espiritual, um princpio
que continua em vigor para todo sacerdote do Deus Altssimo.

     O homem, cujo tesouro  o Senhor, tem todas as coisas concentradas nEle. Outros tesouros comuns
talvez lhe sejam negados, mas mesmo que lhe seja permitido desfrutar deles, o usufruto de tais coisas ser
to diludo que nunca  necessrio  sua felicidade. E se lhe acontecer de v-los desaparecer, um por um,
provavelmente no experimentar sensao de perda, pois conta com a fonte, com a origem de todas as
coisas, em Deus, em quem encontra toda satisfao, todo prazer e todo deleite. No se importa com a perda,
j que, em realidade nada perdeu, e possui tudo em uma pessoa -- Deus -- de maneira pura, legtima e
eterna.

      Deus, tenho provado da Tua bondade, e se ela me satisfaz, tambm aumenta minha sede de
experimentar ainda mais. Estou perfeitamente consciente de que necessito de mais graa. Envergonho-me
de no possuir uma fome maior.  Deus,  Deus trino, quero buscar-Te mais; quero buscar apenas a Ti;
tenho sede de tornar-me mais sedento ainda. Mostra-me a Tua glria, rogo-Te, para que assim possa
conhecer-Te verdadeiramente. Por Tua misericrdia, comea em meu ntimo uma nova operao de amor.
Diz  minha alma: "Levanta-te, querida minha, formosa minha, e vem" (Ct 2:10). E d-me graa para que me
levante e te siga, saindo deste vale escuro onde estou vagueando h tanto tempo. Em nome de Jesus. Amm.



    2. A Voz do Verbo
                                      No princpio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus
                                      (Jo 1:1.)

    Qualquer homem de inteligncia mdia, ainda que no instrudo das verdades do cristianismo,
chegando a ler esse texto, certamente concluir que Joo tencionava ensinar que falar faz parte da natureza
de Deus, ou seja, Ele deseja comunicar seus pensamentos aos outros seres inteligentes. E teria plena razo.
A palavra (verbo)  o meio atravs do qual os pensamentos so expressos -- pelo que tambm a aplicao
do termo "Verbo" ao Filho eterno de Deus leva-nos a crer que a auto-expresso faz parte inerente da
divindade, e que Deus est sempre procurando falar de Si mesmo s Suas criaturas. E a Bblia inteira apia
essa idia. Deus continua falando. No somente falou, mas continua falando. Por fora de Sua prpria natu-
reza, Ele se comunica continuamente. Enche o mundo com Sua voz.

     Uma das grandes realidades que temos de levar em conta, e com a qual nos vemos a braos,  a voz de
Deus neste mundo. A hiptese mais simples sobre a formao do universo, e a mais certa,  essa: "Ele falou,
e tudo se fez." A razo de ser da lei natural no  outra seno a voz de Deus, imanente em Sua criao. E
essa palavra de Deus, que trouxe  existncia todos os mundos criados, no pode ter sido a Bblia,
porquanto esta no fora escrita nem impressa ainda, mas  a expresso da vontade de Deus, manifesta na
estrutura de todas as coisas. Essa palavra que vem de Deus  o sopro divino que enche o mundo de
potencialidade vital. A voz de Deus  a mais poderosa fora que h na natureza, e, na realidade, a nica
fora que atua na natureza, onde reside toda a energia pelo simples fato de que a palavra de poder foi
proferida.

    A Bblia  a Palavra escrita de Deus; e, por haver sido escrita, est confinada e limitada pelas
necessidades da tinta, do papel e do couro. A voz de Deus, entretanto,  viva e livre como o prprio Deus.
"As palavras que eu vos tenho dito, so esprito e so vida." (Jo 6:36.) A vida est encerrada nas palavras
proferidas por Deus. A Palavra de Deus, na Bblia, s tem poder porque corresponde perfeitamente 
palavra de Deus no universo.  a voz presente no mundo que d  Palavra escrita todo o seu poder. De
outro modo, estaria para sempre adormecida, aprisionada entre as pginas de um livro.

     Temos uma viso muito pequena e primitiva das coisas, quando pensamos em Deus, no ato da criao,
a entrar em contato fsico com essas coisas, a modelar, adaptar, e fabricar, como se fosse um carpinteiro. A
Bblia ensina uma coisa totalmente diversa: "Os cus por sua palavra se fizeram, e pelo sopro de sua boca o
exrcito deles. . . Pois ele falou, e tudo se fez; ele ordenou, e tudo passou a a existir" (Sl 33:6, 3). "Pela f
entendemos que foi o universo formado pela palavra de Deus, de maneira que o visvel veio a existir das
cousas que no aparecem." (Hb 11:3.) Uma vez mais, convm que nos lembremos de que Deus se refere
aqui, no  Sua Palavra escrita,  Bblia, mas antes,  voz da Sua palavra. Isto se refere  voz que enche antes
o mundo, aquela voz que antecede a Bblia em sculos e sculos; aquela voz que no silenciou mais desde o
incio da criao, mas que continua a soar, e alcana todos os recantos desse imenso universo.

     A Palavra de Deus  viva e poderosa. No princpio Ele falou ao nada, e o nada se tornou em alguma
coisa. O caos a ouviu e se fez ordem, as trevas a ouviram, e se transformaram em luz. "E disse Deus. . . e
assim se fez." Essas sentenas gmeas, como se fossem causa e efeito, ocorrem em todo o relato da criao,
no livro de Gnesis. O disse explica o assim se fez. O assim se fez  o disse, poso em forma de presente
contnuo.

    Deus est aqui, e est sempre falando. Essas verdades so o pano de fundo de todas as demais
verdades bblicas; sem elas estas ltimas no poderiam ser revelaes de forma alguma. Deus no escreveu
um livro para envi-lo atravs de mensageiros e ser lido  distncia, por mentes desassistidas. Ele "falou"
um livro e vive em Suas palavras proferidas, constantemente afirmando as Suas palavras e outorgando-lhes
o poder que elas tm, pelo que tambm persistem atravs de todos os sculos. Deus soprou sobre o barro, e
este se transformou em homem; Ele sopra sobre os homens, e estes se tornam barro. "Porque tu s p e ao
p tornars" (Gn 3:19) foi a palavra proferida quando da queda, mediante a qual decretou a morte fsica de
todo homem, e no foi necessrio dizer mais nenhuma palavra. O triste curso da humanidade, em toda a
face da terra, desde o nascimento at  sepultura,  prova de que Sua palavra original foi o bastante.

     Ainda no demos ateno suficiente quela profunda declarao que lemos no Evangelho de Joo: "A
verdadeira luz que, vinda ao mundo, ilumina a todo homem" (Jo 1:9). Pode-se mudar  vontade a
pontuao, que a verdade inteira continua ali encerrada: a Palavra de Deus afeta o corao de todos os
homens, porque  luz para a alma. A luz brilha no corao de todos os homens e a palavra ali ressoa, e no
h como escapar dela. Isso seria uma decorrncia lgica do fato de Deus estar vivo e atuante neste mundo.
E Joo afirma que isto realmente acontece. At mesmo aqueles que nunca ouviram da Bblia, j ouviram a
pregao da verdade com clareza suficiente para que no tenham mais desculpas. "Estes mostram a norma
da lei, gravada nos seus coraes, testemunhando-lhes tambm a conscincia, e os seus pensamentos
mutuamente acusando-se ou defendendo-se." (Rm 2:15.) "Porque os atributos invisveis de Deus, assim o
seu eterno poder como tambm a sua prpria divindade, claramente se reconhecem, desde o princpio do
mundo, sendo percebidos por meio das cousas que foram criadas. Tais homens so por isso
indesculpveis." (Rm 1:20.)

    Essa voz universal de Deus era chamada de sabedoria, pelos antigos hebreus, e dizia-se que estava em
toda a parte investigando e perscrutando toda a face da terra, buscando alguma reao favorvel da parte
dos filhos dos homens. O oitavo captulo do livro de Provrbios comea com as palavras: "No clama
porventura a sabedoria, e o entendimento no faz ouvir a sua voz?" O escritor sagrado, em seguida, pinta a
sabedoria como uma bela mulher, postada "no cume das alturas, junto ao caminho, nas encruzilhadas das
veredas". E faz ouvir a sua voz em todos os lugares, de tal maneira que ningum pode deixar de ouvi-la. "A
vs outros,  homens, clamo; e a minha voz se dirige aos filhos dos homens." Ento conclama os simples e
os nscios para que lhe dem ouvidos. O que a sabedoria de Deus requer  a reao espiritual favorvel da
parte dos homens, uma resposta que ela sempre tem buscado, mas que raramente tem conseguido. A
tragdia  que nosso bem-estar eterno depende de ouvirmos, mas ns temos feito ouvidos moucos.

    Essa voz universal sempre soou, e perturbou os homens, mesmo quando no eram capazes de
compreender a origem de seus temores. Quem sabe se essa voz, derramando-se gota a gota no corao dos
homens, no  a causa oculta da conscincia perturbada e do anseio pela imortalidade, confessados por
milhes de pessoas, desde o incio da Histria? No h o que temer. Essa voz  um fato. E qualquer um pode
observar como a humanidade tem reagido em face dela.

    Quando do cu Deus falou ao Senhor Jesus, muitos homens que ouviram a voz explicaram-na como
sendo fenmenos naturais. Diziam ter ouvido um trovo. Esse hbito de apelar s leis naturais para
explicar a voz de Deus  a prpria raiz da cincia moderna. Nesse universo que vive e respira, h algo
misterioso, por demais maravilhoso, por demais tremendo para que qualquer mente o compreenda. O
crente no exige explicaes, mas dobra os joelhos e adora, sussurrando: "Deus meu". O homem mundano
tambm se inclina, mas no para adorar. Inclina-se para examinar, para pesquisar, para descobrir a causa e
o funcionamento das coisas. O que ocorre  que estamos vivendo na era secular. Estamos acostumados a
pensar como cientistas e no como adoradores. Sentimo-nos mais inclinados a pensar do que a adorar. "Foi
apenas um trovo!" exclamamos ns, e continuamos levando uma vida mundana. Contudo, a voz divina
continua ecoando, chamando. A ordem e a vida do mundo dependem totalmente dessa voz, mas os homens
esto por demais atarefados ou so teimosos demais para dar-lhe qualquer ateno.

     Cada um de ns j experimentou sensaes impossveis de serem explicadas: um sbito senso de
solido, ou um sentimento de admirao e espanto em face da vastido universal. Ou, como que recebendo
um raio de luz de um outro sol, tivemos uma revelao momentnea de que pertencemos a um outro
mundo, e que nossa origem se explica em Deus. O que ento sentimos, ouvimos ou vimos, talvez tenha sido
contrrio a tudo quanto nos tem sido ensinado nas escolas, ou esteja em total conflito com nossas crenas e
conceitos. Naquele momento, em que as nuvens se dissiparam e tivemos aquela revelao pessoal, fomos
forados a afastar as dvidas costumeiras. Por mais que queiramos explicar essas coisas, penso que no
estaremos sendo sinceros, enquanto no admitirmos pelo menos a possibilidade de que tais experincias
venham da presena de Deus no mundo, bem como, de Seus persistentes esforos para comunicar-Se com a
humanidade. No ponhamos de lado essa hiptese, por julg-la falsa.

     Eu, particularmente, creio (e no me ressentirei se ningum concordar comigo) que tudo quanto de
bom e de belo o homem tem produzido neste planeta  resultado de sua resposta imperfeita e imaculada
pelo pecado,  voz criadora que ecoa por toda a Terra. Como explicar os filsofos moralistas que tiveram
elevados sonhos de virtude; os pensadores religiosos, com suas especulaes acerca de Deus e da
imortalidade; os poetas e os artistas, que da matria criaram beleza pura e duradoura? No basta dizer
simplesmente: "Ele foi um gnio". Pois, que  um gnio? No seria possvel que um gnio fosse um homem
que, "importunado" por essa voz, esfora-se e luta freneticamente para atingir um objetivo que ele apenas
vagamente entende? O fato de que, na lida diria, os homens tenham perdido Deus de vista, que at mesmo
tenham falado ou escrito contra Deus, no destri a idia que eu procuro demonstrar. A revelao
redentora de Deus, nas Sagradas Escrituras,  necessria para a f salvadora e para a paz com Deus. Para
que esta inconsciente aspirao pela imortalidade leve o homem a uma comunho satisfatria com Deus, 
necessrio que ele confie no Salvador ressurreto. Para mim, essa  uma explicao plausvel para tudo que
 excelente fora de Cristo.

     A voz de Deus  amiga. Ningum precisa tem-la, a menos que j tenha resolvido resistir a ela. O
sangue de Jesus Cristo cobriu no apenas a raa humana mas tambm toda a criao. "E que, havendo feito
a paz pelo sangue da sua cruz, por meio dele reconciliasse consigo mesmo todas as cousas, quer sobre a
terra, quer nos cus." (Cl 1:20.) Ns podemos falar, com toda segurana, de um cu que nos  propcio.
Tanto os cus como a terra esto cheios da boa-vontade daquele que veio manifestar-se na sara ardente. O
sangue santo de Cristo, na expiao, garante isso para sempre.

     Quem quiser aplicar os ouvidos, ouvir a todos dos cus. Estamos numa poca em que os homens
decididamente no aceitam exortaes de bom grado, porquanto ouvir no faz parte do conceito popular
da religio. E nisto, estamos fazendo exatamente o contrrio do que devemos. As igrejas, de um modo geral,
aceitam a grande heresia de que fazer barulho, ser grande e ativa torna-as mais preciosas para Deus. Mas
no devemos desanimar, pois  a um povo atingido pela tormenta do ltimo e maior de todos os conflitos
que Deus diz: "Aquietai-vos e sabei que eu sou Deus." (Sl 46:10.) E ele ainda diz o mesmo hoje, como se
quisesse informar-nos de que nossa fora e segurana dependem no tanto de nossa agitao. mas de
nosso silncio e serenidade.

     Precisamos estar quietos para esperar em Deus. Seria melhor se pudssemos ficar a ss, com a Bblia
aberta  nossa frente. Se quisermos, podemos nos chegar a Deus e comear a ouvi-lO falar ao nosso prprio
corao. Penso que para a mdia das pessoas a manifestao dessa voz ser mais ou menos assim:
primeiramente, ouve-se um rudo como de uma presena a andar pelo jardim. Em seguida ouve-se uma
voz, mais inteligvel, mas ainda no muito distinta. Depois disto, vem um instante feliz em que o Esprito
Santo comea a iluminar as Sagradas Escrituras, e aquilo que at ali fora apenas um rudo, ou quando muito
uma voz, agora se torna em palavra calorosa, ntima e clara como a palavra de um amigo muito caro. Depois
 que vm a vida e a luz, e, melhor de tudo, a capacidade de ver, de descansar em Jesus Cristo e de aceit-lo
como Salvador e Senhor.

     A Bblia jamais ser um livro vivo para ns enquanto no ficarmos convencidos de que Deus est
articulado com seu prprio universo. A transio de um mundo morto e impessoal para uma Bblia
dogmtica  difcil para a maioria das pessoas. Talvez admitam que devem aceitar a Bblia como a Palavra
de Deus, e talvez at tentem pensar nela como tal; mas depois descobriro ser impossvel crer que as
palavras, escritas nas pginas da Bblia, se aplicam  sua vida. Um homem pode dizer com os lbios: "Estas
palavras foram dirigidas a mim", e, contudo, em seu corao sentir que no sabe o que elas dizem. , nesse
caso, vtima de um raciocnio errado -- pensa que Deus permanece mudo em tudo o mais, e se manifesta
apenas em seu livro.

     Acredito que grande parte de nossa incredulidade se deve a um conceito errneo a respeito das
Escrituras. Deus est silencioso e, subitamente, comea a falar em um livro. Terminado o livro, cai no
silncio outra vez, e para sempre. Por isso, muitos lem a Bblia como se fora o registro do que Deus disse
quando estava com vontade de falar. Se pensarmos desta forma, como poderemos confiar plenamente? O
fato, contudo,  que Deus no est calado, e nunca esteve. Falar faz parte da natureza de Deus. A segunda
pessoa da Trindade  chamada de Verbo (Palavra). A Bblia  o resultado inevitvel da contnua
manifestao de Deus.  a revelao infalvel de Sua mente, a ns dirigida, expressa em termos humanos,
para que possamos compreend-la.

     Penso que um novo mundo surgir entre as nebulosidades religiosas, quando nos aproximarmos da
Bblia munidos da idia de que se trata no somente de um livro que foi falado numa certa poca, mas que
ainda continua falando. Os profetas sempre afirmavam:

       esta a substncia moral que se compe o chamado mundo civilizado. Todo o ambiente est
contaminado; ns o respiramos a cada momento e bebemos dele juntamente com o leite materno. A cultura
e a educao refinam apenas superficialmente essas qualidades negativas, mas deixam-nas basicamente
intactas. Todo um mundo literrio foi criado para defender a tese de que esta  a nica maneira normal de
se viver. E isso se torna ainda mais estranho quando percebemos que so justamente esses os males que
tanto amarguram a existncia de todos ns. Todas as nossas preocupaes e muitas de nossas mazelas
fsicas originam-se diretamente dos nossos pecados. O orgulho, a arrogncia, o ressentimento, os maus
pensamentos, a malcia, a cobia -- essas so as fontes de todas as enfermidades que afligem a nossa carne.

     Em um mundo como este, as palavras de Jesus soam de um modo maravilhoso e totalmente novo,
como uma visitao do alto. Foi bom que Ele tivesse dito aquelas palavras, porque ningum poderia t-lo
feito to bem quanto Ele, e ns deveramos dar ouvidos  Sua voz. Suas palavras so a essncia da verdade.
Ele no estava apenas exprimindo Sua opinio; Jesus jamais apresentou opinies Ele nunca fazia
conjecturas; pelo contrrio Ele sabia e sabe todas as coisas. Suas palavras no foram, como as de Salomo, a
smula de uma profunda sabedoria ou o resultado de uma cuidadosa observao. Ele falava na plenitude
da Sua divindade, e Suas palavras so a prpria verdade. Ele era o nico que poderia ter dito "bem-aventu-
rados", com a mais completa autoridade, pois Ele  o bendito de Deus que veio a este mundo a fim de
conferir bnos  humanidade. Suas palavras foram apoiadas por feitos mais poderosos do que os de
qualquer outra pessoa da Terra. Obedec-las  prova de grande sabedoria.

    Como geralmente acontecia, Jesus empregou o vocbulo "mansos" numa frase curta e resumida, e s
algum tempo depois foi que passou a explic-lo. No mesmo Evangelho de Mateus, Ele nos fala novamente
nessa palavra e aplica-a  nossa vida. "Vinde a mim todos os que estais cansados e sobrecarregados, e eu
vos aliviarei. Tomai sobre vs o meu jugo, e aprendei de mim, porque sou manso e humilde de corao; e
achareis descanso para as vossas almas. Porque o meu jugo  suave e o meu fardo  leve." (Mt 11:28-30.)
Aqui vemos dois conceitos opostos: fardo e descanso. Este fardo no pesava somente sobre aqueles que ali
se achavam, mas sobre toda a raa humana. No se trata de opresso poltica, nem de pobreza. nem de
trabalho rduo.  um problema bem mais complexo do que isso. Os ricos e os pobres o sentem da mesma
forma, porque  um estado do qual nem riquezas nem lazeres podem nos libertar.

     O fardo que pesa sobre a humanidade  grande e esmagador. O termo empregado pelo Senhor Jesus
indica que  um peso que levamos conosco, ou uma fadiga que chega  exausto. O descanso 
simplesmente o alvio que sentimos quando essa carga nos  tirada dos ombros. No se trata de algo que
fazemos, mas de algo que nos  proporcionado, quando deixamos de fazer outra coisa. A Sua prpria
mansido -- esse  o nosso descanso.

     Faamos um exame desse fardo. Ele se localiza em nosso ntimo. Chega primeiramente ao corao e 
mente, e atinge o nosso corpo de dentro para fora. Primeiramente h o fardo do orgulho. Nosso esforo
para resguardar o amor-prprio  realmente exaustivo. Se procurarmos examinar nossa vida,
verificaremos que muitas das nossas aflies tm origem no fato de algum ter falado de modo
depreciativo a nosso respeito. Enquanto o homem se considerar um pequeno deus, o qual deve tributar sua
lealdade, haver sempre aqueles que se deleitaro cm afrontar seu dolo. Como, ento, esperamos ter paz
interior? O veemente esforo que o corao envida para defender-se contra as injrias, para proteger a sua
honra sensvel, contra toda opinio desfavorvel da parte de amigos e adversrios jamais permitir que sua
mente goze paz. Se persistirmos nessa luta, com o passar dos anos, o fardo se tornar simplesmente intole-
rvel. No entanto, os homens continuam levando essa carga pela vida afora, desafiando cada palavra
proferida contra eles, ressentindo-se contra toda crtica, magoando-se profundamente com a mais leve
indiferena, revolvendo-se insones cm seus leitos, se outros forem preferidos em lugar deles.

    Todavia ningum  obrigado a carregar um fardo pesado como esse. Jesus nos convida a descansar
nEle. e a mansido  o mtodo aplicado. O homem manso no se importa se algum for maior do que ele,
porque h muito compreendeu que as coisas que o mundo aprecia no so importantes para ele, e no vale
a pena lutar por elas. Pelo contrrio, desenvolve para consigo mesmo um interessante senso de humor e
passa a dizer: "Ah, ento voc foi esquecido, hein? Passaram voc para trs, no ? Disseram at que voc 
um traste sem importncia? E agora voc est ressentido porque os outros esto dizendo exatamente
aquilo que voc mesmo tem dito sobre si? Ainda ontem voc disse a Deus que no representa nada, que 
apenas um verme que vem do p. Onde est a coerncia? Vamos, humilhe-se, deixe de preocupar-se com o
que os homens pensam."

     O homem manso no  covarde nem vive atormentado por reconhecer sua prpria inferioridade. Pelo
contrrio, seu esprito  valente como um leo e forte como um Sanso; porm, deixou de iludir a si
prprio. Reconheceu que  correta a avaliao que Deus faz de sua prpria vida. Compreende que  fraco e
necessitado tal como Deus afirmou que ele ; mas, paradoxalmente, ao mesmo tempo sabe que, aos olhos
de Deus,  mais importante que os prprios anjos. Nada representa em si mesmo, mas em Deus, tudo. Esse
 o seu lema. Sabe perfeitamente bem que o mundo jamais o ver como Deus o v, e por isso deixou h
muito de importar-se com os conceitos dos homens. Sente-se plenamente satisfeito em deixar que Deus
restabelea os seus valores. Aguarda pacientemente o dia em que todas as coisas, sero julgadas, e o seu
verdadeiro valor ser reconhecido por todos. S ento  que os justos resplandecero no reino de seu Pai.
Ele est disposto a esperar esse dia.

    Nesse nterim, ter encontrado descanso para sua alma. Se andar em mansido, ele ficar satisfeito em
permitir que Deus o defenda. | no precisa lutar para defender o seu "eu", porque encontrou a paz que a
mansido proporciona.

     Outrossim, ficar livre do fardo do fingimento. Quando digo fingimento no me refiro  hipocrisia, mas
o desejo muito comum no homem de mostrar ao mundo o seu lado melhor, ocultando sua verdadeira
pobreza e misria internas. Pois o pecado tem usado conosco de muitas artimanhas traioeiras, e uma delas
foi incutir em ns um falso sentimento de vergonha. Dificilmente encontramos algum que queira ser
exatamente o que , sem tentar forjar uma aparncia exterior para o mundo. O temor de ser descoberto
corri o corao humano. O homem de cultura sente-se perseguido pelo receio de algum dia aparecer um
homem mais culto do que ele. O erudito teme encontrar outro mais erudito do que ele. O rico vive
preocupado, sempre com receio de que suas roupas, seu automvel ou sua casa algum dia paream baratos
em comparao com as posses de outro homem mais rico do que ele. Os motivos que impulsionam a
chamada "alta sociedade" no so mais nobres do que esses, e as classes mais pobres, em seu prprio nvel,
tambm, no so muito melhores em suas atitudes.

     Ningum deve menosprezar essas verdades. Esse fardo  real, e, pouco a pouco, ele mata as vtimas
dessa maneira de viver nociva e antinatural. Esta mentalidade adquirida atravs dos anos faz com que a
mansido autntica nos parea irreal como um sonho, e distante como as estrelas.  justamente s vtimas
dessa enfermidade corrosiva que o Senhor Jesus diz: "Deveis tornar-vos como criancinhas." Isso porque as
criancinhas no fazem comparaes dessa natureza, mas alegram-se naturalmente com aquilo que
possuem, sem se incomodar com o que as outras crianas possam ter. Somente quando se tornam maiores,
e o pecado comea a afetar seus coraes,  que aparecem o cime e a inveja. Da por diante so incapazes
de desfrutar do que possuem, se algum tiver algo maior ou melhor. E desde essa tenra idade o fardo passa
a pesar sobre suas almas, e nunca mais as deixa, at que o Senhor Jesus lhes d a libertao.

    Outro pecado que representa uma carga pesada para o homem  a artificialidade. Estou certo de que a
maioria das pessoas vive com um receio ntimo de que algum dia acabaro se descuidando e, talvez, um
amigo ou inimigo consiga ver o interior de suas almas vazias e pobres. Dessa forma, elas vivem numa
constante tenso. As pessoas mais inteligentes vivem preocupadas e alertas, com medo de serem levadas a
dizer algo que parea vulgar ou estpido. As viajadas receiam encontrar algum Marco Polo que lhe fale de
algum lugar remoto, onde jamais estiveram.

    Essa condio antinatural faz parte de nossa triste herana de pecado; em nossos dias, entretanto, o
problema  agravado pelo nosso modo de viver. A propaganda baseia-se quase inteiramente nesse hbito
de preocupar-se com a aparncia externa. Oferecem-se "cursos" sobre este ou aquele campo do saber
humano, os quais apelam claramente para o desejo que a vtima tem de se sobressair. Vendem-se livros,
inventam-se vestes e cosmticos, brincando continuamente com esse desejo que o homem tem de parecer
o que no . A artificialidade  uma maldio que desaparece no momento em que nos ajoelhamos aos ps
do Senhor Jesus e nos rendemos  Sua mansido. Da para a frente no nos incomodaremos com o que as
pessoas pensam a nosso respeito, contanto que Deus nos esteja aprovando. Ento o que somos ser tudo; e
o que parecemos ser descer na escala de valores das coisas que nos interessam. Afastado o pecado, nada
temos de que nos possamos envergonhar. Somente o nosso desejo de prestgio  que nos faz querer
parecer aos outros aquilo que no somos.

     O mundo inteiro est a ponto de sucumbir sob esse fardo tremendo de orgulho e dissimulao.
Ningum pode ser liberto dessa carga a no ser atravs da mansido de Cristo. Uma racionalizao
inteligente pode ajudar, mas muito pouco, pois esse hbito  to forte, que, se o abafarmos aqui, ele surgir
mais adiante. Jesus diz a todos: "Vinde a mim todos os que estais cansados e sobrecarregados, e eu vos
aliviarei. "O descanso oferecido por ele  o descanso da mansido, aquele alvio bendito que sentimos
quando admitimos o que realmente somos, e deixamos de lado todo o fingimento.  preciso bastante
coragem a princpio, mas a graa necessria nos ser dada, pois veremos que estamos partilhando esse
outro jugo com o Filho de Deus. Ele mesmo o chama de "meu jugo", e leva-o ombro a ombro conosco.

    Senhor, torna meu corao como o de uma criana. Livra-me do impulso de competir com os outros,
buscando posio mais elevada entre os homens. Desejo ser simples e ingnuo como uma criana. Livra-me
das atitudes fingidas e da dissimulao. Perdoa-me por haver pensado tanto em mim. Ajuda-me a esquecer a
mim mesmo e a encontrar minha verdadeira paz na Tua contemplao. A fim de que possas responder a esta
orao, eu me humilho perante Ti. Coloca sobre mim Teu fardo suave do autodesprendimento, para que eu
possa encontrar descanso. Amm.



   3. Mansido e Descanso

     Para fornecer um quadro fiel da raa humana a algum que a desconhecesse, bastaria que tomssemos
as bem-aventuranas e invertssemos o seu sentido.

    Para fornecer um quadro fiel da raa humana a algum que a desconhecesse, bastaria que tomssemos
as bem-aventuranas e invertssemos o seu sentido. Ento poderamos dizer: "Eis aqui a raa humana." Pois
a verdade  que as caractersticas que distinguem a vida e a conduta dos homens so justamente o oposto
das virtudes enumeradas nas bem-aventuranas.

     Neste mundo dos homens no vemos nada que se aproxime pelo menos um pouco das virtudes que
Jesus mencionou logo no incio de Seu famoso Sermo do Monte. No lugar da humildade de esprito,
encontramos o orgulho em seu mais alto grau; em lugar de pranteadores, encontramos somente os que
buscam, os prazeres; em vez de mansido, por toda a parte nos cerca a arrogncia, ao contrrio de fome e
sede de justia, s se ouve os homens exclamando: "Estou rico de bens, e de nada tenho necessidade"; em
vez de misericrdia, contemplamos a crueldade; ao invs de pureza de corao, abundam os pensamentos
corruptos; em vez de pacificadores, os homens so irascveis e rancorosos; em lugar de regozijo em face
das injrias, vemos os homens revidando afronta com todas as armas ao seu alcance.

      esta a substncia moral que se compe o chamado mundo civilizado. Todo o ambiente est
contaminado; ns o respiramos a cada momento e bebemos dele juntamente com o leite materno. A cultura
e a educao refinam apenas superficialmente essas qualidades negativas, mas deixam-nas basicamente
intactas. Todo um munido literrio foi criado para defender a tese de que esta  a nica maneira normal de
se viver. E isso se torna ainda mais estranho quando percebemos que so justamente esses os males que
tanto amarguram a existncia de todos ns. Todas as nossas preocupaes e muitas de nossas mazelas
fsicas originam-se diretamente dos nossos pecados. O orgulho, a arrogncia, o ressentimento, os maus
pensa-mentos, a malcia, a cobia essas so as fontes de todas as enfermidades que afligem a nossa carne.

     Em um mundo como este, as palavras de Jesus soam de um modo maravilhoso e totalmente novo,
como uma visitao do alto. Foi bom que Ele tivesse dito aquelas palavras, porque ningum poderia t-lo
feito to bem quanto Ele, e ns deveramos dar ouvidos  Sua voz. Suas palavras so a essncia da verdade.
Ele no estava apenas exprimindo Sua opinio; Jesus jamais apresentou opinies. Ele nunca fazia
conjecturas; pelo contrrio Ele sabia e sabe todas as coisas. Suas palavras no foram, como as de Salomo, a
smula de uma profunda sabedoria ou o resultado de uma cuidadosa observao. Ele falava na plenitude da
Sua divindade, e Suas palavras so a prpria verdade. Ele era o nico que poderia ter dito "bem-
aventurados", com a mais completa autoridade, pois Ele  o bendito de Deus que veio a este mundo a fim de
conferir bnos  humanidade. Suas palavras foram apoiadas por feitos mais poderosos do que os de
qualquer outra pessoa da Terra. Obedec-las  prova de grande sabedoria. Como geralmente acontecia,
Jesus empregou o vocbulo "mansos" numa frase curta e resumida, e s algum tempo depois foi que passou
a explic-lo. No mesmo Evangelho de Mateus, Ele nos fala novamente nessa palavra e aplica-a  nossa vida.
"Vinde a mim todos os que estais cansados e sobrecarregados, e eu vos aliviarei. Tomai sobre vs o meu
jugo, e aprendei de mim, porque sou manso e humilde de corao; e achareis descanso para as vossas
almas. Porque o meu jugo  suave e o meu fardo  leve." (Mt 11:28-30.) Aqui vemos dois conceitos opostos:
fardo e descanso. Este fardo no pesava somente sobre aqueles que ali se achavam, mas sobre toda a raa
humana. No se trata de opresso poltica, nem de pobreza, nem de trabalho rduo.  um problema bem
mais complexo do que isso. Os ricos e os pobres o sentem da mesma forma, porque  um estado do qual
nem riquezas nem lazeres podem nos libertar.

     O fardo que pesa sobre a humanidade  grande e esmagador. O termo empregado pelo Senhor Jesus
indica que  um peso que levamos conosco, ou uma fadiga que chega  exausto. O descanso 6
simplesmente o alvio que sentimos quando essa carga nos  tirada dos ombros. No se trata de algo que
fazemos, mas de algo que nos  proporcionado, quando deixamos de fazer outra coisa. A Sua prpria
mansido esse  o nosso descanso. Faamos um exame desse fardo. Ele se localiza em nosso ntimo. Chega
primeiramente ao corao e  mente, e atinge o nosso corpo de dentro para fora. (Primeiramente h o fardo
do orgulho) Nosso esforo para resguardar o amor-prprio  realmente exaustivo. Se procurarmos
examinar nossa vida, verificaremos que muitas das nossas aflies tm origem no fato de algum ter falado
de modo depreciativo a nosso respeito. Enquanto o homem se considerar um pequeno deus, o qual deve
tributar sua lealdade, haver sempre aqueles que se deleitaro em afrontar seu dolo. Como, ento,
esperamos ter paz interior? O veemente esforo que o corao envida para defender-se contra as injrias,
para proteger a sua honra sensvel, contra toda opinio desfavorvel da parte de amigos e adversrios
jamais permitir que sua mente goze paz. Se persistirmos nessa luta, com o passar dos anos, o fardo se
tornar simplesmente intolervel. No entanto, os homens continuam levando essa carga pela vida afora,
desafiando cada palavra proferida contra eles, ressentindo-se contra toda crtica, magoando-se
profundamente com a mais leve indiferena, revolvendo-se insones em seus leitos, se outros forem
preferidos em lugar deles.

    Todavia ningum  obrigado a carregar um fardo pesado como esse. Jesus nos convida a descansar
nEle, e a mansido  o mtodo aplicado. O homem manso no se importa se algum for maior do que ele,
porque h muito compreendeu que as coisas que o mundo aprecia no so importantes para ele, e no vale a
pena lutar por elas. Pelo contrrio, desenvolve para consigo mesmo um interessante senso de humor e
passa a dizer: "Ah, ento voc foi esquecido, hein? Passaram voc para trs, no ? Disseram at que voc 
um traste sem importncia? E agora voc est ressentido porque os outros esto dizendo exatamente
aquilo que voc mesmo tem dito sobre si? Ainda ontem voc disse a Deus que no representa nada, que 
apenas um verme que vem do p. Onde est a coerncia? Vamos, humilhe-se, deixe de preocupar-se com o
que os homens pensam."

     O homem manso no  covarde nem vive atormentado por reconhecer sua prpria inferioridade. Pelo
contrrio, seu esprito  valente como um leo e forte como um Sanso; porm, deixou de iludir a si prprio.
Reconheceu que  correta a avaliao que Deus faz de sua prpria vida. Compreende que  fraco e
necessitado tal como Deus afirmou que ele ; mas, paradoxalmente, ao mesmo tempo sabe que, aos olhos
de Deus,  mais importante que os prprios anjos. Nada representa em si mesmo, mas em Deus, tudo. Esse
 o seu lema. Sabe perfeitamente bem que o mundo jamais o ver como Deus o v, e por isso deixou h
muito de importar-se com os conceitos dos homens. Sente-se plenamente satisfeito em deixar que Deus
restabelea os seus valores. Aguarda pacientemente o dia em que todas as coisas sero julgadas, e o seu
verdadeiro valor ser reconhecido por todos. S ento  que os justos resplandecero no reino de seu Pai.
Ele est disposto a esperar esse dia.

    Nesse nterim, ter encontrado descanso para sua alma. Se andar em mansido, ele ficar satisfeito em
permitir que Deus o defenda. J no precisa lutar para defender o seu "eu", porque encontrou a paz que a
mansido proporciona.

     Outrossim, ficar livre do fardo do fingimento. Quando digo fingimento no me refiro  hipocrisia, mas
o desejo muito comum no homem de mostrar ao mundo o seu lado melhor, ocultando sua verdadeira
pobreza e misria internas. Pois o pecado tem usado conosco de muitas artimanhas traioeiras, e uma delas
foi incutir em ns um falso sentimento de vergonha. Dificilmente encontramos algum que queira ser
exatamente o que , sem tentar forjar uma aparncia exterior para o mundo. O temor de ser descoberto
corri o corao humano. O homem de cultura sente-se perseguido pelo receio de algum dia aparecer um
homem mais culto do que ele. O erudito teme encontrar outro mais erudito do que ele. O rico vive
preocupado, sempre com receio de que suas roupas, seu automvel ou sua casa algum dia paream baratos
em comparao com as posses de outro homem mais rico do que ele. Os motivos que impulsionam a
chamada "alta sociedade" no so mais nobres do que esses, e as classes mais pobres, em seu prprio nvel,
tambm, no so muito melhores em suas atitudes.

     Ningum deve menosprezar essas verdades. Esse fardo  real, e, pouco a pouco, ele mata as vtimas
dessa maneira de viver nociva e antinatural. Esta mentalidade adquirida atravs dos anos faz com que a
mansido autntica nos parea irreal como um sonho, e distante como as estrelas.  justamente s vtimas
dessa enfermidade corrosiva que o Senhor Jesus diz: "Deveis tornar-vos como criancinhas." Isso porque as
criancinhas no fazem comparaes dessa natureza, mas alegram-se naturalmente com aquilo que
possuem, sem se incomodar com o que as outras crianas possam ter. Somente quando se tornam maiores,
e o pecado comea a afetar seus coraes,  que aparecem o cime e a inveja. Da por diante so incapazes
de desfrutar do que possuem, se algum tiver algo maior ou melhor. E desde essa tenra idade o fardo passa
a pesar sobre suas almas, e nunca mais as deixa, at que o Senhor Jesus lhes d a libertao.

    Outro pecado que representa uma carga pesada para o homem  a artificialidade. Estou certo de que a
maioria das pessoas vive com um receio intimo de que algum dia acabaro se descuidando e, talvez, um
amigo ou inimigo consiga ver o interior de suas almas vazias e pobres. Dessa forma, elas vivem numa
constante tenso. As pessoas mais inteligentes vivem preocupadas e alertas, com medo de serem levadas a
dizer algo que parea vulgar ou estpido. As viajadas receiam encontrar algum Marco Polo que lhe fale de
algum lugar remoto, onde jamais estiveram.

     Essa condio antinatural faz parte de nossa triste herana de pecado; em nossos dias, entretanto, o
problema  agravado pelo nosso modo de viver. A propaganda baseia-se quase inteiramente nesse hbito de
preocupar-se com a aparncia externa. Oferecem-se "cursos" sobre este ou aquele campo do saber humano,
os quais apelam claramente para o desejo que a vtima tem de se sobressair. Vendem-se livros, inventam-se
vestes e cosmticos, brincando continuamente com esse desejo que o homem tem de parecer o que no . A
artificialidade  uma maldio que desaparece no momento em que nos ajoelhamos aos ps do Senhor Jesus
e nos rendemos  Sua mansido. Da para a frente no nos incomodaremos com o que as pessoas pensam a
nosso respeito, contanto que Deus nos esteja aprovando. Ento o que somos ser tudo; e o que parecemos
ser descer na escala de valores das coisas que nos interessam. Afastado o pecado, nada temos de que nos
possamos envergonhar. Somente o nosso desejo de prestgio  que nos faz querer parecer aos outros aquilo
que no somos.

     O mundo inteiro est a ponto de sucumbir sob esse fardo tremendo de orgulho e dissimulao.
Ningum pode ser liberto dessa carga a no ser atravs da mansido de Cristo. Uma racionalizao
inteligente pode ajudar, mas muito pouco, pois esse hbito  to forte, que, se o abafarmos aqui, ele surgir
mais adiante. Jesus diz a todos: "Vinde a mim todos os que estais cansados e sobrecarregados, Q eu vos
aliviarei. "O descanso oferecido por ele  o descanso da mansido, aquele alvio bendito que sentimos
quando admitimos o que realmente somos, e deixamos de lado todo o fingimento.  preciso bastante
coragem a princpio, mas a graa necessria nos ser dada, pois veremos que estamos partilhando esse
outro jugo com o Filho de Deus. Ele mesmo o chama de "meu jugo", e leva-o ombro a ombro conosco.

     Senhor, toma meu corao como o de uma criana. Livra-me do impulso de competir com os outros,
buscando posio mais elevada entre os homens. Desejo ser simples e ingnuo como uma criana. Livra-me
das atitudes fingidas e da dissimulao. Perdoa-me por haver pensado tanto em mim. Ajuda-me a esquecer
a mim mesmo e a encontrar minha verdadeira paz na Tua contemplao. A fim de que possas responder a
esta orao, eu me humilho perante Ti. Coloca sobre mim Teu fardo suave do autodesprendimento, para
que eu possa encontrar descanso. Amm
# Excertos Extrados de O Poder de Deus

4.     Nascido Depois da Meia-Noite

    Entre cristos afeitos a avivamentos tenho ouvido este ditado: "Os avivamentos nascem depois da
meia-noite".

    um provrbio que, embora no inteiramente verdadeiro, se tomado ao p da letra, aponta para algo
bem verdadeiro.

     Se entendemos que esse ditado significa que Deus no ouve a nossa orao por avivamento, se for feita
durante o dia, evidentemente no  verdadeiro. Se entendemos que significa que a orao que fazemos
quando estamos cansados e exaustos tem maior poder do que a que fazemos quando estamos descansados
e com vigor renovado, outra vez no  verdadeiro. Certamente Deus teria de ser muito austero para exigir
que transformemos a nossa orao em penitncia, ou para gostar de ver-nos impondo-nos punio a ns
mesmos pela intercesso. Traos destas noes ascticas ainda se encontram entre alguns cristos
evanglicos, e, conquanto esses irmos sejam recomendados por seu zelo, no devem ser desculpados por
atribuir inconscientemente a Deus algum vestgio de sadismo indigno at dos seres humanos decados.

    Contudo, h considervel verdade na idia de que os avivamentos nascem depois da meia-noite, pois
os avivamentos (ou quaisquer outros dons e graas espirituais) s vm para os que os desejam com
angustiosa intensidade. Pode-se dizer sem reserva que todo homem  to santo e to cheio de Esprito
como o deseja. Ele no pode estar to cheio como gostaria, mas com toda a certeza est to cheio como
deseja estar.

     Nosso Senhor colocou isto fora de discusso quando disse: "Bem aventurados os que tm fome e sede
de justia, porque sero fartos". Fome e sede so sensaes fsicas que, em seus estgios agudos, podem
tornar-se verdadeira dor. A experincia de incontveis pessoas que procuravam a Deus  que, quando os
seus desejos se tornaram dolorosos, foram satisfeitos repentina e maravilhosamente. O problema no
consiste em persuadir Deus a que nos encha do Esprito, mas em desejar a Deus o suficiente para permitir-
Lhe que o faa. O cristo comum  to frio e se mostra to contente com a sua pobre condio, que no h
nele nenhum vcuo de desejo no qual o bendito Esprito possa derramar-se em satisfatria plenitude.

     Ocasionalmente aparece no cenrio religioso algum cujos anelos espirituais insatisfeitos vo
ganhando tanto volume e importncia em sua vida, que expulsam todos os outros interesses. Tal pessoa se
recusa a contentar-se com as oraes seguras e convencionais dos enregelados irmos que "dirigem em
orao" semana aps semana e ano aps ano nas assemblias locais. Suas aspiraes a levam longe e
muitas vezes o tornam incmodo. Seus irmos em Cristo, perplexos, sacodem a cabea e olham uns para os
outros com ar de entendidos, mas, como o cego que clamou por sua vista e foi repreendido pelos discpulos,
"ele, porm, cada vez gritava mais".

    E se no tiver ainda satisfeito as condies, ou se houver alguma coisa impedindo a resposta  sua
orao, poder prosseguir orando at as horas tardias da noite. No a hora da noite, mas o estado do seu
corao  que decide o tempo da sua visitao. Para este irmo bem pode acontecer que o avivamento
venha depois da meia-noite.

     Todavia,  muito importante que ns compreendamos que as longas viglias em orao, ou mesmo o
forte clamor e as lgrimas, no so em si mesmos atos meritrios. Toda bno flui da bondade de Deus
como de uma fonte. Ainda aquelas recompensas das boas obras sobre as quais certos mestres falam to
servilmente, sempre em contraste agudo com os benefcios recebidos somente pela graa, no fundo so to
certamente de graa como o prprio perdo do pecado. O mais santo apstolo no pode ter a pretenso de
ser mais que um servo intil. Os prprios anjos subsistem graas  pura bondade de Deus. Nenhuma
criatura pode "ganhar" nada, no sentido comum da palavra (de trabalhar para ganhar ou de receber por
merecimento ou de adquirir pagando). Todas as coisas pertencem  bondade soberana de Deus e por ela
nos so dadas.

     A senhora Juliana resumiu lindamente isso quando escreveu: "Honra mais a Deus, e O agrada muito
mais, que oremos fielmente a Ele por Sua bondade e nos apeguemos a Ele por Sua graa, e com verdadeiro
entendimento, permanecendo firmes por amor, do que se empregssemos todos os recursos que o corao
possa imaginar. Pois se usssemos todos os recursos, seria muito pouco, e no honraria plenamente a Deus.
Mas em Sua bondade, a ao  mais que completa, faltando exatamente n a d a . . . Pois a bondade de Deus  a
orao mais elevada, e desce s partes mais fundas da nossa necessidade".

    Apesar de toda a boa vontade de Deus para conosco, Ele no pode atender aos desejos do nosso
corao enquanto os nossos desejos no forem reduzidos a um s. Quando tivermos dominado as nossas
ambies; quando tivermos esmagado o leo e a vbora da carne, e calcado o drago do amor prprio sob
os nossos ps, e nos considerarmos verdadeiramente mortos para o pecado, ento, e s ento, Deus poder
elevar-nos  novidade de vida e encher-nos do Seu bendito Esprito Santo.

      fcil aprender a doutrina do avivamento pessoal e da vida vitoriosa;  coisa completamente diversa
tomar a nossa cruz e afadigar-nos na escalada do sombrio e spero morro da renncia. Aqui muitos so
chamados, poucos escolhidos. Para cada um que de fato passa para a Terra Prometida, muitos ficam por um
tempo, olhando ansiosamente atravs do rio e depois retornam tristemente  segurana relativa das
vastides arenosas da vida antiga.

    No, no h mrito nas oraes feitas a desoras, mas requer disposio mental sria e corao
determinado deixar o comum pelo incomum no modo de orar. A maioria dos cristos nunca o faz. E  mais
que possvel que as poucas almas que se empenham na busca da experincia incomum cheguem l depois
da meia-noite.


5.     Ertico Versus Espiritual

    O perodo em que vivemos bem pode passar  histria como a Era Ertica. O amor sexual foi elevado 
posio de culto. Eros tem mais cultuadores entre os homens civilizados de hoje do que qualquer outro
deus. Para milhes o ertico suplantou completamente o espiritual.

     No  difcil verificar como o mundo chegou a este estado. Entre os favores que contriburam para isso
esto o fongrafo e o rdio, que podem difundir canes de amor de costa a costa sem problema de dias ou
de ocasies; o cinema e a televiso, que possibilitam a toda a populao focalizar mulheres sensuais e
jovens amorosos ferrados em apaixonado abrao (e isto nas salas de estar de lares "cristos" e diante dos
olhos de crianas inocentes!); jornada de trabalho mais curta e uma multiplicidade de artefatos mecnicos
com o resultante aumento do lazer para toda gente. Acrescentem-se a isso tudo as dezenas de campanhas
publicitrias astutamente idealizadas, que fazem do sexo a isca no muito secretamente escondida para
atrair compradores de quase todos os produtos imaginveis; os corruptos colunistas que consagraram a
vida  tarefa de publicar fofas e sorrateiras nulidades com rostos de anjos e com moral de gatas da rua;
romancistas sem conscincia, que conquistam fama duvidosa e se enriquecem graas ao trabalho inglrio
de dragar podrides literrias das imundas fossas das suas almas para dar entretenimento s massas. Estas
coisas nos dizem algo sobre a maneira pela qual Eros conseguiu seu triunfo sobre o mundo civilizado.

     Pois bem, se esse deus nos deixasse a ns, cristos, em paz, eu por mim deixaria em paz o seu culto.
Toda a sua esponjosa e ftida sujeira afundar um dia sob o seu prprio peso e ser excelente combustvel
para as chamas do inferno, justa recompensa recebida, e que nos enche de compaixo por aqueles que so
arrastados em sua ruinosa voragem. Lgrimas e silncio talvez fossem melhores do que palavras, se as
coisas fossem ligeiramente diversas do que so. Mas o culto de Eros est afetando gravemente a igreja. A
religio pura de Cristo que flui como rio cristalino do corao de Deus est sendo poluda pelas guas
impuras que escorrem de trs dos altares da abominao que aparecem sobre todo monte alto e sob toda
rvore verde, de Nova Iorque a Los Angeles.

    Sente-se a influncia do esprito ertico em toda parte quase, nos arraiais evanglicos. Grande parte
dos cnticos de certos tipos de reunies tm em si maior poro de romance do que do Esprito Santo..
Tanto as palavras como a msica se destinam a provocar o libidinoso. Cristo  cortejado com uma
familiaridade que revela total ignorncia de quem Ele . No  a reverente intimidade do santo em
adorao, mas a impudente familiaridade do amante carnal.

     A fico religiosa tambm faz uso do sexo para dar interesse  leitura pblica, a fina desculpa sendo
que, se o romance e a religio forem entretecidos compondo uma histria, a pessoa comum que no leria
um livro puramente religioso ler a histria, e assim se defrontar com o Evangelho. Deixando de lado o
fato de que, na maioria, os romancistas religiosos modernos so amadores de talento caseiro, sendo raros
os capazes de escrever uma nica linha de boa literatura, todo o conceito subjacente ao romance religioso 
errneo. Os impulsos libidinosos e os suaves e profundos movimentos do Esprito so diametralmente
opostos uns aos outros. A noo de que Eros pode ser induzido a servir de assistente do Senhor da glria 
ultrajante. A pelcula "crist" que procura atrair espectadores retratando cenas de amor carnal em sua
propaganda  completamente infiel  religio de Cristo. S quem for espiritualmente cego se deixar levar
por isso.

     A moda atual de usar beleza fsica e personalidades brilhantes na promoo religiosa  outra
manifestao da influncia do esprito romntico na igreja. O balanceio rtmico, o sorriso plstico, e a voz
muito, mas muito alegre mesmo, denunciam a frivolidade religiosa mundana. O executante aprendeu a sua
tcnica da tela da TV, mas no a apreendeu suficientemente bem para ter sucesso no campo profissional.
Da, ele traz a sua produo inepta para o lugar santo e a mascateia, oferecendo-a aos cristos doentios e
inferiores que andam  procura de alguma coisa que os divirta enquanto ficarem dentro dos limites dos
costumes scio-religiosos vigentes.

    Se meu linguajar parece severo,  bom lembrar que no o dirijo a nenhuma pessoa individualmente.
Para com o mundo perdido dos homens, s tenho uma grande compaixo e o desejo de que todos venham a
arrepender-se. Pelos cristos cuja liderana vigorosa mas equivocada tem procurado atrair a igreja
moderna do altar de |eov para os altares do erro, sinto genuno amor e simpatia. Quero ser o ltimo a
ofend-los e o primeiro a perdo-los, lembrando-me dos meus pecados passados e da minha necessidade
de misericrdia, bem como da minha fraqueza pessoal e da minha tendncia natural para o pecado e o erro.
A jumenta de Balao foi usada por Deus para repreender um profeta. Da parece que Deus no exige
perfeio no instrumento que Ele emprega para advertir e exortar o Seu povo.

     Quando as ovelhas de Deus esto em perigo, o pastor no deve contemplar as estrelas e meditar sobre
temas "inspiradores".  obrigado a agarrar sua arma e a correr em defesa delas. Quando as circunstncias o
exigirem, o amor poder usar a espada, embora por sua natureza deva, em vez disso, ligar o corao
quebrantado e atender os feridos.  tempo de o profeta e o vidente se fazerem ouvir e sentir outra vez. Nas
ltimas trs dcadas a timidez disfarada de humildade tem ficado encolhida no seu canto enquanto a
qualidade do cristianismo evanglico vem piorando ano aps ano. At quando. Senhor, at quando?


6.     Para Estarmos Certos, Temos de Pensar Certo

   O que pensamos quando estamos com liberdade para pensar sobre o que queremos ser --  isso que
somos ou logo seremos.

    A Bblia tem muita coisa para dizer acerca dos nossos pensamentos; o evangelismo atual no tem
praticamente nada para dizer sobre eles. A razo por que a Bblia fala tanto deles  que os nossos
pensamentos so vitalmente importantes para ns; a razo por que o evangelismo fala to pouco  que
estamos reagindo exageradamente contra as seitas do "pensamento", como as do Novo Testamento, da
Unidade, da Cincia Crist, e outras semelhantes. Estas seitas fazem os nossos pensamentos ficarem muito
perto de tudo, e nos opomos fazendo-os ficar muito perto de nada. Ambas as posies so erradas.

     Os nossos pensamentos voluntrios no s revelam o que somos; predizem o que seremos. A no ser
aquela conduta que brota dos nossos instintos naturais bsicos, todo o nosso comportamento  precedido
pelos nossos pensamentos e deles se origina. A vontade pode vir a ser serva dos pensamentos, e, em
elevado grau, mesmo as nossas emoes seguem o nosso pensar. "Quanto mais penso nisso. mais louco
fico",  como o homem comum o coloca, e ao faz-lo, no somente relata com preciso os seus processos
mentais, mas tambm paga inconsciente tributo ao poder do pensamento, O pensamento instiga o
sentimento, e o sentimento dispara a ao. Assim fomos feitos, e bem que podemos aceit-lo.

     Os Salmos e os Profetas contm numerosas referncias ao poder que o reto pensamento tem de
inspirar sentimento religioso e de incitar a conduta certa. "Considero os meus caminhos, e volto os meus
passos para os teus testemunhos". "Enquanto eu meditava ateou-se o fogo: ento disse eu com a prpria
lngua. . ." Vezes sem conta os escritores do Velho Testamento nos exortam  aquietar-nos e a pensar em
coisas elevadas e santas como fator preliminar para a correo da vida ou uma boa ao ou um feito
corajoso.

    O Velho Testamento no est sozinho em seu respeito pelo poder do pensamento humano, poder
outorgado por Deus. Cristo ensinou que os homens se corrompem por seus maus pensamentos, e chegou
ao ponto de igualar o pensamento ao ato: "Qualquer que olhar para uma mulher com inteno impura, no
corao j adulterou com ela". Paulo recitou uma lista de fulgentes virtudes, e ordenou: "Seja isso o que
ocupe o vosso pensamento".

    Estas citaes so apenas quatro das centenas que poderiam fazer-se das Escrituras. Pensar em Deus e
em coisas santas cria uma atmosfera moral favorvel ao crescimento da f, bem como do amor, da
humildade e da reverncia. Pelo pensamento no podemos regenerar os nossos coraes, nem eliminar os
nossos pecados, nem mudar as manchas do leopardo. Tampouco podemos com o pensamento acrescentar
um cvado  nossa estatura, ou tornar o mal bem, ou as trevas luz. Ensinar isso  representar falsamente
uma verdade bblica e us-la para a nossa prpria runa. Mas, pelo pensamento inspirado pelo Esprito,
podemos ajudar a fazer de nossas mentes santurios purificados em que Deus ter prazer em habitar.

     Referi-me num pargrafo anterior aos "nossos pensamentos voluntrios", e usei as palavras de
propsito. Em nosso jornadear atravs deste mundo mau e hostil, ser-nos-o impostos muitos
pensamentos de que no gostamos e pelos quais no temos simpatia moral. As necessidades da vida podem
compelir-nos por dias e anos a abrigar pensamentos em nenhum sentido edificantes. O conhecimento
comum do que fazem os nossos semelhantes produz pensamentos repugnantes  nossa alma crist. Estes
necessariamente nos afetam, mas pouco. No somos responsveis por eles, e eles passam por nossas
mentes como um pssaro cruzando os ares, sem deixar rastro. No tm efeito duradouro em ns porque
no so propriamente nossos. So intrusos mal recebidos pelos quais no temos amor e dos quais nos
livramos to depressa quanto possvel.

     Quem quiser verificar sua verdadeira condio espiritual pode faz-lo notando quais foram os seus
pensamentos nas ltimas horas ou dias. Em que pensou quando estava livre para pensar no que lhe
agradasse? Para o qu se voltou o ntimo do seu corao quando estava livre para voltar-se para onde
quisesse? Quando o pssaro do pensamento foi posto em liberdade, voou para longe como o corvo, para
pousar sobre as carcaas flutuantes ou, como a pomba, circulou e voltou para a arca de Deus?  fcil
realizar esse teste, e, se formos sinceros conosco mesmos, poderemos descobrir no s o que somos, mas
tambm o que vamos ser. Logo seremos a suma dos nossos pensamentos voluntrios.

    Conquanto os nossos pensamentos instiguem os nossos sentimentos, e assim influenciem fortemente
as nossas vontades,  contudo certo que a vontade pode e deve ser senhora dos nossos pensamentos. Toda
pessoa normal pode determinar aquilo em que vai pensar. Naturalmente, a pessoa aflita ou tentada pode
achar um tanto difcil controlar os seus pensamentos, e mesmo enquanto se concentra num objeto digno,
pensamentos insensatos e fugidios podem fazer travessuras sobre a sua mente, como vivos relmpagos
numa noite de vero. Tendem estes a ser mais molestos do que perniciosos e, no final das contas, no
fazem muita diferena, sejam isto ou aquilo.

    O melhor meio de controlar os nossos pensamentos  oferecer a mente a Deus em completa submisso.
O Esprito Santo a aceitar e assumir o controle dela imediatamente. Depois ser relativamente fcil
pensar em coisas espirituais, especialmente se treinarmos o nosso pensamento mediante longos perodos
de orao diria. Praticar longamente a arte da orao mental (isto , falar com Deus interiormente,
enquanto trabalhamos ou viajamos) ajudar a formar o hbito do pensamento santo.


7.     A F se Arrisca a Falhar

     Neste mundo os homens so julgados pela habilidade com que fazem as coisas.

     So avaliados de acordo com a distncia que cobriram na escalada do monte da realizao. No sop jaz
o fracasso total; no topo o sucesso completo; e entre esses dois extremos a maioria dos homens civilizados
sua e labuta, da juventude  velhice.

     Alguns desistem e escorregam para o sop, e se tornam ocupantes da Fileira do Raspa-Cho. Ali,
perdida a ambio e rota a vontade, subsistem graas a emprstimos, at a natureza executar-lhes a hipo-
teca e a morte os levar.

    No alto esto os poucos que, por uma combinao de talento, rduo trabalho e boa sorte, conseguem
chegar ao pico, e ao luxo, fama e poder que ali se encontram.

     Mas nisso tudo no h felicidade. O esforo para ter sucesso exerce muita presso sobre os nervos. A
excessiva preocupao com a luta pela conquista aperta a mente, endurece o corao e veda mil vises
fulgurantes que poderiam ser desfrutadas se to-somente houvesse vagar para not-las.

     O homem que chega ao pinculo raramente  feliz por muito tempo. Logo  devorado por temores de
que pode escorregar uma estaca abaixo e ser forado a dar seu lugar a outro. Acham-se exemplos disto no
modo febril como o astro da TV observa a classificao do seu valor, e como o poltico examina a
sua correspondncia.

     Faa-se saber a um magistrado eleito que um levantamento de dados mostra que ele  dois por cento
menos popular em agosto do que fora em maro, e ele comea a suar como um homem a caminho da
priso. O jogador de bola vive por suas mdias de rendimento no campo, o homem de negcio por seu
grfico ascendente, e o concertista pelo medidor dos seus aplausos. No  incomum suceder que o lutador
desafiante no ringue chore abertamente por no conseguir nocautear o campeo. Ser o segundo colocado o
deixa completamente desconsolado; tem de ser o primeiro para ser feliz.

     Esta mania pelo sucesso  a preservao de uma coisa boa. O desejo de cumprir o propsito para o
qual fomos criados , por certo dom de Deus, mas o pecado retorceu este impulso e fez dele uma cobia
egosta pelo primeiro lugar e pelas honras das altas posies. O mundo inteiro dos homens e arrastado por
esta cobia como por um demnio, e no h escape.

     Quando vamos a Cristo entramos num mundo diferente. O Novo Testamento nos apresenta uma
filosofia espiritual infinitamente mais elevada do que a que motiva o mundo, e inteiramente contrria a ela.
Conforme o ensino de Cristo, os humildes de esprito so bem-aventurados; os mansos herdam a terra; os
primeiros so os ltimos, e os ltimos so os primeiros; o maior homem  aquele que serve melhor os
outros; o que perde tudo  o nico que por fim possuir tudo; o homem do mundo coroado de xito ver os
tesouros que acumulou serem varridos pela tempestade do juzo; o mendigo juste vai para o seio de
Abrao, e o rico arde nas chamas do inferno.

     Nosso Senhor morreu em aparente fracasso, desacreditado pelos lderes da religio estabelecida,
rejeitado pela sociedade e abandonado pelos Seus amigos. O homem que O mandou para a cruz foi o
estadista de sucesso cuja mo o ambicioso mercenrio poltico beijara. Coube  ressurreio demonstrar
quo gloriosamente Cristo havia triunfado e quo tragicamente o governador tinha fracassado.

     Contudo, a impresso que se tem hoje  que a igreja no aprendeu nada. Continuamos vendo como os
homens vem e julgando  maneira do julgamento humano. Quanto trabalho religioso leito com
o ativismo do pastor tem por motivao o desejo carnal de fazer e bem! Quantas horas de orao so gastas
pedindo-se a Deus que abenoe projetos arquitetados para a glorificao de pequeninos homens! Quanto
dinheiro sagrado  despejado sobre homens que, a despeito dos seus lacrimosos apelos, s procuram
realizar uma bela e carnal exibio.

     O cristo verdadeiro deve fugir disso tudo, Especialmente os ministros do Evangelho devem sondar os
seus coraes e examinar l no fundo os seus motivos ntimos. Ningum merece sucesso enquanto no
estiver disposto a fracassar. Ningum  moralmente digno de sucesso nas atividades religiosas enquanto
no quiser que a honra da vitria v para outrem, se for esta a vontade de Deus.

    Deus talvez permita que o Seu servo tenha xito depois de o ter disciplinado, a tal ponto que ele no
precise vencer para ser feliz. O homem a quem o sucesso exalta e o fracasso abate  carnal ainda. Na melhor
das hipteses, o fruto que der ter bicho.

    Deus permitir sucesso a Seu servo quando este aprender que o sucesso no o torna mais caro a Deus,
nem mais valioso no esquema global das coisas. No podemos comprovar o favor de Deus com grandes
reunies ou apresentando conversos ou com novos missionrios enviados ou com a distribuio de Bblias.
Todas estas coisas podem ser realizadas sem o auxlio do Esprito Santo. Uma boa personalidade e um
penetrante conhecimento da natureza humana  tudo que qualquer pessoa necessita para ser um sucesso
nos crculos religiosos hoje.

     A nossa grande honra est em sermos precisamente o que Jesus foi e . Ser aceito pelos que O aceitam,
rejeitado pelos que O rejeitam, amado pelos que O amam e odiado por todos os que O odeiam -- que maior
glria poderia advir a algum?

   Podemos dispor-nos a seguir a Cristo rumo ao fracasso. A f se arrisca a falhar. A ressurreio e o juzo
demonstraro perante os mundos todos, quem ganhou e quem perdeu. Podemos esperar.


8.     O Valor de uma Imaginao Santificada

    Como todas as outras faculdades que nos pertencem, a imaginao pode ser bno ou maldio,
dependendo inteiramente de como  utilizada e da medida em que  bem disciplinada.

    Todos temos em algum grau capacidade para imaginar. Este dom nos habilita a ver sentido nos objetos
materiais, a observar semelhanas entre coisas que  primeira vista parecem to diferentes entre si.
Permite-nos saber coisas que os sentidos jamais poderiam dizer-nos, pois com ela somos capazes de ver,
atravs das impresses sensoriais, a realidade que est por trs das coisas.

    Todo avano feito pela humanidade em qualquer campo comeou com uma idia  qual nada
correspondia na ocasio. A mente do inventor simplesmente pegava fragmentos de idias conhecidas e
com eles fazia alguma coisa que, no s era totalmente desconhecida, mas tambm inexistia
completamente na poca. Assim, "criamos" coisas e, ao faz-lo, provamos que fomos feitos  imagem do
Criador. O fato de que muitas vezes o homem decado emprega os seus poderes criadores a servio do mal,
no invalida o nosso argumento. Qualquer talento pode ser usado para o mal como para o bem, mas, no
obstante, todo talento provm de Deus.

     Algumas pessoas que erroneamente confundem a palavra "imaginativo" com a palavra "imaginrio",
talvez neguem que a imaginao  de grande valor no servio de Deus.

     O Evangelho de Jesus Cristo no negocia com coisas imaginrias. O livro mais realista do mundo  a
Bblia. Deus  real, os homens so reais, e real  o pecado, bem como a morte e o inferno para onde o
pecado leva inevitavelmente. A presena de Deus no e imaginria, e a orao no  a indulgncia de uma
deleitvel fantasia. Os objetos que absorvem a ateno do homem que ora, conquanto imateriais. so
contudo completamente reais; mais certamente reais, afinal se haver de convir, do que qualquer objeto
terreno.

     O valor da imaginao purificada na esfera da religio est em seu poder de perceber nas coisas
naturais sombras de coisas espirituais. Ela capacita o homem reverente a
"Ver o mundo num gro de areia e a eternidade numa hora".

    A fraqueza do fariseu do passado era sua falta de imaginao, ou, o que d na mesma, sua recusa em
permitir-lhe entrar no campo da religio. Via o texto com a sua definio teolgica guardada com cuidado, e
no via nada alm disso.
"Uma prmula  margem do rio era para ele uma prmula amarela, e nada mais."

     Quando Cristo veio com a Sua esplendente penetrao espiritual e com Sua fina sensibilidade moral,
parecia ao fariseu um devoto de outra espcie de religio, o que Ele realmente era, se o mundo o tivesse
to-somente compreendido. Ele podia ver a alma do texto, enquanto que o fariseu s podia ver o corpo, e
podia provar sempre que Cristo estava errado apelando para a letra da lei ou para uma interpretao
consagrada pela tradio. O abismo que os separava era grande demais para permitir que coexistissem.
Assim, o fariseu, que estava em condies de faz-lo, entregou o jovem Vidente  morte. Tem sido sempre
assim, e creio que assim ser sempre, at que a terra se encha do conhecimento do Senhor como as guas
cobrem o mar.

     A imaginao, visto que  uma faculdade da mente natural, necessariamente tem de sofrer por suas
limitaes intrnsecas e por uma inerente inclinao para o mal. Embora a palavra, como se acha na Verso
do Rei Tiago (King James Bible), normalmente no signifique imaginao, mas simplesmente raciocnio de
homens cheios de pecado1 no escrevo com o fim de desculpar a imaginao no santificada. Bem sei que
dela como de uma fonte poluda, jorraram correntes de idias malignas que atravs dos anos tm levado os
homens a um comportamento desordenado e destrutivo.

     Contudo, uma imaginao purificada e dirigida pelo Esprito  coisa completamente diversa, e c o que
tenho em mente aqui. Anseio por ver a imaginao liberta de sua priso e recebendo o lugar que por direito
lhe cabe entre os filhos da nova criao. O que estou tentando descrever aqui  o sagrado dom de ver, a
capacidade de olhar alm do vu e contemplar com maravilhado espanto as belezas e os mistrios das
realidades santas e eternas.

    A pesada mente presa  terra no d crdito ao cristianismo. Permitindo-se-]he dominar a igreja
bastante tempo, ela o forar a tomar uma destas duas direes: ou a do liberalismo, no qual achar alvio
numa falsa liberdade; ou a do mundo, onde achar prazer desfrutvel, mas fatal.

     Mas pergunto se tudo isso no est includo nas palavras do nosso Senhor, registradas no Evangelho
Segundo Joo: "Quando vier, porm, o Esprito da verdade, ele vos guiar a toda a verdade, porque no
falar por si mesmo, mas dir tudo o que tiver ouvido, e vos anunciar cousas que ho de vir. Ele me
glorificar porque h de receber do que  meu e vo-lo h de anunciar" (16:13, 14).

    Possuir mente habilitada pelo Esprito  privilgio do cristo, sob a graa, e isto abrange tudo quanto
venho tentando dizer aqui.


9.        Proximidade E Semelhana

    Um problema srio e s vezes angustiante para muitos cristos  sentirem que Deus est longe deles
ou que eles esto longe dEle, o que vem a dar no mesmo.

      difcil regozijar-nos no Senhor quando padecemos deste senso de distncia.  como procurar ter um
claro e quente vero sem sol. Certamente que o maior mal aqui no  intelectual, e no pode ser sanado
com recursos intelectuais; todavia, a verdade tem de penetrar na mente antes de poder entrar no corao, e
por isso vamos raciocinar juntos sobre isso. Nas questes espirituais s pensamos corretamente quando
com ousadia pomos de lado o conceito de espao. Deus  no esprito, e o esprito no habita no espao. O
espao tem a ver com a matria, mas o esprito independe dele. Pelo conceito de espao explicamos a
relao dos corpos materiais, uns com os outros.

     Jamais devemos pensar em Deus como estando espacialmente perto ou distante, pois Ele no est aqui
ou ali, mas leva o aqui e o ali em Seu corao. O espao no  infinito, como alguns pensam; somente Deus 
infinito, e em Sua infinidade Ele absorve todo o espao. "No encho eu os cus e a terra? diz o Senhor". Ele
enche os cus e a terra, como o oceano enche o balde que afundou nele. e assim como o oceano circunda o
balde. Deus o faz com o Universo que Ele enche. "Os cus dos cus no te podem conter". Deus no 
contido. Ele contm.

    Como criaturas terrenas, naturalmente nos inclinamos a pensar mediante analogias terrenas. "Quem
vem da terra  terreno e fala da terra." Deus nos criou como almas viventes e nos deu corpos pelos quais
podemos experimentar o mundo que nos cerca e comunicar-nos uns com os outros. Quando o homem caiu,
mediante o pecado, comeou a pensar que tem alma em vez de o ser. Faz muita diferena, se o homem cr
que  um corpo que tem alma, ou uma alma que tem corpo.

     A alma  interna e oculta, enquanto que o corpo est sempre presente para os sentidos;
conseqentemente, ns tendemos a ser cientes do corpo, e o conceito de perto e remoto, ligado s coisas
materiais, parece-nos plenamente natural. Mas s  vlido quando aplicado s criaturas morais. Quando
tentamos aplic-lo a Deus, no mais retm a sua validade.


1
 Comparem-se, por exemplo, as seguintes verses de Romanos 1:21. quanto  palavra grega que ali ocorre: Almeida, Revista e Corrigida: discursos;
Almeida, Revista e Atualizada: raciocnios. Nota do Tradutor
     Entretanto, quando falamos de estarem os homens "longe" de Deus, falamos verazmente. O Senhor
disse de Israel: " O seu corao est longe de mim", e a temos a definio de perto e longe em nossa relao
com Deus. As palavras se referem, no  distncia fsica, mas  semelhana.

     As Escrituras ensinam claramente que Deus est igualmente perto de todas as partes do Seu universo
(Salmo 139:1-18); contudo, alguns seres experimentam a Sua proximidade e outros no, dependendo da
sua semelhana moral com Ele. E a dessemelhana que produz o senso da remota distncia entre as
criaturas, e entre os homens e Deus.

    Duas criaturas podem estar to perto fisicamente uma da outra que podem tocar-se, mas, dada a
desigualdade de natureza, esto separadas por milhes de quilmetros. Pode-se imaginar a presena de um
anjo e de um gorila na mesma sala, mas a radical diferena entre as suas naturezas impossibilitaria a sua
comunho. Na realidade estariam "longe" um do outro.

    Para a desigualdade moral entre o homem e Deus a Bblia tem uma palavra, alienao, ou profunda
separao, e o Esprito Santo apresenta um horrendo quadro dessa alienao e dos resultados que produz
no carter humano. A natureza humana decada  precisamente oposta  natureza de Deus como revelada
em Jesus Cristo. Uma vez que no h semelhana moral, no h comunho, e da o senso de distncia fsica,
o sentimento de que Deus est longe no espao. Esta noo errnea desencoraja e impede muitos
pecadores de crerem para a vida.

     Paulo animou os atenienses lembrando-lhes que Deus no estava longe de nenhum deles, que era nEle
que viviam, moviam-se e existiam. Todavia, os homens pensam que Ele est mais longe do que a mais
distante estrela. A verdade  que Ele est mais perto de ns do que estamos ns mesmos.

    Como pode, porem, o pecador ligar o tremendo abismo que o separa de Deus na experincia real? A
resposta  que ele no pode faz-lo, mas a glria da mensagem crist  que Cristo o fez. Pelo sangue da Sua
cruz, Ele fez a paz, para poder reconciliar consigo mesmo todas as coisas. "E a vs outros tambm que
outrora reis estranhos e inimigos no entendimento pelas vossas obras malignas. agora, porm, vos
reconciliou no corpo da sua carne, mediante a sua morte, para apresentar-vos perante ele santos,
inculpveis e irrepreensveis" (Colossenses 1:21,22).

    O novo nascimento faz-nos partcipes da natureza divina. A comea a obra de desfazer a desigualdade
entre ns e Deus. Da ela progride pela santificante operao do Esprito Santo, at dar plena satisfao a
Deus.

    Essa e a teologia da matria em foco, mas como j disse, mesmo a alma regenerada pode sofrer com o
sentimento de que Deus est longe dela. Que dever fazer, ento?

    Primeiro, pode ser que o problema no seja mais que uma temporria ruptura na comunho
consciente com Deus devida a uma dentre meia centena de causas. A cura  a f. Confie em Deus em meio 
escurido at voltar a luz.

    Segundo, caso o senso da distncia persista, apesar das oraes e aquilo que voc cr que  f, sonde a
sua vida interior em busca de evidncias de atitudes erradas, maus pensamentos ou defeitos de carter.
Essas coisas diferem de Deus e criam um abismo psicolgico entre voc e Ele, Expulse de si o mal, creia, e o
senso de proximidade se restaurar. Deus nunca foi o primeiro a se afastar.


10.    Por Que Somos Indiferentes Quanto ao Retorno de Cristo

    Logo depois do trmino da primeira guerra mundial, ouvi um grande pregador do sul dizer que temia
que o intenso interesse pela profecia generalizada naquela poca resultaria na morte da bendita esperana
quando os eventos provassem que os entusisticos intrpretes estavam errados.

    O homem era profeta, ou pelo menos um estudioso notavelmente perspicaz da natureza humana, pois
aconteceu exatamente e que ele predisse. A esperana da vinda de Cristo est quase morta hoje em dia
entre os cristos bblicos.
    No significa que tenham abandonado a doutrina do segundo advento. De modo nenhum. Tem havido,
como todas as pessoas bem informadas sabem, um ajustamento entre alguns dos pontos doutrinrios
menores do nosso credo, mas a imensa maioria dos evanglicos firmes continua sustentando a crena em
que Jesus Cristo algum dia voltar de fato  terra em pessoa. A vitria final de Cristo  aceita como uma das
inabalveis doutrinas da Escritura Sagrada.

     verdade que em alguns rinces as profecias da Bblia so expostas ocasionalmente. Isto acontece
especialmente entre os cristos hebreus que. por razes muito compreensveis, parecem sentir-se mais
perto dos profetas do Velho Testamento do que os crentes gentios. O amor que votam a seu povo leva-
os naturalmente a apegar-se a toda esperana de converso e restaurao ltima de Israel. Para muitos
deles o retorno de Cristo representa rpida e feliz soluo do "problema judeu". Os longos sculos de
peregrinao terminaro quando Ele vier, e Deus nesse tempo restaurar "o reino a Israel". No ousamos
deixar que o nosso profundo amor por nossos irmos cristos hebreus nos cegue para as bvias
implicaes polticas deste aspecto da esperana messinica. No os censuramos por isso. Apenas
chamamos a ateno para o fato.

     Todavia, o retorno de Cristo como bendita esperana est quase morto entre ns, como j disse. A
verdade referente ao segundo advento onde  apresentada hoje,  na maior parte acadmica ou poltica. O
jubiloso elemento pessoal falta por completo. Onde esto aqueles que
"Tanto anseiam pelo sinal
 Cristo, do Teu cumprimento;
pelo chamejar desvanecem,
                                      dos Teus passos em Teu advento?"
     A aspirao por ver a Cristo que queimava o peito daqueles primeiros cristos parece ter-se queimado
toda. Tudo que resta so cinzas.  precisamente o "anseio" e o "desvanecimento" pelo retorno de Cristo que
distingue entre a esperana pessoal e a teolgica. O mero conhecimento da doutrina correta  pobre
substituto de Cristo, e a familiaridade com a escatologia do Novo Testamento nunca tomar o lugar do
desejo inflamado de amor de fitar Sua face.
     Se o ardoroso anelo desapareceu da esperana do advento hoje, deve haver razo para isto; acho que
sei qual , ou quais so, pois h um bom nmero delas. Uma  simplesmente que a teologia fundamentalista
popular tem dado nfase  utilidade da cruz, e no  beleza dAquele que nela morreu. A relao do salvo
com Cristo  apresentada como contratual, em vez de pessoal. Tem-se acentuado tanto a "obra" de Cristo,
que esta eclipsou a pessoa de Cristo. Permitiu-se que a substituio tomasse o lugar da identificao. O que
Ele fez por mim parece mais importante do que o que Ele  para mim. V-se a redeno como uma
transao de negcio direto que "aceitamos"; e  coisa toda fica faltando contedo emocional. Temos de
amar muito a algum, para ficarmos despertos esperando a sua vinda, e isso talvez explique a ausncia de
vigor na esperana do advento entre aqueles que ainda crem nela.

     Outra razo da ausncia de real anseio pelo retorno de Cristo  que os cristos se sentem to bem
neste mundo que tm pouco desejo de deix-lo. Para os lderes que regulam o passo da religio e
determinam o seu contedo e a sua qualidade, o cristianismo tornou-se afinal notavelmente lucrativo. As
ruas de ouro no exercem atrao muito grande sobre aqueles que acham fcil amontoar ouro e prata no
servio do Senhor c na terra. Todos queremos reservar a esperana do cu como uma espcie de seguro
contra o dia da morte, mas enquanto temos sade e conforto, por que trocar um bem que conhecemos por
uma coisa a respeito da qual pouco sabemos? Assim raciocina a mente carnal, e com tal sutileza que
dificilmente ficamos cientes disso.

    Outra coisa; nestes tempos a religio passou a ser uma brincadeira boa e festiva neste presente
mundo, e, por que ter pressa quanto ao cu, seja como for? O cristianismo, contrariamente ao que alguns
pensaram,  forma diversa e mais elevada de entretenimento. Cristo padeceu todo o sofrimento. Derramou
todas as lgrimas e carregou todas as cruzes; temos apenas que desfrutar os benefcios das suas dores em
forma de prazeres religiosos modelados segundo o mundo e levados adiante em nome de Jesus.  o que
dizem pessoas que ao mesmo tempo afirmam que crem na segunda vinda de Cristo.

     A histria revela que os tempos de sofrimento da igreja tm sido igualmente tempos de alar os olhos.
A tribulao sempre deu sobriedade ao povo de Deus e o encorajou a buscar e a esperar ansiosamente o
retorno do seu Salvador. A nossa presente preocupao com este mundo pode ser um aviso de amargos
dias por vir. Deus far com que nos desapeguemos da terra de algum modo -- do modo fcil, se possvel; do
difcil, se necessrio.  a nessa vez.
# Excertos Extrados de Deus Fala com o Homem que
Mostra Interesse

11.    Deus Fala com o Homem Que Mostra Interesse

    A Bblia foi escrita em lgrimas e aos que choram revelar os seus melhores tesouros. Deus nada tem a
dizer ao indivduo frvolo.

     Foi a Moiss, um homem atemorizado, que Deus falou no monte, e esse mesmo homem mais tarde
salvou a nao quando se prostrou diante de Deus oferecendo-se para que seu nome fosse apagado do livro
divino a favor de Israel. O longo perodo de jejum e orao de Daniel fez com que Gabriel descesse dos cus
e lhe contasse o segredo dos sculos, Quando o amado Joo chorou muito por no haver ningum digno de
abrir o livro de sete selos, um dos ancios confortou-o com as alegres novas de que o Leo da tribo de Jud
tinha vencido.

     Os salmistas com freqncia escreviam chorando, os profetas mal conseguiam ocultar sua tristeza, e o
apstolo Paulo em sua epstola alegre aos filipenses, derramou lgrimas ao pensar nos muitos inimigos da
cruz de Cristo cujo fim seria a destruio eterna. Os lderes cristos que abalaram o mundo foram todos
homens de dores, cujo testemunho  humanidade brotou de coraes pesados. No existe poder nas
lgrimas em si, mas as lgrimas e o poder sempre estiveram juntos na Igreja dos Primognitos.

    A idia de que os escritos dos profetas abatidos pela tristeza so muitas vezes estudados por pessoas
simplesmente curiosas, que jamais derramaram uma nica lgrima pelos males do mundo no  de modo
algum animadora, Elas especulam sobre os acontecimentos futuros, esquecendo-se de que o nico
propsito da profecia bblica  preparar-nos tanto moral como espiritualmente para o momento que vir.

     A doutrina da volta de Cristo est sendo negligenciada, e pelo que posso constatar ela no exerce hoje
qualquer poder sobre os cristos comuns. Alguns fatores contribuem certamente para isto: mas o principal,
em minha opinio, foi o infortnio sofrido pela verdade proftica entre as duas guerras mundiais, quando
homens de olhos secos decidiram instruir-nos a respeito dos escritos dos profetas lacrimosos. Multides e
ofertas generosas foram o resultado at que os acontecimentos provaram o erro dos mestres em um
grande nmero de pontos; a reao no se fez demorar e a profecia entrou em desfavor junto s massas.
Este foi um truque engenhoso do diabo e funcionou muito bem. Devemos aprender que no  possvel
tratar das coisas santas negligentemente sem sofrer as conseqncias.

     Outra esfera em que os homens sem lgrimas nos prejudicaram muito foi na orao pelos doentes.
Sempre houve homens reverentes, compenetrados, que julgaram ser um dever sagrado orar pelos doentes
para que pudessem ser curados segundo a vontade de Deus. Foi dito que as oraes de Spurgeon
levantaram mais doentes do que as ministraes de qualquer mdico de Londres. Quando os promotores
de olhos secos se apossaram da doutrina, ela foi transformada num negcio lucrativo. Homens de maneiras
suaves, persuasivas, usaram mtodos de venda superiores a fim de fazer grandes fortunas com suas
campanhas. Suas grandes propriedades e esplndidos investimentos financeiros provam como tiveram
xito cm separar os doentes e os sofredores do seu dinheiro. E tudo isto em nome do Homem de Dores que
no tinha onde repousar a cabea.

     Tudo que  feito sem envolver o corao  feito nas trevas, no importa quo bblico parea ser. Pela
lei da justa compensao. o corao do que brinca com assuntos religiosos ser destrudo pelo brilho
excessivo da verdade em que tocar. Os olhos sem lgrimas sero finalmente cegados pela luz que
contemplam.

    Ns que pertencemos s igrejas no-ltrgicas temos a tendncia de considerar com certo desdm
aquelas igrejas que seguem uma forma de servio cuidadosamente prescrita, e certamente deve haver
muito em tais servios que tem pouco ou nenhum significado para o participante comum -- isto no se
deve ao fato de ser programado com detalhes, mas porque o participante comum  o que . Observei,
entretanto, que nosso servio improvisado, planejado pelo lder vinte minutos antes, com freqncia tende
a seguir uma ordem deprimente, cansativa, quase to padronizada quanto a Missa. O servio litrgico 
pelo menos belo, enquanto o nosso quase sempre se destaca por ser feio. O deles foi cuidadosamente
elaborado atravs dos sculos a fim de capturar o mximo de beleza possvel e preservar um esprito de
reverncia entre os adoradores. O nosso  com freqncia algo provisrio, sem nada que o recomende. A
sua proclamada liberdade no passa de simples relaxamento.

     Em teoria, quando a reunio no  planejada, o Esprito Santo opera livremente e isso seria verdadeiro
se todos os adoradores mostrassem reverncia e fossem cheios do Esprito. Mas na maioria das vezes no
h ordem nem Esprito, apenas uma orao de rotina que, exceto por pequenas variaes,  sempre a
mesma, semana aps semana, e alguns hinos que j no eram muito bons desde o incio t com o tempo
perderam todo o seu significado pela repetio.

    Na maioria de nossos cultos dificilmente existe um trao de pensamentos reverentes, nenhum
reconhecimento da unidade do corpo, e pouco ou nenhum senso da Presena divina, nenhum momento de
quietude, solenidade, admirao, temor santo. No geral, o que existe  um regente de cnticos distrado,
que tenta fazer graa, e um encarregado que anuncia cada "nmero" como num programa radiofnico,
esforando-se para dar continuidade ao espetculo.

   Toda a famlia crist est necessitando desesperadamente de uma restaurao da penitncia, da
humildade e das lgrimas. Possa Deus envi-las muito em breve.


12.    A Posio Vital da Igreja

     A expresso mais alta da vontade de Deus nesta era  a igreja que Ele comprou com seu prprio
sangue. Para ter valor conforme os princpios bblicos, toda atividade religiosa precisa fazer parte da igreja.
Quero declarar incisivamente que Deus s aceita aqueles servios que se concentram na igreja e tm nela
sua origem. Escolas dominicais, sociedades para distribuio de folhetos, comits de homens de negcios
cristos, e os muitos grupos independentes trabalhando em uma ou outra fase da religio precisam fazer
uma auto-analise com reverncia e coragem, pois no possuem qualquer significado espiritual verdadeiro
fora da igreja ou em separado dela.

    Segundo as Escrituras, a igreja  a habitao de Deus atravs do Esprito, e como tal o organismo mais
importante debaixo do sol. Ela no  apenas mais uma instituio importante, juntamente com o lar, o
Estado e a escola; mas a mais vital de todas as instituies -- a nica que pode alegar uma origem divina.

      O cnico pode perguntar a que igreja nos referimos, e pode lembrar-nos de que a igreja crist acha-se
to dividida que seria impossvel dizer qual a verdadeira, mesmo que esta exista. No ficamos porm
demasiado constrangidos com o sorriso disfarado do zombador. Por estarmos dentro da igreja,
provavelmente conhecemos as suas falhas melhor do que qualquer pessoa do lado de fora possa conhec-
las, e cremos nela mesmo assim, onde quer que se manifeste num mundo de trevas e incredulidade.

     A igreja  encontrada sempre que o Esprito Santo rena algumas pessoas que confiem em Cristo para
a sua salvao, adorem a Deus em esprito e no tenham qualquer associao com o mundo e a carne. Os
membros podem, devido s circunstncias, estar espalhados sobre a superfcie da terra e separados pela
distncia e pela necessidade, mas em cada verdadeiro membro da igreja abriga-se o instinto comunitrio e
a nsia da ovelha pelo redil e o pastor. Basta dar a alguns cristos verdadeiros uma brecha e eles se
agrupam. organizando e planejando reunies regulares de orao e culto. Nessas reunies ouvem uma
exposio das Escrituras, partem juntos o po de uma ou outra forma segundo julgam melhor, e tentam na
medida do possvel transmitir ao mundo perdido o evangelho da salvao.

     Grupos assim so clulas no Corpo de Cristo, e cada uma delas  uma verdadeira igreja, uma parte real
da igreja maior.  nessas clulas e atravs delas que o Esprito opera na terra. Quem zomba da igreja local
zomba do Corpo de Cristo. A igreja deve ser ainda levada em conta. "As portas do inferno no prevalecero
contra ela."
13.    Organizao: Necessria e Perigosa

    A organizao , de forma bsica, o arranjo de vrias partes de um todo numa relao tal umas com as
outras que um fim desejado possa ser atingido. Isto pode ser feito por consentimento ou compulso,
dependendo das circunstncias.

     Certo nvel de organizao  necessrio em toda parte, atravs de todo o universo criado, e em toda
sociedade humana. Sem ela no poderia haver cincia, governo, unidade familiar, arte, msica, literatura,
nenhuma atividade criativa.

    A vida requer organizao. No existe vida em separado do meio atravs do qual ela se expressa. Ela
no pode subsistir por si mesma, independente de um corpo organizado, sendo achada apenas onde existe
algum corpo, alguma forma em que possa residir. E onde existe corpo e forma existe organizao. O
homem, por exemplo,  a soma de suas partes organizadas e coordenadas e nelas e atravs delas o mistrio
da vida encontra expresso. Quando, por um motivo qualquer, as partes se desorganizam, a vida se acaba e
o homem morre.

     A sociedade exige organizao. Caso os homens devam viver juntos no mundo, eles precisam ter
alguma forma de organizao. Isto foi reconhecido em todas as pocas e lugares e  visto em todos os nveis
da sociedade humana, desde a tribo selvagem at o imprio mundial. De maneira ideal, o objeto do governo
 conseguir ordem com um mnimo de restrio, permitindo ao mesmo tempo um mximo de liberdade ao
indivduo.

     O fato de certa restrio da liberdade individual ser boa e necessria,  algo admitido por todas as
pessoas inteligentes; e que muita restrio produz resultados negativos  tambem algo admitido por todos.
Surge o conflito quando tentamos definir "certa" e "muita". Quanto  "muita"? e quo pouco  "certa"? Se
isto pudesse ser estabelecido a paz desceria sobre o Congresso e o Parlamento, os partidos polticos
entrariam em acordo, e uma criana os levaria pela mo.

     A diferena entre a escravido e a liberdade  apenas questo de grau. Os prprios pases totalitrios
gozam de alguma liberdade, e os cidados das naes livres precisam suportar certo grau de restrio.  o
equilbrio entre ambos os elementos que decide se um dado pas  escravo ou livre. Nenhum cidado bem
informado acredita ser absolutamente livre. Ele sabe que sua liberdade precisa ser restringida de alguma
forma para o benefcio de todos. O mais que pode esperar  que a restrio seja mantida num mnimo. A
este mnimo de limitao ele chama de "liberdade", e to preciosa  ela que est disposto a arriscar sua vida
a fim de mant-la. O mundo ocidental travou duas grandes guerras num espao de vinte e cinco anos a fim
de preservar este equilbrio de liberdade e escapar s restries mais severas que o nazismo e o fascismo
lhe teriam imposto.

      Pela sua formao cristocntrica e religiosa, este escritor naturalmente associa tudo  religio crist.
Desde h muitos anos eu me preocupo com a tendncia de organizar demasiado a comunidade crist, e j
fui acusado por causa disso de no acreditar na organizao. Mas a verdade  muito outra.

     O homem que se opuser a toda organizao na igreja ignora completamente os fatos da vida. A arte  a
beleza organizada; a msica  o som organizado; a filosofia, o pensamento organizado; a cincia, o
conhecimento organizado; o governo no passa de sociedade organizada. E o que  a verdadeira igreja de
Cristo seno o mistrio organizado?

    O pulsar do corao da igreja  vida -- na frase feliz de Henry Scougal, "a vida de Deus na alma do
homem". Esta vida, juntamente com a presena real de Cristo em seu interior, faz da igreja uma entidade
divina, um mistrio, um milagre. Entretanto, sem substncia, forma e ordem esta vida divina no teria onde
habitar, nem meios de expressar-se na comunidade.

     Por este motivo, o Novo Testamento fala muito de organizao. As epstolas pastorais de Paulo e suas
cartas aos cristos de Corinto revelam que o grande apstolo era um organizador. Ele lembrou Tito que o
deixara em Creta a fim de pr ordem nas coisas necessrias e ordenar presbteros em cada cidade. Isto s
pode indicar que Tito foi comissionado pelo apstolo a fim de impor uma espcie de ordem sobre os vrios
grupos de crentes que viviam naquela ilha, e a ordem s pode ser alcanada atravs da organizao.
    Os cristos tm cometido erros em vrias direes por no compreenderem o propsito da
organizao e os perigos resultantes caso ela no seja controlada. Alguns no querem qualquer tipo de
organizao e as conseqncias so confuso e desordem. Estes dois elementos negativos no ajudam a
humanidade nem servem para glorificar a Deus. Outros substituem a vida da igreja pela organizao e
embora tendo o nome de vivos esto na verdade mortos. Outros, ainda, se apaixonam de tal forma pelas
regras e regulamentos que os multiplicam alm de todo bom senso, e logo a espontaneidade se apaga
dentro da igreja e a vida desaparece.

      com este ltimo erro que me preocupo mais. Muitos grupos da igreja pereceram por excesso de
organizao, da mesma forma que outros por falta dela. Os lderes sbios devem ficar vigilantes com
relao a ambos os extremos. O homem pode morrer tanto de presso alta como de baixa, e pouco importa
qual das duas o tenha matado. Ele est igualmente morto de um modo ou de outro. A coisa importante na
organizao da igreja  descobrir o equilbrio escriturstico entre os dois extremos e evit-los a ambos.

      doloroso ver um grupo de cristos felizes, nascidos com simplicidade e unidos pelos laos do amor
celestial, perderem gradualmente seu carter simples, comeando a tentar controlar cada movimento do
Esprito e morrendo lentamente de dentro para fora. Essa foi, porm, a direo que quase todas as
denominaes crists tomaram atravs da Histria, e apesar da advertncia feita pelo Esprito Santo e as
Escrituras, essa  a direo que quase todos os grupos religiosos esto tornando hoje.

    Embora haja algum perigo de que nossos grupos evanglicos possam sofrer atualmente de falta de
organizao apropriada, o perigo real certamente se acha do lado oposto. As igrejas se precipitam em
direo  complexidade, como os patos para a gua. O que se acha por trs disso?

     Em primeiro lugar, penso eu, as razes esto fincadas no desejo carnal por parte de uma minoria bem
dotada de impor-se  maioria menos talentosa e mant-la onde no possa interferir em suas ousadas
ambies. A frase muito citada (e s vezes mal interpretada)  to verdadeira em religio quanto na
poltica: "O poder se inclina a corromper as pessoas e o poder absoluto corrompe totalmente." A vontade
de aparecer e um mal cuja cura no foi ainda descoberta.

    Outro motivo para as nossas superorganizaes  o medo. As igrejas e sociedades fundadas por
homens santos com coragem, f e imaginao santificadas, parecem incapazes de propagar-se no mesmo
nvel espiritual alm de uma ou duas geraes. Os pais espirituais no tiveram capacidade para gerar
outros com coragem e f semelhantes  sua. Os pais tinham Deus e pouco mais, mas seus descendentes
perdem a sua viso e procuram mtodos e constituies para conseguir o poder que seus coraes lhes
mostram faltar-lhes, Os regulamentos e os precedentes endurecem ento, formando uma armadura
protetora, onde podem refugiar-se dos problemas.  sempre mais fcil e seguro encolher o pescoo do que
lutar no campo de batalha,

     Em nossa vida decada existe um forte poder de atrao na complexidade, afastando-nos das coisas
simples e reais. Parece haver uma espcie de triste inevitabilidade por trs de nosso impulso mrbido em
direo ao suicdio espiritual. Apenas atravs da percepo proftica, orao vigilante e trabalho rduo 
que podemos inverter o curso e recuperar a glria perdida.

     No velho cemitrio prximo  histrica Rocha de Plymouth, onde repousam os Patriarcas Peregrinos,
existe uma pedra onde foram gravadas estas solenes palavras (cito de memria): "Aquilo que nossos pais
com tanto esforo conseguiram, no lancemos fora descuidadamente".

     Os evanglicos de nossos dias devem ser suficientemente sbios e aplicar essa frase  nossa prpria
situao religiosa. Continuamos protestantes. Devemos protestar diante do ato despreocupado de lanar
fora nossa liberdade religiosa. A espontaneidade dos primeiros cristos est se perdendo para ns. Um a
um, estamos perdendo aqueles direitos comprados para ns com o sangue da aliana eterna -- o direito de
sermos ns mesmos, o direito de obedecer ao Esprito Santo, o direito de ter pensamentos prprios, o
direito de fazer o que quisermos com nossa vida, o direito de determinar o que fazer com nosso dinheiro,
de acordo com Deus.

    Lembre-se ento, os perigos que enfrentamos no momento no vm de fora, mas de dentro.
14.    As Divises nem Sempre So Ms

    Quando unir-se e quando dividir-se, eis a questo, e uma resposta abalizada exige a sabedoria de um
Salomo.

      Alguns resolvem o problema de maneira simples e prtica: Toda unio  boa e toda diviso  m. Muito
fcil. Mas esta maneira simplista de tratar do assunto ignora as lies de histria e se esquece das
profundas leis espirituais que regem a vida do homem.

    Se os homens bons desejassem a unio e os maus a diviso. ou vice-versa, isso simplificaria as coisas
para ns. Ou se pudesse ser mostrado que Deus sempre une e o diabo sempre divide, seria fcil encontrar
nosso caminho neste mundo confuso. Mas as coisas no so assim.

    Dividir o que deve ser dividido e unir o que deve ser unido faz parte da sabedoria. A unio de
elementos heterogneos jamais  boa mesmo que possvel, nem a diviso arbitrria de elementos se-
melhantes. Isto se aplica certamente tanto s coisas morais e religiosas, como s polticas e cientficas.

     Deus foi quem fez a primeira diviso, quando separou a luz das trevas no momento da criao. Esta
diviso estabeleceu a regra para todo o comportamento divino na natureza e na graa. A luz e as trevas so
incompatveis. Tentar ter ambas no mesmo lugar ao mesmo tempo  tentar o impossvel e o resultado ser
sempre nulo, nem uma nem outra, mas obscuridade e escurido.

     No mundo dos homens, atualmente so poucos os contornos que se destacam. A raa acha-se decada.
O pecado trouxe confuso. O trigo cresce junto com o joio, as ovelhas e os cabritos coexistem, as terras dos
justos e injustos ficam lado a lado na paisagem, a misso tem o bordel como vizinho.

     As coisas, porm, no sero sempre assim. Est chegando a hora em que as ovelhas sero separadas
dos cabritos, o joio do trigo. Deus dividir novamente a luz das trevas e todas as coisas se agruparo
segundo a sua espcie, O joio ir para o fogo junto com o joio, e o trigo para o celeiro com o trigo. A nvoa
se levantar como acontece com a neblina e todos os contornos surgiro ntidos. O inferno ser sempre
reconhecido como inferno e o cu ir revelar-se como o lar de todos os que possuem a natureza do Deus
nico.

    Aguardamos com pacincia essa hora. Enquanto isso, para cada um de ns e para a igreja onde quer
que aparea na sociedade humana, a pergunta repetida deve ser: Com o que devemos unir-nos e do que
separar-nos? A questo de coexistncia no existe aqui. O trigo cresce no mesmo campo com o joio, mas
deve haver polinizao mtua entre eles? As ovelhas pastam junto aos cabritos, mas devem procurar
cruzamento entre as espcies? Os injustos e os justos gozam da mesma chuva e do mesmo sol, mas devem
esquecer suas profundas diferenas morais e casar-se?

     A resposta popular a estas perguntas  afirmativa. Unir-se sempre e os homens sero irmos apesar de
tudo. A unidade  to preciosa que preo algum  demasiado para alcan-la e nada  suficientemente
importante para manter-nos separados. A verdade  sufocada para celebrar a festa de casamento do cu e
do inferno, e tudo isso a fim de apoiar um conceito de unidade que no se baseia na Palavra de Deus.

     A igreja iluminada pelo Esprito no aceita isso. Num mundo cado como o nosso a unidade no  um
tesouro que deva ser comprado ao preo da transigncia. A lealdade a Deus, a fidelidade  verdade e 
preservao de uma boa conscincia so jias mais preciosas do que o ouro de Ofir ou os diamantes
extrados da mina. Por causa dessas jias homens sofreram a perda de propriedades, a priso e at a morte;
por elas, mesmo em pocas recentes, por trs das vrias cortinas, os seguidores de Cristo pagaram at o
ltimo centavo o preo de sua devoo e morreram silenciosamente, desconhecidos e no aplaudidos pelo
grande mundo, mas conhecidos de Deus e caros ao seu corao paterno. No dia em que forem declarados os
segredos de todas as almas, eles iro apresentar-se para receber as obras feitas no corpo. Esses so
certamente filsofos mais sbios do que os seguidores religiosos da unidade sem significado, que no
possuem coragem suficiente para colocar-se contra as modas correntes e que clamam por irmandade s
porque tal coisa acha-se no momento em foco.

   "Divida e conquiste"  o refro cnico dos lderes polticos maquiavlicos, mas Satans sabe tambm
como unir e conquistar. A fim de colocar uma nao de joelhos o ditador em potencial precisa primeiro uni-
la. Atravs de apelos repetidos ao orgulho nacional ou  necessidade de vingar-se de alguma injustia
passada ou presente, o demagogo consegue unir a populao  sua volta. Depois disso  fcil dominar os
militares e submeter o legislativo. Segue-se ento, na verdade, uma unidade quase perfeita, mas trata-se da
unidade do curral ou do campo de concentrao. Vimos isto acontecer vrias vezes neste sculo, e o mundo
ir v-la uma vez mais quando as naes da terra se unirem sob o Anticristo.

    Quando as ovelhas confusas comeam a cair num despenhadeiro, a ovelha que quiser salvar-se
individualmente precisa separar-se do rebanho. A unidade perfeita em tal momento s pode significar
destruio total para todos. A ovelha sbia, para salvar sua prpria pele, se afasta.

    O poder se encontra na unio de coisas homogneas e na diviso das heterogneas. Talvez aquilo que
precisamos nos crculos religiosos de hoje no seja mais unio, mas uma certa diviso sbia e corajosa.
Todos desejam a paz, mas pode ser que o reavivamento use a espada.


15.     A Responsabilidade da Liderana

    A histria de Israel e Jud aponta uma verdade ensinada claramente por toda Histria, isto , que as
massas so ou logo sero aquilo que seus lderes forem. Os reis estabelecem a moral para o povo.

    O pblico jamais tem capacidade de agir em massa. Sem um lder ele fica acfalo e um corpo sem
cabea no tem poder. Algum precisa sempre liderar. Nem mesmo a multido empenhada em saquear e
destruir  to desorganizada quanto parece. Em algum ponto. por trs de toda violncia, existe um lder
cujas idias ela est pondo em prtica.

    Israel rebelou-se algumas vezes contra os seus lderes, mas as rebelies no foram espontneas. O
povo simplesmente voltou-se para um novo lder e seguiu-o. O ponto est em que eles sempre precisaram
de um lder.

    O povo em breve seguia a liderana do rei, qualquer que fosse o seu carter. Eles seguiram Davi na
adorao a Jeov, Salomo na construo do Templo, Jeroboo que fez o bezerro e Ezequias na restaurao
do culto no templo.

     No  um elogio feito s massas o fato de serem to facilmente levadas, mas no estamos interessados
em louvar ou acusar; nossa preocupao  com a verdade, e a verdade  que as pessoas religiosas seguem
os lderes, quer eles sejam bons ou maus. Um homem bom pode transformar o carter geral de todo
um pas, enquanto um clero corrupto e mundano pode levar o pas  escravido. O provrbio s avessas:
"Tal sacerdote, tal povo", resume em quatro palavras uma verdade ensinada claramente nas Escrituras e
demonstrada repetidamente na histria da religio.

     O cristianismo no mundo ocidental de nossos dias  aquilo que seus lderes foram no passado recente
e est se tornando aquilo que seus lderes atuais so. A igreja local logo se assemelha ao seu pastor, e isto 
verdade mesmo naqueles grupos que no crem nos pastores. O verdadeiro pastor de tal grupo no  difcil
de ser identificado, geralmente  aquele que apresenta o argumento mais forte contra qualquer igreja que
lenha um pastor. O lder opinoso da igreja local que tem xito em influenciar o rebanho mediante ensino
bblico ou palestras improvisadas nas reunies pblicas e realmente o pastor, no importa quo
sinceramente negue isso,

     As pssimas condies das igrejas modernas podem ser traadas diretamente aos seus dirigentes.
Quando, como s vezes acontece, os membros de uma igreja local se amotinam e despedem o pastor por
pregar a verdade, mesmo assim esto seguindo um lder. Por trs dessa atitude  certo que se encontra um
dicono ou presbtero carnal (e geralmente abastado) que usurpa o direito de decidir quem deve ser o
pastor e o que ele deve dizer duas vezes cada domingo. Em tais casos o pastor fica incapacitado para guiar
o rebanho. Ele simplesmente trabalha para o lder. Uma situao deveras penosa.

      Certos fatores contribuem para uma liderana espiritual defeituosa, tais como:

    1. Medo. O desejo de ser amado e admirado  forte at mesmo entre o clero. Portanto, em lugar de
contrariar a opinio pblica, o pastor sente-se tentado a manter-se inativo e apenas sorrir amvel mente
para as pessoas, "O temor do homem se transforma em armadilha", diz o Esprito Santo, e isso fica
demonstrado no ministrio mais do que em qualquer outro setor.
     2. As dificuldades financeiras. O ministro protestante quase nunca  bem pago e a famlia do pastor
geralmente  grande. Combine esses dois fatos e voc tem uma situao ideal para criar problemas e
tentaes ao homem de Deus. A tendncia da congregao de suspender as ofertas quando o pregador toca
em seus pontos fracos  bem conhecida. O pastor vive no geral de ano para ano, quase no conseguindo
saldar seus compromissos mensais. Proporcionar  igreja uma liderana moral vigorosa representa quase
um convite aos problemas financeiros e o pastor ento a retm. O mal  que a liderana retida transforma-
se de fato numa espcie de liderana ao inverso. O homem que no leva suas ovelhas montanha acima, as faz
descer sem que o saiba.
     5. Ambio. Quando Cristo no  tudo em todos para o ministro, este  tentado a abrir caminho para si
mesmo, e agradar a multido  um meio j provado de subir nos crculos da igreja. Em vez de guiar os fiis
para onde devem ir, ele habilmente os leva aonde sabe que eles querem ir. Ele aparenta ento ser um lder
ousado. mas evita ofender quem quer que seja, assegurando assim um cargo privilegiado quando a igreja
grande ou a posio mais elevada se oferecerem.
     4. Orgulho intelectual. Os crculos religiosos infelizmente rendem culto  inteligncia. Mas isto, em
minha opinio, no passa de puro estilo "rebelde". Do mesmo modo que o "rebelde" apesar de seus fortes
protestos de individualismo  um dos conformistas mais servis, o jovem intelectual no plpito treme em
seus sapatos brilhantes com medo de dizer algo banal ou comum. Os fiis esperam que ele os leve s verdes
pastagens, mas em vez disso ele os guia em direo ao deserto.
     5. Ausncia de verdadeira experincia espiritual. Ningum pode levar outros para alm do ponto em
que ele mesmo j chegou. Isto explica a falha na liderana de muitos ministros. Eles simplesmente no
sabem para onde ir.
     6. Preparo insuficiente. As igrejas esto cheias de amadores religiosos, culturalmente desclassificados
para servirem no altar, e o povo sofre as conseqncias disso, As ovelhas so desviadas sem se
aperceberem do que est acontecendo,

    As recompensas da liderana santa so to grandes e as responsabilidades do lder to pesadas que
ningum pode deixar de levar a srio esse assunto.


16.    A Orao de um Profeta Menor

     Esta  a orao de um homem chamado como testemunha perante as naes. Foi isto que ele disse ao
Senhor no dia de sua ordenao. Depois de os presbteros e ministros terem colocado as mos sobre ele,
retirou-se para encontrar seu Salvador num lugar secreto e em silncio, bem alm do ponto em que seus
bem intencionados irmos poderiam t-lo levado.

     Foram estas as suas palavras:  Senhor, ouvi a tua voz e fiquei com medo. Tu me chamaste para uma
tarefa terrvel numa hora grave e perigosa. Est prestes a sacudir todas as naes e a terra, assim como o
cu, para que permaneam as coisas que no podem ser abaladas.  Senhor, meu Senhor, Tu te aviltaste
honrando-me como teu servo. Homem algum recebe esta honra salvo aquele que  chamado por Deus
como Aro. Tu me ordenaste teu mensageiro para os duros de corao e difceis de entendimento. Eles te
rejeitaram, a ti, o Mestre, e no posso esperar que me recebam a mim, o servo.

    Deus meu, no perderei tempo deplorando minha fraqueza nem minha incapacidade para a obra. A
responsabilidade no  minha, mas tua, pois disseste: "Eu te conheci -- te ordenei -- te santifiquei", e
tambm afirmaste: "Irs a todos a quem te enviar e dirs tudo aquilo que eu ordenar". Quem sou eu para
argumenta- contigo ou duvidar de sua soberana escolha? A deciso no me cabe, ela  s tua. Assim seja,
Senhor. A tua vontade seja feita e no a minha.

      Bem sei, Deus dos profetas e dos apstolos, que enquanto eu te der honra tu me honrars. Ajuda-
me, pois, a fazer este voto solene de honrar-te em toda a minha vida futura e meu trabalho, na
felicidade ou na desgraa, na vida ou na morte, e manter esse voto enquanto viver.

     Est na hora,  Deus, de entrares em ao, pois o inimigo invadiu as tuas pastagens e as ovelhas foram
destroadas e espalhadas. Os falsos pastores andam por toda parte, negando o perigo e rindo dos riscos
que o teu rebanho corre. As ovelhas esto sendo enganadas por esses mercenrios e os seguem com
lealdade tocante enquanto o lobo se aproxima para matar e destruir. Suplico-te,  Deus, d-me olhos
penetrantes para perceber a presena do inimigo; d-me entendimento para observar e coragem para
contar fielmente o que vejo, Torna minha voz to idntica  tua que at mesmo as ovelhas doentes a
reconheam e te sigam.

    Senhor Jesus, aproximo-me de ti para receber preparo espiritual. Impe sobre mim a tua mo. Unge-
me com o leo do profeta do Novo Testamento. Probe que me transforme num escriba religioso e perca
assim meu chamado proftico. Salva-me da maldio que paira sobre o clero moderno, a maldio da
transigncia, da imitao, do profissionalismo. Salva-me do erro de julgar uma igreja pelo seu tamanho, sua
popularidade ou pelas somas que oferece anualmente. Ajuda-me a lembrar que sou um profeta -- no um
promotor, nem um administrador religioso, mas um profeta. No permita que jamais me torne escravo da
multido. Cura minha alma das ambies carnais e salva-me da atrao da publicidade. Livra-me da
escravido s coisas. No permita que desperdice meus dias com trivialidades. Pe teu terror sobre mim, 
Deus, e leva-me para o lugar de orao onde possa lutar com os principados e potestades e com os
senhores das trevas deste mundo. Livra-me de comer em excesso e dormir tarde. Ensina-me a
autodisciplina para que possa ser um bom soldado de Cristo.

     Aceito trabalho rduo e pequenas recompensas nesta vida. No peo conforto. Procurarei no fazer
uso das pequenas manipulaes que facilitam a vida. Se outros procurarem o caminho mais suave, tentarei
seguir o mais estreito sem julg-los com demasiada severidade. Esperarei oposio e irei aceit-la quando
chegar. Ou, como algumas vezes acontece, se eu vier a receber presentes de agradecimento dados por
pessoas bondosas, fica comigo ento e livra-me do mal que geralmente se segue. Ensina-me a usar o que
quer que receba de modo a no prejudicar minha alma nem diminuir meu poder espiritual. E se em tua
providncia permissiva, eu vier a receber honra atravs da tua igreja, no deixe que me esquea nessa hora
de que sou indigno da menor de tuas misericrdias, e que se algum me conhecesse to bem como eu me
conheo, essas honras no seriam concedidas ou seriam feitas a outros mais dignos de receb-las. E agora,
Senhor do cu e da terra, consagro o restante de meus dias a ti; sejam eles muitos ou poucos, conforme a
tua vontade. Faze-me ficar diante dos grandes ou ministrar aos pobres e humildes; essa escolha no 
minha e no iria influenci-la mesmo que pudesse. Sou teu servo para fazer a tua vontade, e essa vontade 
mais doce para mim do que posio, riqueza ou fama, e eu a prefiro acima de todas as coisas na terra ou no
cu.

    Embora escolhido por ti e honrado por um chamamento sublime e santo, no permita que eu jamais
esquea que no passo de p e cinzas, um homem com todas as falhas e paixes naturais que perseguem a
raa humana. Oro a ti, portanto, meu Senhor e Redentor, salva-me de mim mesmo e de todos os males que
possa fazer a mim mesmo enquanto tento ser uma bno para outros. Enche-me com o teu poder pelo
Esprito Santo, e na tua fora irei e anunciarei a tua justia. Espalharei a mensagem do amor que redime
enquanto tiver foras.

   Ento, Senhor, quando estiver velho e cansado, no mais podendo continuar, prepara um lugar para
mim l no alto, e permite que eu possa ser contado com os teus santos na glria eterna. Amm. AMEM.


17.     Precisa-se: Coragem com Moderao

    O pecado fez um timo trabalho, arruinando-nos por completo, e o processo de restaurao  longo e
vagaroso.

     As obras da graa na vida de cada um talvez nunca venham a ser claras e definidas, mas trata-se sem
dvida da obra de um Deus, a fim de levar de volta  semelhana divina o corao decado. Isto pode ser
visto perfeitamente na dificuldade que experimentamos em conseguir simetria espiritual em nossa vida. A
incapacidade, at mesmo das almas mais piedosas, de manifestar as virtudes crists em igual proporo e
sem qualquer mistura de atributos no-cristos tem sido fonte de muita tristeza para grande nmero de
crentes.

    As virtudes da coragem e moderao, quando mantidas na proporo exata, tornam a vida bem
equilibrada e til no reino de Deus. Quando falta uma delas ou sua presena  reduzida, o resultado 
desastroso, no existe equilbrio e poderes so desperdiados.

      Quase tudo que se escreve com sinceridade, quando examinado de perto, percebe-se ser
autobiogrfico. Ns conhecemos melhor aquilo que experimentamos. Este artigo no  uma exceo. Devo
admitir francamente que se trata de autobiografia, pois o leitor perspicaz descobrira a verdade por mais
que eu tente escond-la.

     Em resumo, poucas vezes fui chamado de covarde, mesmo pelos meus inimigos mais cordiais, mas
minha falta de moderao j foi causa de sofrimento a meus                 amigos mais chegados. Um
temperamento extremado  difcil de dominar e a tentao de fazer uso de mtodos drsticos, imoderados,
no servio do Senhor,  quase irresistvel. Essa tentao  ainda fortalecida pelo conhecimento de ser
praticamente impossvel encostar um pregador na parede e faz-lo engolir as suas palavras. Existe uma
espcie de imunidade ministerial conferida ao homem de Deus que pode levar Boanerges a fazer uso de
uma linguagem extravagante e irresponsvel, a no ser que empregue medidas hericas para colocar a sua
natureza sob o controle do esprito do amor. Falhei algumas vezes nisto e sempre em meu detrimento.

    O contraste entre os caminhos de Deus e os do homem  visto novamente aqui. Em separado da
sabedoria que a experincia penosa pode fornecer, tendemos a alcanar nossos fins mediante o ataque
direto, invadindo o campo inimigo e ganhando a luta com um ataque de surpresa. Foi essa a atitude de
Sanso, e ela funcionou bem exceto por um pequeno descuido: destruiu o vencedor juntamente com os
vencidos! Existe sabedoria no ataque pelo flanco, mas o esprito impetuoso geralmente a rejeita.

    Foi dito a respeito de Cristo: "No contender, nem gritar nem algum ouvir nas praas a sua voz.
No esmagar a cana que brada, nem apagar a torcida que fumega, at que faa vencedor juzo" (Mt
12:20). Ele alcanou seus tremendos objetivos sem esforo fsico excessivo e praticamente sem violncia.
Toda a sua vida foi marcada pela moderao: todavia, foi dentre todos os homens o mais corajoso, ousando
enviar esta mensagem a Herodes que o ameaava: "Ide dizer a essa raposa que hoje e amanh expulso
demnios e curo enfermos, e no terceiro dia terminarei". Existe nisso coragem consumada, mas no
desafio, nenhum sinal de desprezo, nenhuma extravagncia em atos ou palavras. Ele possua coragem com
moderao.

    A falha em alcanar um equilbrio entre essas virtudes j provocou muitos males na igreja no correr do
tempo, e o prejuzo  tanto maior quando os lderes da mesma se envolvem neles. A falta de coragem  um
defeito grave s pode ser um verdadeiro pecado quando leva  transigncia na doutrina ou na prtica. Ficar
parado, a fim de manter a paz a todo custo, permitindo que o inimigo fuja com os vasos sagrados do templo
jamais pode ser o comportamento do verdadeiro homem de Deus. A moderao levada ao extremo no que
se refere s coisas santas no  certamente uma virtude; mas a belicosidade no vence as batalhas
celestiais. A fria do homem no exalta a glria de Deus. Existe um modo correto de fazer as coisas, e ele
jamais inclui a violncia. Os gregos possuam um ditado famoso: "A moderao  o melhor caminho"; e o
provrbio simples do agricultor americano: "devagar se vai longe", contm uma rica e profunda filosofia.

     Deus tem usado e certamente continuar usando os homens apesar de sua falha em possuir tais
virtudes em equilbrio adequado. Elias era homem corajoso; ningum poderia duvidar disso, mas tambm
no se poderia afirmar ser ele homem paciente e moderado. Vencia a batalha de assalto, pela provocao e
no desprezava o uso da stira e da ofensa, quando pensava que isso poderia ajudar. Mas depois de
confundir o inimigo ele passava para o extremo oposto e caa no mais profundo desespero.  isso que
acontece com as naturezas extremadas, o homem de coragem sem moderao.

    Eli, por outro lado, era homem prudente. No sabia dizer "no" nem mesmo para os de sua prpria
famlia. Apreciava a paz sem fundamentos e a tragdia mais negra foi o preo pago pela sua covardia.
Ambos, Elias e Eli, eram homens bons, mas no souberam encontrar o meio-termo ideal. Dos dois, o
ardente Elias foi com certeza o maior.  penoso imaginar o que Eli teria feito na posio de Elias. E eu teria
piedade at de Ofni e Finias caso Elias fosse pai deles!

     Isto nos leva logicamente a pensar em Paulo, o apstolo. Ele parece ter tido uma coragem
praticamente perfeita, juntamente com uma disposio paciente e uma tolerncia realmente divinas. O que
ele poderia ter sido em separado da graa  visto na breve descrio dada a seu respeito antes da
converso. Depois de ter ajudado a apedrejar Estvo at a morte, saiu perseguindo os cristos, "respi-
rando ainda ameaas e morte". Mesmo depois de convertido fazia juzos sumrios quando entrava em
discusso sobre alguma coisa. Sua rejeio de Marcos, por este ter abandonado o trabalho em meio, foi um
exemplo de como tratava os homens quando perdia a confiana neles. Mas o tempo, os sofrimentos e uma
intimidade crescente com o paciente Salvador parecem ter curado esta falha no homem de Deus. Seus
ltimos dias foram cheios de amor, tolerncia e caridade. E isso deve acontecer com todos ns.

      significativo o fato de a Bblia no mencionar a cura de qualquer covarde. Nenhuma "alma tmida"
jamais se transformou em homem corajoso, Pedro  algumas vezes citado como uma exceo, mas nada
existe em seu registro que faa ver nele uma pessoa tmida antes ou depois do Pentecoste. Ele chegou a
tocar a fronteira uma ou duas vezes, mas na maior parte do tempo mostrou-se homem to corajoso que
sempre estava cm apuros por causa de sua ousadia.

    Como a igreja precisa desesperadamente de homens de cora?em neste momento  sabido demais para
que haja necessidade de repeti-lo. O medo paira sobre a igreja como uma maldio antiga. Medo de viver,
de perder o emprego ou a popularidade, medo uns dos outros: esses so os fantasmas que assombram os
homens, os lderes da igreja moderna. Muitos deles, porm, ganham reputao de corajosos repetindo
coisas prudentes, seguras e batidas com ousadia cmica.

    A coragem consciente no  entretanto a cura. Cultivar o hbito de falar francamente, pode
simplesmente resultar em nos tornarmos inconvenientes e causar muitos prejuzos. O ideal parece ser uma
coragem tranqila que no percebe sequer a sua prpria presena. Ela extrai sua fora a cada momento do
Esprito interior e dificilmente se apercebe do "eu". Uma coragem assim ser tambm paciente, bem
equilibrada e livre de extremismos. Possa Deus batizar-nos com essa espcie de coragem.


18.    Este Mundo: Parque de Diverses ou Campo de Batalha?

    As' coisas no so para ns apenas aquilo que so, mas aquilo que julgamos que sejam. O que vale
dizer que nossa atitude em relao a elas em anlise final,  mais importante do que as coisas em si.

    Este  um conhecimento comum, como uma moeda velha, amaciada pelo uso. Todavia, traz sobre si a
marca da verdade e no deve ser rejeitado por ser familiar.

      Um desses fatos  o mundo em que vivemos. Ele est aqui e tem estado aqui atravs dos sculos. Esse 
um fato estvel, praticamente imutvel como o passar do tempo, mas quo diferente  a viso do homem
moderno daquela de nossos pas. Vemos claramente neste ponto como  enorme o poder da interpretao.
O mundo para todos ns no  apenas aquilo que , mas aquilo que cremos que seja. E o sofrimento ou a
felicidade depende em grande parte de nossa interpretao.

    Sem ser preciso ir muito alm da poca em que nosso pas foi descoberto e comeou a desenvolver-se,
podemos observar o imenso contraste entre o comportamento moderno e o de nossos ancestrais. Nos
primeiros tempos, quando o cristianismo exercia influncia predominante sobre o nosso modo de pensar,
os homens concebiam o mundo como um campo de batalha. Nossos pais acreditavam que o pecado, o
diabo e o inferno compunham uma fora nica; enquanto Deus, a justia e o cu eram a fora contrria 
deles. Os dois poderes estavam em luta constante na natureza humana, sendo a sua inimizade profunda,
grave e irreconcilivel. O homem, segundo nossos pais, tinha de escolher qual o lado em que queria ficar;
no podendo manter-se neutro. Para ele era um caso de vida ou morte, cu ou inferno, e se decidisse
colocar-se ao lado de Deus, podia esperar guerra declarada contra os inimigos do Senhor. A luta seria real e
mortfera, durando enquanto houvesse vida aqui na terra. Os homens consideravam o cu como uma volta
da guerra, uma deposio da espada, a fim de gozar da paz do lar preparado para eles.

    Os sermes e hinos daqueles dias tinham quase sempre um tom marcial, ou talvez um trao de
saudade do lar. O soldado cristo pensava no lar, no descanso, na reunio com os seus, e sua voz se alteava
plangente, ao cantar a batalha ganha e a vitria conquistada. Mas quer estivesse enfrentando as armas
inimigas ou sonhando sobre o fim da guerra e a acolhida do Pai, jamais se esquecia da espcie de mundo
em que habitava. Era um campo de batalha e muitos ficavam feridos ou eram mortos.

    Esse conceito  indiscutivelmente bblico. Descontando os smbolos e metforas contidos nas
Escrituras, trata-se mesmo assim de uma doutrina slida: tremendas foras espirituais acham-se presentes
no mundo e o homem, devido  sua natureza espiritual, se encontra preso entre elas. Os poderes malignos
desejam destru-lo, enquanto Cristo acha-se presente para salv-lo mediante o poder do evangelho. A fim
de obter livramento ele deve colocar-se ao lado de Deus em f e obedincia. Em resumo, nossos pais
pensavam dessa forma e, segundo creio,  isso que a Bblia ensina.
     Como tudo mudou hoje: o fato permanece o mesmo, mas a interpretao modificou-se completamente,
Os homens pensam no mundo no como um campo de batalha, mas como um parque de diverses. No
estamos aqui para lutar, mas para nos divertir. Esta no  para ns uma terra estranha, e sim o nosso lar.
No nos preparamos para viver, j estamos vivendo, e o melhor a fazer  livrar-nos de nossas inibies e
frustraes e vivermos plenamente. Em minha opinio, resume-se nisso a filosofia religiosa do homem
moderno, abertamente professada por milhares e tacitamente mantida por outros milhes que vivem
segundo a mesma sem terem dado expresso verbal aos seus conceitos.

     Esta mudana de atitude com relao ao mundo teve e continua tendo seus efeitos sobre os cristos,
at os cristos evanglicos que professam f na Bblia. Atravs de uma curiosa manipulao dos nmeros
eles conseguem uma soma errada, mas alegam ter a resposta certa. Parece fantasia, mas no passa de
verdade.

     O fato de este mundo ser um parque de diverses e no um campo de batalha foi agora aceito na
prtica pela vasta maioria dos cristos evanglicos. Eles poderiam tentar furtar-se a uma resposta se lhes
pedissem diretamente que declarassem a sua posio, mas seu comportamento os acusa. Esto fazendo as
duas coisas, alegrando-se em Cristo e no mundo e contando a todos que  possvel aceitar Jesus sem
abandonar as diverses e que o cristianismo  a coisa mais alegre que se possa imaginar.

   A "adorao" derivada dessa perspectiva de vida  to descentrada quanto o prprio conceito em si,
uma espcie de vida noturna santificada, sem as bebidas e os bbados vestidos a rigor.

     A coisa mostra-se to grave ultimamente que tornou-se agora dever de cada cristo reexaminar sua
filosofia espiritual  luz da Bblia e, uma vez descoberto o caminho das Escrituras, ele deve segui-lo, mesmo
que tenha de separar-se de muita coisa antes aceita como real. mas que agora  luz da verdade sabe ser
falsa.

     Uma viso correta de Deus e do mundo futuro exige que ns tambm tenhamos uma perspectiva do
mundo em que vivemos e nossa relao com ele. Tanta coisa depende disto que no podemos ser
negligentes a este respeito.


19.    A Autoridade Decrescente de Cristo nas Igrejas

    Este  o fardo em meu corao e embora no reivindique para mim mesmo qualquer inspirao
especial, sinto porm que este  tambm o fardo do Esprito.

     Se conheo meu prprio corao  apenas o amor que me leva a escrever isto. O que deixo aqui por
escrito no  o fermento cido de algum agitado por contendas com companheiros cristos. No houve
conflitos. No fui abusado, maltratado ou atacado por ningum. Essas observaes tambm no so fruto
de experincias desagradveis que tenha lido em minha associao com outros. Minha convivncia com a
igreja que freqento assim como cristos de outras denominaes sempre foram amigveis, corteses e
satisfatrias. Minha tristeza resulta simplesmente de uma condio que acredito achar-se quase
universalmente presente nas igrejas.

    Penso que devo tambm reconhecer que eu tambm me encontro bastante envolvido na situao que
deploro aqui. Como Esdras em sua poderosa orao intercessria incluiu-se entre os malfeitores, fao o
mesmo. "Meu Deus! Estou confuso e envergonhado, para levantar a ti a minha face, meu Deus: porque as
nossas iniqidades se multiplicaram sobre a nossa cabea, e a nossa culpa cresceu at os cus" (Ed 9:13).
    Qualquer crtica feita aqui a outros deve voltar-se contra mim. Eu tambm sou culpado. Isto est
sendo escrito na esperana de que possamos todos voltar-nos para o Senhor nosso Deus e no pecar mais
contra Ele.

     Permita que declare a causa do meu fardo: Jesus Cristo no tem hoje quase nenhuma autoridade entre
os grupos que se chamam pelo seu nome. No estou me referindo aqui aos catlico-romanos, nem aos
liberais, nem sequer aos cultos quase-cristos. Refiro-me s igrejas protestantes em geral e incluo aquelas
que protestam mais alto que no se acham num declive espiritual, afastando-se de nosso Senhor e seus
apstolos, a saber, os "evangelicais".
     Trata-se de uma doutrina bsica do Novo Testamento que aps a sua ressurreio o Homem Jesus foi
declarado por Deus como sendo Senhor e Cristo, e que Ele foi investido pelo Pai com absoluta soberania
sobre a igreja que  o seu Corpo. Ele possui toda a autoridade no cu e na terra. Na hora oportuna Ele ir
exerc-la plenamente, mas durante este perodo na histria Ele permite que esta autoridade seja desafiada
ou ignorada. E justamente agora ela est sendo desafiada pelo mundo e ignorada pela igreja.

     A posio atual de Cristo nas igrejas evanglicas pode ser com parada  de um rei numa monarquia
limitada, constitucional. O rei (algumas vezes despersonalizado pelo termo "a Coroa") no passa em tal pas
de um smbolo agradvel de unidade e lealdade, tal como uma bandeira ou hino nacional. Ele  louvado,
festejado e sustentado, mas sua autoridade como rei  insignificante. De maneira nominal lidera a todos,
mas nas horas de crise algum mais toma as decises. Nas ocasies solenes aparece em suas roupagens
reais a fim de pronunciar o discurso inspido, incolor, colocado em seus lbios pelos verdadeiros senhores
do pas. Toda a situao pode no passar de um faz-de-conta incuo, mas tem suas razes no passado e nin-
gum quer desistir dele.
Entre as igrejas evanglicas, Cristo no passa hoje de um Simples smbolo, muito amado. "Todos Louvem o
Poder do Nome de Jesus"  o hino nacional da igreja e a cruz sua bandeira oficial. Mas nos servios
semanais da igreja e na conduta diria de seus membros, algum mais, e no Cristo, toma as decises.
Nas ocasies adequadas, permite-se que Cristo diga: ''Vinde a mim, todos vs que estais cansados e
sobrecarregados" ou "No se turbe o vosso corao", mas no momento em que termina o sermo algum
toma a dianteira. Os que tm autoridade decidem quais devem ser os padres morais da igreja, assim como
todos os objetivos e mtodos empregados para alcan-los. Devido a uma organizao longa e meticulosa, o
jovem pastor recm-sado do seminrio exerce hoje muitas vezes mais autoridade sobre a igreja do que
Jesus Cristo.

    Este artigo foi publicado pela primeira vez no "The Alliance Witness" a 15 de maio de 1963, apenas dois
dias aps a morte do Dr. Tozer. Ele foi, de certa forma, o seu discurso de despedida, pois expressava a
preocupao que ia em seu ntimo.

     Cristo no s tem agora menos ou nenhuma autoridade, Ele tambm est perdendo cada vez mais a
sua influncia. No diria que ela  inexistente, mas sim que  pequena e est diminuindo. Uma comparao
justa seria com a influncia de Abrao Lincoln sobre o povo norte-americano. O honesto Abe continua
sendo o dolo do pas. Seu rosto bondoso, austero, to comum que chega a ser belo, aparece em toda parte.
 fcil sentir os olhos cheios de lgrimas quando pensamos nele. As crianas crescem aprendendo histrias
a respeito do seu amor. honestidade e humildade.

     Mas depois de termos controlado nossas emoes, o que nos resta? Nada mais que um bom exemplo, o
qual,  medida que retrocede no passado se torna cada vez mais irreal e exerce uma influncia cada vez
menor. Qualquer patife est disposto a vestir o casaco de Lincoln, preto e comprido. A luz fria dos fatos
polticos nos Estados Unidos, o constante apelo a Lincoln por parte dos polticos no passa de uma piada
cnica.

    A soberania de Jesus no est de todo esquecida entre os cristos. mas foi relegada ao hinrio, onde
toda responsabilidade em relao a ela pode ser confortavelmente descarregada num brilho de agradvel
emoo religiosa. No caso de ser ensinada como uma teoria na sala de aula, ela  raramente aplicada na
vida diria. A idia de que o Homem Cristo Jesus possui autoridade final e absoluta sobre toda a igreja e
todos os seus membros cm cada detalhe de suas vidas  simplesmente posta de lado hoje como no sendo
verdadeira pelos cristos evanglicos de modo geral.

     O que fazemos  o seguinte: aceitamos o cristianismo de nosso grupo como sendo idntico ao de Cristo
e seus apstolos. As crenas, prticas, tica e atividades de nosso grupo so equacionadas com o
cristianismo do Novo Testamento. O que quer que o grupo pense diga ou faa  bblico, sem que faam
perguntas. Presume-se que tudo que o Senhor nos pede  para ocupar-nos com todas as atividades do
grupo; e, agindo assim, estamos cumprindo os mandamentos de Cristo.

     No sentido de evitar a dura necessidade de obedecer ou rejeitar as claras instrues do Senhor no
Novo Testamento, nos refugiamos na interpretao liberal das mesmas. A casustica no e propriedade
exclusiva dos telogos catlico-romanos. Os evanglicos tambm sabem perfeitamente fugir das arestas
aguadas da obedincia por meio de explicaes sutis e complexas. Estas so feitas sob medida para a
carne. Eles desculpam a desobedincia, acomodam a carnalidade e neutralizam as palavras de Cristo. A
essncia de tudo  simplesmente que Cristo no poderia ter pretendido dizer o que disse. Seus ensinos,
mesmo em teoria, so aceitos apenas depois de terem sido diludos pela interpretao.

    Cristo  porm consultado por um nmero cada vez maior de pessoas com "problemas" e buscado
pelos que desejam paz de mente. Ele  largamente recomendado como uma espcie de psiquiatra espiritual
com poderes notveis para esclarecer os que esto confusos. Jesus  capaz de livr-los de seus complexos
de culpa e ajud-los a evitar graves traumas psquicos atravs de um ajuste suave e fcil  sociedade e a seu
prprio id. Este Cristo estranho no tem naturalmente qualquer ligao com o Cristo do Novo Testamento.
O verdadeiro Cristo  tambm Senhor, mas este Cristo tolerante no passa de um servo do povo um pouco
mais graduado.

    Suponho, todavia, que devo oferecer alguma prova concreta para apoiar minha acusao de que Cristo
tem pouca ou nenhuma autoridade hoje entre as igrejas. Vou fazer ento algumas perguntas e a resposta s
mesmas ser a evidncia.

    Qual a diretoria da igreja que consulta as palavras do Senhor para decidir os assuntos em discusso?
Quem estiver lendo isto e que j tenha feito parte de um quadro diretor, procure lembrar-se das vezes em
que qualquer membro lesse as Escrituras para estabelecer um ponto, ou que qualquer presidente da
reunio sugerisse aos irmos que procurassem as instrues que o Senhor poderia dar-lhes num
determinado assunto. As reunies administrativas so geralmente iniciadas com uma orao formal;
depois disso o Cabea da Igreja fica respeitosamente em silncio enquanto os verdadeiros governantes
passam a agir. Quem quiser negar isto apresente evidncia em contrrio. Ficarei muito contente se isso
acontecer.

    Que comit da Escola Dominica! pesquisa a Escritura pedindo orientao? No  verdade que os
membros invariavelmente julgam que sabem tudo o que precisam fazer e que o nico problema  descobrir
meios eficazes para pr seu plano em prtica? Planos, regras, "operaes" e novas tcnicas metodolgicas
absorvem todo o seu tempo e ateno. A orao antes da reunio  no sentido de pedir ajuda divina para
seus planos. A idia de que o Senhor possa ter algumas instrues para dar-lhes nem sequer lhes cruza
a mente.

    Quem se lembra de um presidente de assemblia ter levado a Bblia para a mesa com ele a fim de
realmente us-la? Minutas, regulamentos, regras da ordem, etc., sim. Os mandamentos sagrados do
Senhor, no. Existe uma absoluta diferena entre o perodo devocional e a sesso de negcios. O primeiro
no tem relao alguma com o segundo,

     Qual a entidade missionria no estrangeiro que realmente busca seguir a orientao do Senhor como
provida pela sua Palavra e seu Esprito? Todas pensam que fazem isso, mas na verdade apenas presumem
que seus objetivos so bblicos e pedem a seguir auxlio para alcan-los. Podem at mesmo orar a noite
inteira a Deus, a fim de que seus empreendimentos tenham xito, mas Cristo  desejado como ajudante e
no como Senhor. Os recursos humanos so projetados para alcanar fins tidos como divinos, A seguir
estes se transformam em regras fixas e da por diante o Senhor no tem sequer o direito de votar a favor ou
contra.

     Na organizao do culto pblico onde se acha a autoridade de Cristo? A verdade  que o Senhor
raramente controla um servio hoje em dia, e sua influncia  bem insignificante. Cantamos a respeito dE!e
e pregamos sobre Ele, mas no permitimos que Ele interfira; adoramos  nossa moda, e esta deve estar
certa porque sempre fizemos isso. como as outras igrejas em nosso grupo.

    Qual o cristo que vai diretamente ao Sermo do Monte ou outra passagem do Novo Testamento para
obter uma resposta com autoridade ao enfrentar um problema moral? Quem aceita as palavras de Cristo
como finais com relao  coleta, controle da na talidade, criao dos filhos, hbitos pessoais, dzimo,
diverses, vendas. compras, e outros assuntos importantes?

     Qual a escola de teologia, a partir do instituto bblico mais humilde, que continuaria a funcionar se
fizesse Cristo Senhor de todos os seus regulamentos? Pode ser que haja alguma, e oro nesse sentido, mas
creio estar certo quando digo que a maioria das escolas a fim de poderem manter-se so foradas a adotar
procedimentos que no encontram justificativa na Bblia que professam ensinar. Vemo-nos ento diante de
uma estranha anomalia: a autoridade de Cristo  ignorada a fim de manter uma entidade que ensina entre
outras coisas a autoridade de Cristo,

    As causas que produziram o declnio da autoridade do Senhor so vrias. Vou citar apenas duas.

    Uma delas  o poder do costume, precedente e tradio nos grupos religiosos mais antigos. Como a lei
da gravitao, essas coisas afetam cada elemento da prtica religiosa dentro do grupo, exercendo uma
presso firme e constante em uma direo. Essa direo. como  natural,  a da conformidade com o estado
de coisas, o "status quo". O costume e no Cristo  senhor nesta situao. E a mesma condio foi
transmitida (talvez num grau um pouco menor) a outras igrejas, tais como os tabernculos, as "holiness
churches". as igrejas pentecostais e fundamentais e as muitas igrejas independentes e no-
denominacionais que se vem por toda parte.

    A segunda causa  o reavivamento do intelectualismo entre os "evangelicais". Se posso julgar
corretamente a situao, no se trata tanto de sede de aprender como do desejo de adquirir uma reputao
de intelectual. Por causa disso, homens bons que deveriam ter-se apercebido da situao, esto sendo
usados para colaborar com o inimigo. Vou explicar.

     Nossa f evanglica (que acredito ser a verdadeira f possuda por Cristo e seus apstolos) est sendo
hoje atacada de muitas direes diferentes. No mundo ocidental o inimigo repudiou a violncia, ele no
vem a ns com a espada e o porrete; vem agora sorrindo, trazendo presentes. Eleva os olhos para o cu e
jura que cr tambm na f possuda por nossos pais, mas seu verdadeiro propsito  destruir essa f, ou
pelo menos modific-la at o ponto de no mais conter o elemento sobrenatural que antes continha. Ele
vem em nome da filosofia, psicologia ou antropologia, e com uma atitude mansa e razovel insiste em que
repensemos a nossa posio histrica, que sejamos menos rgidos, mais tolerantes, mais compreensivos.

     Ele fala no jargo sagrado das escolas e muitos de nossos evanglicos semi-educados correm para
render-lhe culto. Ele atira diplomas acadmicos aos filhos dos profetas, como Rockefeller fazia com os
filhos dos camponeses. Os "evangelicais" que foram acusados, mais ou menos justamente, de no
possurem uma escolaridade de nvel superior, agora procuram agarrar esses smbolos de posio com os
olhos brilhando, e quando os obtm mal conseguem crer na sua boa sorte.

     Para o verdadeiro cristo, o teste supremo de tudo quanto se refere  religio  o lugar que o Senhor
ocupa. Ele  Senhor ou smbolo? Acha-se no controle do projeto ou no passa de um simples ajudante?
Decide as coisas ou apenas colabora na execuo dos planos de outros? Todas as atividades religiosas,
desde o ato mais simples de um nico cristo at as operaes cansativas e dispendiosas de toda uma
denominao, podem ser testadas de acordo com a resposta dada  pergunta: Jesus Cristo  Senhor neste
ato? O fato    de nossas obras provarem ser de madeira, palha e mato em lugar de ouro, prata e pedras
preciosas naquele grande dia, vai depender da resposta certa a essa pergunta.

     Que fazer ento? Cada um de ns deve decidir, e existem trs escolhas possveis. Uma delas  indignar-
se e acusar-me de uma atitude irresponsvel. Outra  concordar de maneira geral com o que escrevi, mas
consolar-se com a idia de que existem excees e estamos entre estas. A terceira  prostrar-se
humildemente e confessar que entristecemos o Esprito e desonramos o Senhor, deixando de dar-lhe a
posio que o Pai lhe conferiu como Cabea e Senhor da Igreja.

     A primeira e a segunda no faro seno confirmar o erro. Mas a terceira, se levada at a sua execuo
final, poder remover a maldio. A deciso  nossa.
# Excertos Extrados de Esse Cristo Incrvel

20.     Esse Cristo Incrvel

      O esforo feito atualmente por tantos lderes religiosos para harmonizar o cristianismo com a cincia,
a filosofia e tudo que  natural e razovel, no passa, a meu ver, de uma falha em entender o cristianismo e,
julgando pelo que ouvi e li, falha tambm em compreender a cincia e a filosofia.

     No mago do sistema cristo encontra-se a cruz de Cristo com o seu paradoxo divino. O poder do
cristianismo se encontra em seu repdio ao comportamento dos homens decados e no em sua aceitao
do mesmo. A verdade da cruz se revela em suas contradies. O testemunho da igreja  mais eficaz quando
declara em lugar de explicar, pois o evangelho  dirigido  f no  razo. O que pode ser provado no exige
f para a sua aceitao. A f repousa sobre o carter de Deus e no sobre as demonstraes de laboratrio
ou lgicas.

    A cruz se destaca em franca oposio ao homem natural. Sua filosofia se ope aos processos da mente
no-regenerada. Foi com essa idia em foco que Paulo afirmou com toda franqueza que a cruz  loucura
para os que perecem. A tentativa de encontrar um ponto comum entre a mensagem da cruz e o raciocnio
do homem decado  tentar o impossvel, e se persistirmos o resultado ser uma lgica prejudicada, uma
cruz sem significado e um cristianismo despido de poder.

    Vamos agora sair da teoria e observar simplesmente o verdadeiro discpulo enquanto pratica os
ensinamentos de Cristo e de seus apstolos. Note as contradies:

     O cristo acredita estar morto em Cristo, mas encontra-se mais vivo do que nunca e espera viver
realmente para sempre. Ele anda na terra embora sentado no cu e apesar de ter nascido neste mundo,
depois de sua converso descobre que este no  o seu lar. Como o curiango, que no ar  a essncia da graa
e formosura mas no cho mostra-se desajeitado e feio, o cristo tambm se destaca nos lugares celestiais,
mas no se entrosa muito bem na sociedade em que nasceu.

     O cristo logo aprende que, se quiser alcanar vitria como um filho do cu entre os homens da terra,
no deve seguir os padres adotados comumente pela humanidade, mas exatamente o sentido oposto. Para
salvar-se, corre perigo; perde a vida a fim de ganh-la e existe a possibilidade de perd-la se tentar
conserv-la. Ele desce para subir. Se se recusa a descer  porque j est embaixo, mas quando comea a
descer est subindo.

     mais forte quando est mais fraco e mais fraco quando se sente forte. Embora pobre tem poder para
tornar ricos a outros, mas quando se enriquece sua capacidade de enriquecer outros se esvai. Ele tem mais
quanto mais d e tem menos quando possui mais.

     Ele pode estar, e no geral est, no alto quanto mais humilde se sente e tem menos pecado quanto mais
se torna consciente do pecado.  mais sbio quando reconhece que nada sabe e tem pouco conhecimento
quando adquire grande cultura. Algumas vezes faz muito quando nada faz e avana rpido ao manter-se
parado. Consegue alegrar-se nas dificuldades e mantm animado o corao mesmo na tristeza.

    O carter paradoxal do cristo revela-se constantemente. Por exemplo, ele cr que est salvo agora,
mas, no obstante, espera ser salvo mais tarde e aguarda alegremente a salvao futura. Ele teme a Deus,
mas no tem medo dEle. Sente-se dominado e perdido na presena de Deus, todavia, no h lugar em que
tanto deseje estar como nessa presena. Ele sabe que foi purificado de suas faltas, mas sente-se
penosamente cnscio de que nada de bom habita em sua carne.

    Ele ama acima de tudo algum a quem jamais viu, e embora seja ele mesmo pobre e miservel,
conversa familiarmente com Aquele que  o Rei de todos os reis e Senhor dos senhores, no percebendo
qualquer incongruncia nisso. Sente que de si mesmo  menos que nada, entretanto cr firmemente ser a
menina dos olhos de Deus e que por sua causa o Filho Eterno se fez carne e morreu na cruz vergonhosa.

      O cristo  um cidado do cu, mostrando-se leal a essa cidadania sagrada. Ele pode, porm, amar seu
pas neste mundo com tal intensidade de devoo comparvel quela que levou John Knox a orar: " Deus,
d-me a Esccia ou morrerei."

     Com entusiasmo aguarda entrar naquele mundo brilhante l de cima, mas no tem pressa de deixar
esta terra e mostra-se perfeitamente disposto a esperar o chamado de seu Pai Celestial. Sente-se tambm
incapaz de compreender por que o incrdulo deva conden-lo por isso; tudo lhe parece to natural e
correto dentro das circunstncias que no v qualquer inconsistncia nisso.

    O cristo que leva a cruz , alm de tudo, um pessimista confirmado e um otimista que no pode ser
igualado por ningum mais neste mundo.

     Quando olha para a cruz  um pessimista, pois sabe que o mesmo juzo que caiu sobre o Senhor da
glria condena nesse ato nico toda a natureza e todo o mundo dos homens. Ele rejeita qualquer esperana
humana fora de Cristo pois sabe que o mais nobre esforo do homem no passa de p edificado sobre p.

     Todavia, o seu otimismo  calmo e repousante. Se a cruz condena o mundo, a ressurreio de Cristo
garante o triunfo final do bem em todo o universo. Atravs de Cristo tudo acabar bem e o cristo aguarda
a consumao. Cristo incrvel!


21.    O Que Significa Aceitar Cristo

    Poucas coisas, felizmente poucas, so assuntos de vida e morte, tal como uma bssola para uma
viagem martima ou um guia para uma viagem atravs do deserto. Ignorar coisas assim vitais no  s
lanar sortes ou correr um risco, mas puro suicdio; ou seja, estar certo ou estar morto.

   Nosso relacionamento com Cristo  uma questo de vida ou morte, e num plano muito superior. O
homem que conhece a Bblia sabe que Jesus Cristo veio ao mundo para salvar os pecadores e que os
homens so salvos apenas por ele sem qualquer influncia por parte de quaisquer obras meritrias deles.

    Tal coisa  verdadeira e sabida, mas a morte e ressurreio de Cristo evidentemente no salvam todos
de maneira automtica. Como o indivduo entra numa relao salvadora com Cristo? Sabemos que alguns
fazem isso, mas  bvio que outros no alcanam esse plano. Como  coberto o abismo entre a redeno
provida objetivamente e a salvao recebida subjetivamente? Como o que Cristo fez por mim opera cm
meu interior? Para a pergunta: "O que devo fazer para ser salvo?" devemos aprender a resposta correta.
Falhar neste ponto no envolve apenas arriscar nossas almas, mas garantir o exlio eterno da face de Deus.
 aqui que devemos estar certos ou perder-nos para sempre.

     Os cristos '"evangelicais" fornecem trs respostas a esta pergunta ansiosa: "Creia no Senhor Jesus
Cristo", "Receba Cristo como seu Salvador pessoal" e "Aceite Cristo". Duas delas so extradas quase
literalmente das Escrituras (At 16:31; [o 1:12), enquanto a terceira  uma espcie de parfrase, resumindo
as outras duas. No se trata ento de trs, mas de uma s.

    Por sermos espiritualmente preguiosos, tendemos a gravitar na direo mais fcil a fim de esclarecer
nossas questes religiosas, tanto para ns mesmos como para outros; assim sendo, a frmula "Aceite
Cristo" tornou-se uma panacia de aplicao universal, e acredito que tem sido fatal para muitos. Embora
um penitente ocasional responsvel possa encontrar nela toda a instruo de que precisa para ter um
contato vivo com Cristo, temo que muitos faam uso dela como um atalho para a Terra Prometida, apenas
para descobrir que ela os levou em vez disso a "uma terra de escurido, to negra quanto as prprias
trevas; e da sombra da morte, sem qualquer ordem, e onde a luz  como a treva".

    A dificuldade est em que a atitude "Aceite Cristo" est provavelmente errada. Ela mostra Cristo
suplicando a ns, em lugar de ns a Ele. Ela faz com que fique de p, com o chapu na mo. aguardando o
nosso veredicto a respeito dEle, em vez de nos ajoelharmos com os coraes contritos esperando que Ele
nos julgue. Ela pode at permitir que aceitemos Cristo mediante um impulso mental ou emocional, sem
qualquer dor, sem prejuzo de nosso ego e nenhuma inconvenincia ao nosso estilo de vida normal.

     Para esta maneira ineficaz de tratar de um assunto vital, podemos imaginar alguns paralelos; como se,
por exemplo, Israel tivesse "aceito" no Egito o sangue da Pscoa, mas continuasse vivendo em cativeiro, ou
o filho prdigo "aceitasse" o perdo do pai e continuasse entre os porcos no pas distante. No fica claro
que se aceitar Cristo deve significar algo,  preciso que haja uma ao moral em harmonia com essa
atitude?

     Ao permitir que a expresso "Aceite Cristo" represente um esforo sincero para dizer em poucas
palavras o que no poderia ser dito to bem de outra forma, vejamos ento o que queremos ou devemos
indicar ao fazer uso dessa frase.

     Aceitar Cristo  dar ensejo a uma ligeira ligao com a Pessoa de nosso Senhor Jesus absolutamente
nica na experincia humana. Essa ligao  intelectual, volitiva e emocional. O crente acha-se
intelectualmente convencido de que Jesus  tanto Senhor como Cristo; ele decidiu segui-lo a qualquer custo
e seu corao logo est gozando da singular doura de sua companhia.

    Esta ligao  total, no sentido de que aceita alegremente Cristo por tudo que Ele . No existe
qualquer diviso covarde de posies, reconhecendo-o como Salvador hoje e aguardando at amanh para
decidir quanto  sua soberania, O verdadeiro crente confessa Cristo como o seu Tudo em Todos sem
reservas. Ele inclui tudo de si mesmo, sem que qualquer parte de seu ser fique insensvel diante da
transao revolucionria.

    Alm disso, sua ligao com Cristo  toda-exclusiva. O Senhor torna-se para ele a atrao nica e
exclusiva para sempre, e no apenas um entre vrios interesses rivais. Ele segue a rbita de Cristo como a
Terra a do Sol, mantido em servido pelo magnetismo do seu afeto, extraindo dEle toda a sua vida, luz e
calor. Nesta feliz condio so-lhe concedidos novos interesses, mas todos eles determinados pela sua
relao com o Senhor.

     O fato de aceitarmos Cristo desta maneira todo-inclusiva e todo-exclusiva  um imperativo divino. A f
salta para Deus neste ponto mediante a Pessoa e a obra de Cristo, mas jamais separa a obra da Pessoa. Ele
cr no Senhor Jesus Cristo, o Cristo abrangente, sem modificao ou reserva, e recebe e goza assim tudo o
que Ele fez na sua obra de redeno, tudo o que est fazendo agora no cu a favor dos seus, e tudo o que
opera neles e atravs deles.

     Aceitar Cristo  conhecer o significado das palavras: "pois, segundo ele , ns somos neste mundo" (1
Joo 4:17). Ns aceitamos os amigos dele como nossos, seus inimigos como inimigos nossos, seus caminhos
como os nossos, sua rejeio como a nossa rejeio, sua cruz como a nossa cruz, sua vida como a nossa vida
e seu futuro como o nosso.

     Se  isto que queremos dizer quando aconselhamos algum a aceitar Cristo, ser melhor explicar isso a
ele, pois  possvel que se envolva em profundas dificuldades espirituais caso no explanarmos o assunto.


22.    A Insuficincia do "Cristianismo Instantneo"

     No  de admirar que o pas que inventou o ch e o caf instantneos tambm desse ao mundo o
cristianismo instantneo. Caso essas duas bebidas no tenham sido realmente inventadas nos Estados
Unidos, foi certamente aqui que receberam o mpeto publicitrio que as tornou conhecidas na maior parte
do mundo civilizado. E no pode ser tambm negado que foi o Fundamentalismo americano que introduziu
o cristianismo instantneo nas igrejas evanglicas.

     Se ignorarmos por um momento o romanismo e o liberalismo em seus vrios disfarces, concentrando
nossa ateno sobre o grande nmero de crentes evanglicos, vemos imediatamente quanto a religio
crist sofreu na casa de seus amigos. O gnio americano para a realizao fcil e rpida de tudo, sem
preocupar-se com a sua qualidade ou permanncia, gerou um vrus que veio a contagiar toda a igreja
evanglica nos Estados Unidos e, atravs de nossa literatura, nossos evangelistas e nossos missionrios,
espalhou-se por todo o mundo.

    O cristianismo instantneo acompanhou a idade da mquina. Os homens inventaram as mquinas com
duas finalidades. Queriam fazer mais rapidamente o trabalho considerado importante e queriam ao mesmo
tempo terminar logo suas tarefas a fim de dedicar-se a coisas mais do seu agrado, tais como o lazer ou
gozar dos prazeres mundanos, O cristianismo instantneo serve agora aos mesmos propsitos na religio.
Ele ignora o passado, garante o futuro e libera o cristo para seguir as inclinaes da carne com toda boa
conscincia e um mnimo de restrio.

    Com a expresso "cristianismo instantneo" estou me referindo ao tipo encontrado quase em toda
parte nos crculos evanglicos, nascidos da idia de que podemos livrar-nos de toda obrigao para com
nossas almas atravs de um s ato de f, ou no mximo dois, ficando tranqilos da por diante quanto 
nossa condio espiritual, sendo ento permitido inferir que no existe razo para termos um carter
santo. Uma qualidade automtica, de uma vez por todas, acha-se presente neste conceito, a qual no se
adapta de maneira alguma  f apresentada no Novo Testamento.

     Neste erro, como na maioria dos outros, encontra-se uma certa parte de verdade imperfeitamente
interpretada.  verdade que a converso a Cristo pode ser, e muitas vezes , repentina. Onde o peso do
pecado se revelou grande, o recebimento do perdo  no geral alegre e claro. A alegria experimentada no
perdo equivale  repugnncia moral de que nos despojamos no arrependimento. O verdadeiro cristo
encontra Deus. Ele sabe que tem a vida eterna e provavelmente sabe onde e quando a recebeu. Os que
foram tambm enchidos com o Esprito Santo aps a sua regenerao sentem perfeitamente a operao
que est sendo realizada neles. O Esprito anuncia-se a si prprio, e o corao renovado no tem
dificuldade em identificar a sua presena  medida que Ele se derrama na alma.

     O problema est em que nos inclinamos a confiar nas nossas experincias e, em conseqncia disso,
interpretamos erradamente todo o Novo Testamento. Somos constantemente exortados a tomar a deciso,
a resolver o assunto imediatamente e, os que nos aconselham nesse sentido esto certos. Existem decises
que podem e devem ser tomadas de uma vez por todas. Certos assuntos pessoais podem ser decididos
instantaneamente mediante um ato determinado da vontade em resposta a uma f bblica. Ningum iria
negar tal coisa, e eu certamente no farei isso.

    A questo que nos enfrenta  esta: O que pode ser realizado atravs desse ato nico de f? Quanto falta
ainda a ser feito e at que ponto uma nica deciso pode levar-nos?

     O cristianismo instantneo tende a considerar o ato de f como um fim em si mesmo e sufoca o desejo
de crescimento espiritual. Ele no compreende a verdadeira natureza da vida crist, que no  esttica mas
dinmica e expansionista. Ele passa por cima do fato de o novo cristo representar um organismo vivo,
como um beb recm-nascido, necessitado de nutrio e exerccio a fim de assegurai o seu crescimento
normal. Ele no considera que o ato de f em Cristo estabelece um relacionamento pessoal entre dois seres
morais inteligentes, Deus e o homem reconciliado, e um encontro nico entre Deus e uma criatura feita 
sua imagem jamais poderia bastar para estabelecer uma amizade ntima entre ambos.

    A tentativa de englobar toda a salvao numa s experincia, ou talvez duas, por parte dos defensores
do cristianismo instantneo zomba da lei do desenvolvimento que abrange toda a natureza. Eles ignoram
os efeitos santificadores do sofrimento, do carregar da cruz e da obedincia prtica. Olvidam tambm a
necessidade de treinamento espiritual, de formar hbitos religiosos corretos e de lutar contra o mundo, o
diabo e a carne.

    A preocupao excessiva com o ato inicial da crena fez nascer em alguns uma psicologia de
acomodao, ou pelo menos de no-expectativa. Para alguns o resultado foi uma decepo com a f crist.
Deus parece demasiado distante, o mundo prximo demais, e a carne muito poderosa e irresistvel. Outros
ficam satisfeitos em aceitar a segurana da bno automtica. Ela os livra da necessidade de vigiar, lutar e
orar, e os considera liberados para gozar deste mundo enquanto aguardam o outro.

    O cristianismo instantneo  a ortodoxia do sculo vinte. Imagino se o homem que escreveu Filipenses
3:7-16 o reconheceria como a f pela qual morreu. Temo que no,



23. No Existe Substituto para a Teologia
    Por sermos o que somos e pelo fato de tudo o mais ser o que , o estudo mais importante e proveitoso
que qualquer de ns pode fazer , sem dvida alguma, o da teologia.
    A teologia provavelmente recebe menos ateno do que qualquer outro assunto, mas isso nada diz
sobre sua importncia ou a falta dela. Esse fato indica porm que os homens continuam ocultando-se da
presena de Deus entre as rvores do jardim e sentem-se terrivelmente constrangidos quando o assunto de
sua relao com Ele  mencionado. Eles sentem sua profunda alienao de Deus e s conseguem viver em
paz consigo mesmo quando se esquecem de que no esto reconciliados com Deus.

    Se no houvesse Deus as coisas seriam muito diferentes para ns. Se no houvesse algum a quem
devssemos finalmente prestar contas, pelo menos um grande peso aliviaria a nossa mente. Precisaramos
viver apenas dentro da lei, o que no  to difcil na maioria dos pases, e nada haveria a temer. Mas se
Deus criou de fato a Terra e colocou nela o homem numa condio de experincia moral, pesa ento sobre
ns a responsabilidade de aprender a vontade de Deus e p-la em prtica.

     Pareceu-me sempre inconsistente que o existencialismo negasse a existncia de Deus e a seguir fizesse
uso da linguagem do tesmo a fim de persuadir os homens a viverem retamente. O escritor francs, Jean-
Paul Sartre, por exemplo, declara francamente que representa o existencialismo ateu. "Se Deus no existe",
diz ele, "no encontramos valores ou mandamentos a que nos ater para dar autenticidade  nossa conduta.
Assim sendo, na escala brilhante de valores no temos desculpa em que nos apoiar nem justificativa 
nossa frente. Estamos ss, sem qualquer desculpa." Todavia, no pargrafo seguinte ele afirma secamente:
"O homem  responsvel pela sua paixo", e logo aps, "O covarde  responsvel pela sua covardice." Essas
consideraes, diz ele, enchem o existencialismo de "angstia, desolao e desespero".

     Em minha opinio, um raciocnio desse tipo deve assumir a verdade de tudo que busca negar. Se no
houvesse Deus no haveria c termo "responsvel". Nenhum criminoso precisa temer um juiz que no
existe; nem necessitaria preocupar-se em infringir uma lei que no tivesse sido imposta. O conhecimento
de que a lei e o juiz de fato existem  que leva o medo ao corao do infrator. Existe algum a quem deve
prestar contas; de outra forma o conceito de responsabilidade no teria significado.

    Em vista de Deus existir e em virtude de o homem ter sido feito  sua imagem, devendo prestar contas
a Ele,  que a teologia se torna crucialmente importante. S a revelao crist possui a resposta s
perguntas no respondidas sobre Deus e o destino da humanidade. Permitir que essas respostas cheias de
autoridade fiquem negligenciadas enquanto buscamos respostas em toda parte e no encontramos
nenhuma, parece-me nada menos que loucura.

    Motorista algum seria perdoado se deixasse de consultar seu mapa rodovirio e tentasse descobrir o
caminho certo atravs dos campos, procurando musgo nos troncos, observando o vo de abelhas silvestres
ou o movimento dos corpos celestiais. Se no houvesse mapas, o indivduo poderia descobrir o caminho
pelas estrelas, mas para o viajante que quer chegar depressa em casa as estrelas seriam um fraco substituto
do mapa.

    Os gregos navegaram muito sem o auxlio de cartas geogrficas; mas os hebreus possuam o mapa e
no tiveram necessidade da filosofia humana. Como algum que conhece relativamente bem o pensamento
grego, acredito que qualquer dos eloqentes captulos de Isaias ou os salmos inspirados de Davi, contm
mais ajuda real para a humanidade do que toda a produo das mais elevadas mentes gregas durante os
sculos de sua glria.

    A negligncia atual das Escrituras inspiradas por parte do homem civilizado  uma vergonha e um
escndalo; pois essas mesmas Escrituras lhe dizem tudo o que ele quer saber ou deveria saber, sobre Deus,
sua prpria alma e destino humano.  irnico que os homens gastem vastas somas de dinheiro e tempo
num esforo para descobrir os segredos de seu passado, quando o futuro  tudo que deveria realmente
importar-lhes.

     Homem algum  responsvel pelos seus ancestrais; o nico passado do qual deve dar contas  aquele
relativamente curto que viveu aqui na terra. Aprender como posso escapar da culpa dos pecados cometidos
em meu breve ontem, como posso viver livre do pecado hoje e entrar finalmente na presena abenoada de
Deus num feliz amanh -- isso  mais importante para mim do que qualquer coisa que possa ser
descoberta pelo antroplogo. Parece-me uma estranha perverso de interesses fitar demoradamente o
passado, o p, quando estamos equipados para fixar os olhos no alto, na glria.

    Tudo o que me impea de chegar  Bblia  meu inimigo por mais inofensivo que parea. Tudo o que
prenda minha ateno quando deveria estar meditando sobre Deus e as coisas eternas prejudica minha
alma. Se os cuidados da vida apagaram de minha mente as Escrituras, estarei sofrendo uma perda
irreparvel. Se eu aceitar qualquer outra coisa alm das Escrituras estarei sendo enganado e roubado,
resultando em eterna confuso.

     O segredo da vida  teolgico e a chave para o cu tambm. Aprendemos com dificuldade, esquecemos
facilmente e sofremos muitas distraes. Devemos portanto, decidir com firmeza estudar teologia.
Devemos preg-la do plpito, cant-la em nossos hinos, ensin-la aos filhos e fazer dela tema de conversa
quando nos reunimos com os amigos cristos.



24.    A Importncia da Auto-Anlise

     Pouca coisa revela to bem o medo e a incerteza dos homens quanto o esforo que fazem para ocultar
seu verdadeiro "eu" uns dos outros e at mesmo a seus prprios olhos.

     Quase todos os homens vivem desde a infncia at a morte por trs de uma cortina semi-opaca, saindo
dela apenas rapidamente quando forados por algum choque emocional e depois voltando o mais depressa
possvel ao esconderijo. O resultado desta dissimulao constante  que as pessoas raramente conhecem
seus prximos como realmente so e. pior ainda, o disfarce tem tanto xito que elas nem sequer conhecem
a si mesmas.

    O autoconhecimento tem tal importncia em nossa busca de Deus e de sua justia, que nos
encontramos sob a obrigao de fazer imediatamente aquilo que for necessrio para remover o disfarce e
permitir que nosso "eu" real seja conhecido. Uma das supremas tragdias em religio  o fato de nos
termos em to alta conta, enquanto a evidncia aponta justamente o contrrio; e nossa auto-admirao
bloqueia eficazmente qualquer esforo possvel para descobrir uma cura para a nossa condio. S o
indivduo que sabe que est doente  que procura o mdico.

    Nosso verdadeiro estado moral e espiritual s pode ser revelado pelo Esprito e pela Palavra. A Deus
pertence o juzo final do corao. Existe um sentido em que no ousamos julgar-nos uns aos outros (Mt
7:1-5) e no qual no devemos sequer tentar julgar-nos (1 Co 4:3). O julgamento final pertence quele
cujos olhos so chama de fogo e que v atravs das obras e pensamentos dos homens. Agrada-me deixar
com Ele a ltima palavra.

     Existe, porm, lugar para a auto-anlise e uma necessidade real de que esta seja feita (1 Co 11:31, 32).
Embora nossa autodescoberta no seja provavelmente completa e nossa auto-analise contenha elementos
preconceituosos e imperfeitos, existem porm boas razes para que trabalhemos ao lado do Esprito em
seu esforo positivo para situar-nos espiritualmente, a fim de podermos fazer as correes exigidas pelas
circunstncias.  certo que Deus j nos conhece totalmente (SI 139:1-6). Resta-nos agora conhecer a ns
mesmos o melhor possvel. Por esta razo ofereo algumas regras para a autodescoberta; e se os resultados
no forem tudo que possamos desejar, podem ser pelo menos melhores do que nada. Podemos ser
conhecidos pelo seguinte:

     1. O que mais desejamos. Basta ficarmos quietos, aguardando que a excitao dentro em ns se acalme,
e a seguir prestar cuidadosa ateno ao tmido clamor do desejo. Pergunte ao seu corao: o que voc mais
desejaria ter no mundo? Rejeite a resposta convencional. Insista em obter a verdadeira, e quando a tiver
ouvido saber o tipo de pessoa que .
     2. O que mais pensamos. As necessidades da vida nos induzem a pensar em muitas coisas, mas o teste
real  descobrir sobre o que pensamos voluntariamente. Nossos pensamentos iro com toda probabilidade
agrupar-se ao redor do tesouro secreto do corao, e qual for ele revelar o que somos. "Onde estiver o teu
tesouro, a estar tambm o teu corao."
     3. Como usamos nosso dinheiro. Devemos ignorar de novo aqueles assuntos sobre os quais no
exercemos pleno controle. Devemos pagar impostos e prover as necessidades da vida para ns e nossa
famlia, quando a temos. Isso no passa de rotina e diz pouco a nosso respeito. Mas o dinheiro que sobrar
para ser usado no que nos agrada ir contar-nos sem dvida muita coisa sobre ns.
     4. O que fazemos com as nossas horas de lazer. Grande parte de nosso tempo  usado pelas exigncias
da vida civilizada, mas sempre temos algum tempo livre. O que fazemos com ele  vital. A maioria das
pessoas gasta esse tempo vendo televiso, ouvindo o rdio, lendo os produtos baratos da imprensa ou
envolvendo-se em conversas frvolas. O que eu fao com o meu tempo revela a espcie de homem que sou.
      5. A companhia de que gostamos. Existe uma lei de atrao moral que chama o homem para participar
da sociedade que mais se assemelha a ele. O lugar para onde vamos quando temos liberdade para ir aonde
quisermos  um ndice quase-infalvel de nosso carter.
      6. Quem e o que admiramos. Suspeito desde h muito tempo que a grande maioria dos cristos
evanglicos, embora mantidos mais ou menos em linha pela presso da opinio do grupo, sentem de todo
modo uma admirao ilimitada, embora secreta, pelo mundo. Podemos conhecer o verdadeiro estado de
nossas mentes, examinando nossas admiraes no-expressas. Israel admirou e at invejou com freqncia
as naes pags ao seu redor, esquecendo-se assim da adoo e da glria, das leis, das alianas e das
promessas e dos pais. Em vez de culpar Israel, faamos uma auto-analise.
      7. Sobre o que podemos rir. Pessoa alguma que tenha qualquer considerao pela sabedoria de Deus
iria argumentar que exista algo errado com o riso, desde que o humor  um componente legtimo de nossa
natureza complexa. Quando nos falta o senso de humor, falhamos tambm nessa mesma proporo em
equiparar-nos  humanidade sadia.

     Mas o teste que fazemos aqui no  sobre o fato de rirmos ou no, mas do que rimos. Algumas coisas
ficam fora do campo do simples humor. Nenhum cristo reverente, por exemplo, acha a morte engraada,
nem o nascimento, nem o amor. Nenhum indivduo cheio do Esprito pode rir das Escrituras, da igreja
comprada por Cristo com o seu prprio sangue, da orao, da retido, do sofrimento ou dor da
humanidade. E certamente ningum que j esteve na presena de Deus jamais poderia rir de uma histria
que envolvesse a divindade.
Esses so alguns dos testes. O cristo sbio encontrar outros.


25.    Sinais do Homem Espiritual

     O conceito de espiritualidade varia entre os diversos grupos cristos. Em alguns crculos, a pessoa que
fala incessantemente de religio  julgada como sendo muito espiritual. Outros aceitam a exuberncia
ruidosa como um sinal de espiritualidade, e em algumas igrejas, o homem que ora em primeiro lugar, por
mais tempo e mais alto consegue uma reputao de ser o mais espiritual na assemblia.

     Um testemunho vigoroso, oraes freqentes e louvor em voz alta podem entrosar-se perfeitamente
com a espiritualidade, mas  importante entendermos que em si mesmos eles no constituem nem provam
a presena da mesma.

     A verdadeira espiritualidade manifesta-se em certos desejos dominantes. Eles so desejos sempre
presentes, fixos, suficientemente poderosos para dominar e controlar a vida da pessoa. Para facilitar, vou
mencion-los, embora no me esforce para decidir sua ordem de importncia.
     1. Primeiro, o desejo de ser santo em lugar de feliz. A busca da felicidade, to difundida entre os
cristos que professam uma santidade superior e prova suficiente de que tal santidade no se acha
presente. O homem verdadeiramente espiritual sabe que Deus dar abundncia de alegria no momento em
que possamos receb-la sem prejudicar nossa alma, mas no exige obt-la imediatamente. John Wesley
falou a respeito de uma das primeiras sociedades metodistas da qual duvidava terem seus membros sido
aperfeioados em amor, pois iam  igreja para apreciar a religio em lugar de aprender como tornar-se
santos.
     2. O indivduo pode ser considerado espiritual quando quer que a honra de Deus avance por meio de
sua vida, mesmo que isso signifique que ele mesmo tenha de sofrer desonra ou perda temporrias. Um
homem assim ora: "Santificado seja o teu nome", e acrescenta baixinho: "Qualquer seja o custo para mim,
Senhor". Ele vive para honrar a Deus, atravs de uma espcie de reflexo espiritual. Cada escolha
envolvendo a glria de Deus, para ele j est feita antes de apresentar-se. No  necessrio que debata o
assunto em seu ntimo, pois nada h a discutir. A glria de Deus  necessria para ele; ele a aspira como
algum sufocando-se aspira o ar.
     3. O homem espiritual quer carregar a sua cruz. Muitos cristos aceitam a adversidade ou a tribulao
com um suspiro e as chamam de sua cruz, esquecendo de que tais coisas podem acontecer tanto a santos
como a pecadores. A cruz  aquela adversidade extra que surge como resultado de nossa obedincia a
Cristo. Esta cruz no  forada sobre ns; ns voluntariamente a tomamos com pleno conhecimento das
conseqncias. Ns decidimos obedecer a Cristo e fazendo essa escolha, decidimos carregar a cruz.
     Carregar a cruz significa ligar-se  Pessoa de Cristo, ser fiel  soberania de Cristo e obediente aos seus
mandamentos. O indivduo espiritual  aquele que manifesta essas caractersticas.
     4. O cristo espiritual  tambm aquele que tudo observa sob o ponto de vista de Deus. A capacidade
de pesar tudo na balana divina e dar-lhes o mesmo valor dado por Deus,  o sinal de uma vida cheia do
Esprito.
     Deus olha para tudo e atravs de tudo ao mesmo tempo. Seu olhar no repousa sobre a superfcie mas
penetra at o verdadeiro significado das coisas. O cristo carnal olha para um objeto ou uma situao, mas
pelo fato de no ver atravs dela fica entusiasmado ou deprimido pelo que v. O homem espiritual tem
capacidade para ver atravs das coisas como Deus v e pensar nelas como Ele pensa. Ele insiste em ver
tudo como Deus v, mesmo que isso o humilhe e exponha a sua ignorncia at o extremo de faz-lo sofrer.
     5. Outro desejo do homem espiritual  morrer retamente em lugar de viver no erro. Um sinal seguro
do homem de Deus amadurecido  de sua despreocupao com a vida. O cristo terreno, consciente do
corpo, olha para a morte com terror no corao; mas  medida que continua vivendo no Esprito torna-se
cada vez mais indiferente ao nmero de anos que vai viver aqui embaixo, e ao mesmo tempo cuida cada vez
mais do modo como vive enquanto est aqui. No ir comprar alguns dias extra de vida ao custo da
transigncia ou fracasso. Quer acima de tudo ser reto, e fica feliz em deixar que Deus decida quanto tempo
deve viver. Ele sabe que pode morrer agora que est em Cristo, mas sabe que no pode agir erradamente, e
este conhecimento torna-se um giroscpio que d estabilidade aos seus pensamentos e seus atos.
     6. O desejo de ver outros progredirem com sua ajuda  outro sinal do homem que possui
espiritualidade. Ele quer ver outros cristos acima de si e fica feliz quando estes so promovidos e ele
negligenciado. No existe inveja em seu corao; quando seus irmos so honrados fica satisfeito, por ser
essa a vontade de Deus e essa vontade  seu cu na terra. O que  agradvel a Deus lhe d tambm prazer, e
se for do agrado de Deus exaltar outrem acima dele, satisfaz-se com isso.
     7. O homem espiritual faz no geral juzos eternos e no temporais. Pela f supera o poder de atrao
da terra e o fluxo do tempo e aprende a pensar e sentir como algum que j deixou o mundo e foi juntar-se
 imensa companhia dos anjos e  assemblia e igreja dos primognitos arrolados nos cus, Um homem
assim preferiria ser til e no famoso, servir em lugar de ser servido.

    Tudo isto se realiza pela operao do Esprito Santo que ne!e habita. Homem algum pode ser espiritual
por si mesmo. Apenas o Esprito da liberdade pode tornar o homem espiritual.
# Excertos Extrados de A Raiz dos Justos

26.    A Raiz dos Justos

     Uma diferena marcante entre a f dos nossos pais como concebida pelos pais, e a mesma f como
entendida e vivida por seus filhos,  que os pais estavam interessados na raiz da matria, enquanto que os
seus descendentes atuais parecem interessados somente no fruto.

     Parece ser esta a nossa atitude para com certas grandes almas crists cujos nomes so honrados entre
as igrejas, como, por exemplo, Agostinho e Bernardo em tempos mais antigos, ou Lutero e Wesley em
tempos mais recentes. Hoje escrevemos biografias de vultos como esses e celebramos o seu fruto, mas a
tendncia  ignorar a raiz da qual proveio o fruto. "A raiz dos justos produz o seu fruto", diz o sbio em
Provrbios. Os nossos pais olhavam bem para a raiz da rvore e se dispunham a esperar com pacincia pelo
aparecimento do fruto. Ns exigimos o fruto imediatamente, ainda que a raiz seja fraca e cheia de
calosidades, ou inexista completamente. Os impacientes cristos de hoje desculpam as crenas simples dos
santos doutros tempos e sorriem da sua sria abordagem de Deus e das coisas sagradas. Eram vtimas da
sua perspectiva religiosa limitada, mas ao mesmo tempo eram grandes e vigorosas almas que conseguiram
obter uma experincia espiritual satisfatria e fazer muita coisa boa no mundo, apesar dos seus defeitos.
Assim, imitaremos o seu fruto sem aceitar a sua teologia e sem incomodar-nos demasiadamente com a
adoo da sua atitude de tudo ou nada para com a religio.

    Assim dizemos (ou mais provavelmente pensamos sem dizer), e toda voz da sabedoria, todo dado da
experincia religiosa, toda lei da natureza nos diz quo errados estamos. O galho que se desliga da rvore
numa tempestade pode florir brevemente e pode dar ao transeunte despreocupado a impresso de que 
um ramo saudvel e frutfero, mas a sua tenra inflorescncia logo perece, e o prprio ramo seca-se e
morre. No h vida duradoura, separada da raiz.

     Muita coisa que passa por cristianismo hoje  o brilhante e breve esforo do ramo cortado para
produzir seu fruto na estao prpria. Mas as profundas leis da vida esto contra isso. A preocupao com
as aparncias e a correspondente negligncia para com a raiz que est fora da vista, raiz da verdadeira vida
espiritual, so sinais profticos que passam despercebidos. Resultados "imediatos"  tudo que importa,
rpidas provas do sucesso presente, sem se pensar na prxima semana ou no prximo ano. O pragmatismo
religioso avana desenfreadamente entre os ortodoxos, A verdade  o que quer que funcione. Se d
resultado,  bom. H apenas uma prova para o lder religioso: sucesso. Tudo se perdoa, exceto o fracasso.
Uma rvore pode resistir a quase toda e qualquer tempestade se sua raiz e firme, mas quando a figueira
que o Senhor amaldioou secou "desde a raiz", ela toda "secou" imediatamente. Uma igreja firmemente
enraizada no pode ser destruda, mas nada pode salvar uma igreja cuja raiz secou. Estmulos, campanhas
promocionais, ofertas em dinheiro, belo edifcio -- nada pode trazer de volta a vida  rvore sem raiz.

     Com uma feliz desconsiderao pela coerncia da metfora, o apstolo Paulo nos exorta a atentar para
as nossas origens. "Arraigados e alicerados em amor", diz ele no que  obviamente uma confuso de
figuras; e outra vez concha os seus leitores a permanecerem "arraigados e edificados nele", o que encara o
cristo como uma rvore bem arraigada e como um templo a edificar-se sobre slido fundamento.

     A Bblia inteira e todos os grandes santos do passado se unem para dizer-nos a mesma coisa. "Nada
considerem como lquido e certo", eles nos dizem. "Voltem para as fundas razes. Abram o corao e
sondem as Escrituras. Levem sua cruz, sigam o seu Senhor e no dem ateno  moda religiosa que passa.
As massas esto sempre erradas. Em cada gerao o nmero de justos  pequeno. Certifiquem-se de que
esto entre eles."

     "O homem no ser estabelecido pela iniqidade; mas a raiz dos justos no ser removida" (traduo
literal da verso usada pelo autor).


27.    E Fcil Viver com Deus
     O primeiro ataque feito por Satans  raa humana foi o seu astuto esforo para destruir a confiana de
Eva na bondade de Deus. Infelizmente para ela e para ns, ele se saiu muito bem. Desde aquele dia, os
homens tm tido um falso conceito de Deus. e foi exatamente isto que arrancou de debaixo deles a base da
justia e os levou a uma vida imprudente e destrutiva, Nada deforma e torce mais a alma do que um baixo e
indigno conceito de Deus. Certas seitas, como a dos fariseus, conquanto sustentassem que Deus era severo
e austero, empenhavam-se em manter um nvel razoavelmente alto de moralidade externa; mas a sua
justia era apenas exterior. Interiormente eram "sepulcros caiados", como o Senhor mesmo lhes disse. Seu
errneo conceito de Deus resultou numa idia errnea de culto. Para um fariseu, o servio de Deus era uma
escravido que ele no amava, mas da qual no podia escapar sem que lhe sobreviesse uma perda grande
demais para suportar. No era fcil viver com o Deus do fariseu, de sorte que a sua religio tornou-se
carrancuda, pesada e desamvel. S tinha que ser assim, pois sempre a nossa noo de Deus determina
necessariamente a qualidade da nossa religio.

     Muito cristianismo, desde os dias da carne de Cristo, tambm tem sido carrancudo e severo. E a causa 
a mesma -- uma indigna e inadequada idia de Deus. Instintivamente tentamos ser iguais ao nosso Deus, e
se o concebemos severo e exigente, assim seremos.

     Do malogro de entender apropriadamente a Deus, provm um mundo de infelicidade entre os cristos
ainda hoje. Considera-se a religio um sombrio e desanimador processo de levar a cruz sob os olhos de um
Pai severo que espera muito e no desculpa nada. Ele  austero, impertinente, altamente temperamental e
extremamente difcil de agradar. A espcie de vida que brota de noes to difamatrias necessariamente
tem que ser apenas uma pardia da verdadeira vida cm Cristo.

     da maior importncia para a nossa vida espiritual ter sempre em mente uma correta concepo de
Deus. Se pensamos nEle como frio e exigente, acharemos impossvel am-lO, e as nossas vidas sero
dominadas por um temor servil. Por outro lado, se sustentamos que Ele  bondoso e compreensivo, toda a
nossa vida interior refletir essa idia.

     A verdade  que Deus  o mais encantador de todos os seres. e servi-lO  um prazer indescritvel. Ele 
todo amor, e aqueles que confiam nEle nunca precisaro conhecer coisa alguma, seno esse amor. Ele 
justo deveras, e no deixa passar por alto o pecado; mas, pelo sangue da aliana eterna Ele pode agir para
conosco exatamente como se nunca tivssemos cometido pecado. Para os filhos dos homens que nEle
confiam, a Sua misericrdia sempre triunfar sobre a justia.

    A comunho de Deus  deleitvel alm de toda a expresso. Ele conversa com os Seus redimidos numa
comunho fcil e desinibida, repousante e conciliadora para a alma. Ele no  sentimentalista, nem egosta,
nem temperamental. O que Ele  hoje, veremos que continua sendo amanh, depois de amanh e no ano
que vem. No  difcil agrad-lO, embora talvez seja difcil satisfaz-lO. Ele s espera de ns aquilo de que
primeiro nos supriu. Ele  rpido para anotar cada simples esforo para agrad-lO, e to rpido, exa-
tamente. para deixar de lado as nossas imperfeies quando sabe que a nossa inteno  fazer a Sua
vontade. Ele nos ama pelo que somos e considera o nosso amor mais valioso do que as galxias de novos
mundos criados.

    Infelizmente, muitos cristos no podem ficar livres das suas pervertidas noes de Deus, e estas
noes envenenam os seus coraes e destroem a sua liberdade interior. Estes amigos servem a Deus de
cara fechada, como fazia o irmo mais velho, fazendo o que  certo sem entusiasmo e sem alegria, e
parecem totalmente incapazes de entender a alegre e animada celebrao feita quando o prdigo chega em
casa. A idia que eles tm de Deus exclui a possibilidade de Ele ser feliz em Seu povo, e atribuem os cnticos
e as aclamaes a consumado fanatismo. Almas infelizes, estas, condenadas a prosseguirem em sua vida
melanclica, carrancudamente determinadas a agir direito se os cus carem, e a estar do lado do vencedor
no dia do juzo.

     Que bom seria se pudssemos aprender que  fcil viver com Deus. Ele se lembra da nossa estrutura e
sabe que somos p. Pode castigar-nos s vezes,  certo, mas at isso Ele faz com um sorriso, o ufano e terno
sorriso do Pai que arde de prazer por um filho imperfeito, mas que promete e que cada dia se parece mais
com Aquele de quem  filho.

    Alguns de ns ficam nervosos e encabulados porque sabemos que Deus v cada pensamento nosso e
conhece todos os nossos caminhos. No precisamos ficar assim. Deus  a soma total de toda a pacincia e a
essncia da amvel boa vontade. Ns O agradamos muito, no tentando freneticamente fazer ns mesmos o
bem, mas, sim, lanando-nos em Seus braos com todas as nossas imperfeies, e crendo que Ele
compreende tudo e ainda nos ama.


28.    Quanto a Receber Admoestao

    Uma breve e singular passagem do Livro do Eclesiastes fala de um "rei velho e insensato, que j no se
deixa admoestar".

     No  difcil entender por que um rei idoso, especialmente se fosse estulto, acharia que estava acima de
toda admoestao. Depois de ler dado ordens durante anos. facilmente poderia construir uma psicologia
autoconfiante que simplesmente no poderia agasalhar a noo de que deveria receber conselho de
outrem. Por muito tempo a sua palavra fora lei, e. para ele, certo se tornara sinnimo da sua vontade e
errado viera a significar tudo que contrariasse os seus desejos. Logo, a idia de que houvesse algum
bastante sbio ou bastante bom para repreend-lo no chegaria a entrar em sua mente. Se fosse um rei
insensato, deixar-se-ia apanhar nesse tipo de rede, e se fosse um rei velho, daria  rede tempo suficiente
para o prender to fortemente que ele no poderia romp-la, e tempo suficiente para acostumar-se tanto a
ela que no mais estaria ciente da sua existncia.

     Independentemente do processo moral pelo qual chegou  sua condio empedernida, o sino j
dobrara para ele. Em todas as particularidades era um homem perdido. Seu ressequido e velho corpo ainda
podia agentar-se para prov-lo de um tmulo mvel para abrigar uma alma j morta. A esperana partira,
havia muito tempo. Deus o deixara entregue ao seu prprio convencimento fatal. E logo morreria
fisicamente, tambm, e morreria como morre um tolo.

     Um estado de nimo que rejeita a admoestao caracterizou Israel em vrios perodos da sua histria,
e estes perodos foram seguidos invariavelmente pelo julgamento. Quando Cristo veio para os judeus,
achou-os transbordantes daquela arrogante autoconfiana que no se dispe a aceitar repreenso. "Somos
somente de Abrao", disseram friamente quando Ele lhes falou dos pecados deles e da sua necessidade de
salvao. As pessoas comuns O ouviam e se arrependiam, mas os sacerdotes tinham mantido o domnio
tempo demais para se disporem a renunciar  sua posio privilegiada. Como o velho rei. tinham-se
acostumado a estar certos o tempo todo. Reprcende-los era insult-los. Estavam acima da censura.

     As igrejas e as organizaes crists tm mostrado uma tendncia para cair no mesmo erro que
destruiu Israel: incapacidade para receber admoestao. Depois de um perodo de crescimento e de labor
vitorioso vem a mortal psicologia da autogratulao. O prprio sucesso torna-se a causa do fracasso
posterior. Os lderes passam a aceitar-se como os escolhidos de Deus. So objetos especiais do favor divino;
o sucesso deles  prova suficiente de que  assim. Portanto, eles tm que estar certos, e quem quer que
tente cham-los a contas  imediatamente proscrito como um intrometido desautorizado que devia ler
vergonha de ousar censurar os que so melhores do que ele.

     Se algum imagina que estamos meramente jogando com as palavras, que aborde ao acaso algum lder
religioso e chame a ateno dele para as fraquezas e pecados presentes em sua organizao. Com toda a
certeza, o tal topar com bruscas negativas e, se se atrever a persistir, ser confrontado com relatrios e
estatsticas para provar que est absolutamente errado e completamente fora de ordem. "Somos a semente
de Abrao" ser a carga da defesa. E quem ousaria achar falta na semente de Abrao?

    Os que j entraram no estado em que no podem mais receber admoestao, no  provvel que tirem
proveito desta advertncia. Depois que um homem caiu no precipcio no h muito que voc possa fazer
por ele; mas podemos colocar sinais ao longo do caminho para impedir que o prprio viajante caia. Eis
alguns:
    1. No defenda a sua igreja ou a sua organizao contra a crtica. Se a crtica  falsa, no pode causar
dano. Se  verdadeira, voc tem que ouvi-la e fazer alguma coisa a respeito dela.
    2. Preocupe-se, no com o que voc tem realizado, mas com o que poderia ter realizado se seguisse o
Senhor completamente.  melhor dizer (e sentir): "Somos servos inteis, porque fizemos apenas o que
devamos fazer."
    3. Quando censurado, no preste ateno na fonte. No indague se  um amigo ou um inimigo que o
repreende. Freqentemente um inimigo -lhe de maior valia do que um amigo, porque aquele no 
influenciado pela simpatia.
     4. Mantenha o corao aberto para a correo dada pelo Senhor e esteja preparado para receber dEle
o castigo, sem se preocupar com quem segura o aoite. Os grandes santos aprenderam todos a levar surra
com classe -- e esta pode ser uma razo por que foram grandes santos.

29.    O Grande Deus Entretenimento

    H muitos anos um filsofo alemo disse alguma coisa no sentido de que, quanto mais um homem tem
no corao, menos precisar de fora; a excessiva necessidade de apoio externo  prova de falncia do
homem interior.

    Sc isto  verdade (e eu creio que ), ento o desordenado apego atual a toda forma de entretenimento 
prova de que a vida interior do homem moderno est em srio declnio. O homem comum no tem nenhum
ncleo central de segurana moral, nenhum manancial em seu peito, nenhuma fora interior para coloc-lo
acima da necessidade de repetidas injees psicolgicas para dar-lhe coragem para continuar vivendo.
Tornou-se um parasita no mundo, extraindo vida do seu ambiente, incapaz de viver um s dia sem o
estmulo que a sociedade lhe fornece.

     Schleiermacher afirmava que o sentimento de dependncia est na raiz de todo culto religioso, e que
por mais alto que a vida espiritual possa subir, sempre tem que comear com um profundo senso de uma
grande necessidade que somente Deus poderia satisfazer. Se este senso de necessidade e um sentimento de
dependncia esto na raiz da religio natural, no  difcil ver por que o grande deus Entretenimento  to
ardentemente cultuado por tanta gente. Pois h milhes que no podem viver sem diverso. A vida para
eles  simplesmente intolervel. Buscam ansiosos o bendito alvio dado por entretenimentos profissionais
e outras formas de narcticos psicolgicos como um viciado em drogas busca a sua injeo diria de
herona. Sem estas coisas eles no poderiam reunir coragem para encarar a existncia.

     Ningum que seja dotado de sentimentos humanos normais far objeo aos prazeres simples da vida,
nem s formas inofensivas de entretenimento que podem ajudar a relaxar os nervos e revigorar a mente
exausta de fadiga. Essas coisas, se usadas com discrio, podem ser uma bno ao longo do caminho. Isso
 uma coisa. A exagerada dedicao ao entretenimento como atividade da maior importncia para a qual e
pela qual os homens vivem, e definitivamente outra coisa, muito diferente.

     O abuso numa coisa inofensiva  a essncia do pecado. O incremento do aspecto das diverses da vida
humana em to fantsticas propores  um mau pressgio, uma ameaa s almas dos homens modernos,
Estruturou-se, chegando a constituir um empreendimento comercial multimilionrio com maior poder
sobre as mentes humanas e sobre o carter humano do que qualquer outra influncia educacional na terra.
E o que  ominoso  que o seu poder  quase exclusivamente mau, deteriorando a vida interior, expelindo
os pensamentos de alcance eterno que encheriam a alma dos homens, se to-somente fossem dignos de
abrig-los. E a coisa toda desenvolveu-se dando numa verdadeira religio que retm os seus devotos com
estranho fascnio, e, incidentalmente, uma religio contra a qual agora  perigoso falar.

     Por sculos a igreja se manteve solidamente contra toda forma de entretenimento mundano,
reconhecendo-o pelo que era -- um meio para desperdiar o tempo, um refgio contra a perturbadora voz
da conscincia, um esquema para desviar a ateno da responsabilidade moral. Por isso ela prpria sofreu
rotundos abusos dos filhos deste mundo. Mas ultimamente ela se cansou dos abusos e parou de lutar.
Parece ter decidido que, se ela no consegue vencer o grande deus Entretenimento, pode muito bem juntar
suas foras s dele e fazer o uso que puder dos poderes dele. Assim, hoje temos o espantoso espetculo de
milhes de dlares derramados sobre o trabalho profano de providenciar entretenimento terreno para os
filhos do Cu, assim chamados. Em muitos lugares o entretenimento religioso est eliminando rapidamente
as coisas srias de Deus. Muitas igrejas nestes dias tm-se transformado em pouco mais que pobres teatros
onde "produtores" de quinta classe mascateiam as suas mercadorias falsificadas com total aprovao de
lderes evanglicos conservadores que podem at citar um texto sagrado em defesa da sua delinqncia. E
raramente algum ousa levantar a voz contra isso.

     O grande deus Entretenimento diverte os seus devotos principalmente lhes contando estrias. O gosto
por estrias, caracterstico da meninice, depressa tomou conta das mentes dos santos retardados dos
nossos dias, tanto que no poucas pessoas pelejam para construir um confortvel modo de vida contando
lorotas, servindo-as com vrios disfarces ao povo da igreja. O que  natural e bonito numa criana pode ser
chocante quando persiste no adulto, e mais chocante quando aparece no santurio e procura passar por
religio verdadeira.

    No e uma coisa esquisita e um espanto que, com a sombra da destruio atmica pendendo sobre o
mundo e com a vinda de Cristo estando prxima, os seguidores professos do Senhor se entreguem a
divertimentos religiosos? Que numa hora em que h to desesperada necessidade de santos amadurecidos,
numerosos crentes voltem para a criancice espiritual e clamem por brinquedos religiosos?

    "Lembra-te, Senhor, do que nos tem sucedido; considera, e olha para o nosso oprbrio. . . . Caiu a corou da
nossa cabea; ai de ns porque pecamos! Por isso caiu doente o nosso corao: por isso se escureceram os
nossos olhos.'' Amm. Amem.


30.    Bblia Ensinada ou Esprito Ensinado?

     Pode ser um choque para alguns leitores sugerir que h diferena entre ensinar-se a Bblia e ensinar-
se o Esprito. Todavia, assim .

     inteiramente possvel ser instrudo nos rudimentos da f e, contudo, no se ter nenhum real
entendimento da coisa toda. E  possvel ir avante e tornar-se especialista em doutrina bblica e no se ter
iluminao espiritual, com o resultado que permanece um vu sobre a mente, impedindo-a de aprender a
verdade cm sua essncia espiritual.

     A maioria de ns conhece igrejas que ensinam a Bblia s suas crianas desde os seus mais tenros anos,
do-lhes longas instrues no catecismo, treinam-nas ainda mais em aulas ministradas pelo pastor, e,
apesar disso, nunca produzem nelas um cristianismo vivo, nem uma piedade viril. Os membros dessas
igrejas no do prova de terem passado da morte para a vida. No se acha entre eles nem uma s das
marcas da salvao to claramente indicadas nas Escrituras. A sua vida religiosa  correta e razoavelmente
moral, mas totalmente mecnica e completamente carente de brilho. Usam a sua f como as pessoas de luto
outrora usavam faixas negras no brao para mostrar seu amor e respeito pelos falecidos.

    Tais pessoas no podem ser despedidas como hipcritas. Muitas delas so pateticamente srias nisso
tudo. So simplesmente cegas. Dada sua carncia do Esprito vital, so foradas a ir adiante com a casca
exterior da f, enquanto o tempo todo as profundezas do seu corao esto famintas da realidade
espiritual, e elas no sabem o que h de errado consigo.

     Esta diferena entre a religio do credo e a religio do Esprito  muito bem exposta pelo piedoso
Toms numa pequena e terna orao a seu Senhor: "Os filhos de Israel no passado disseram a Moiss: 'Fala-
nos tu, e te ouviremos; porm no fale Deus conosco, para que no morramos'. Isso no, Senhor, isso no,
eu Te rogo; antes, como o profeta Samuel, humildemente e fervorosamente eu Te imploro: 'Fala, Senhor,
porque o teu servo ouve'. No me fale Moiss, nem qualquer dos profetas, mas, antes, fala Tu,  Senhor
Deus, o inspirador, o iluminador de todos os profetas; pois Tu, sozinho, sem eles, podes instruir-me
perfeitamente, mas, sem Ti, eles no podem ter proveito nenhum. Podem proferir palavras,  certo, mas
no podem dar o Esprito. Deveras falam com a maior beleza, mas se Tu ests silencioso, eles no inflamam
o corao. Eles ensinam a letra, mas Tu abres o sentido; eles expem mistrio, mas Tu pes a descoberto o
significado de coisas seladas. . . . Eles trabalham apenas exteriormente, mas Tu instruis e iluminas o
corao. . . . Eles bradam em alta voz com as palavras, mas Tu ds entendimento ao que ouve."

    Seria difcil encerrar tanto, melhor do que isso. A mesma coisa tem sido dita de vrias maneiras por
outros; contudo, provavelmente o dito mais conhecido : "Para compreender-se a Escritura,  preciso l-la
com o mesmo Esprito que originalmente a inspirou." Ningum nega isto, mas mesmo essa afirmao
entrar por um ouvido e sair por outro dos que a ouvem, a menos que o Esprito Santo inflame o corao.

    A acusao que nos fazem os liberais ou modernistas, de que somos "biblilatras", provavelmente no
 verdadeira no mesmo sentido visado por nossos detratores; mas a sinceridade e auto-analise nos
foraro a admitir que freqentemente h muita verdade nessa acusao. Entre pessoas religiosas de
inquestionvel ortodoxia acha-se s vezes uma obtusa dependncia da letra do texto, sem a mais tnue
compreenso do seu esprito.  preciso manter constantemente diante das nossas mentes que em sua
essncia a verdade  espiritual, se de fato queremos conhecer a verdade. Jesus Cristo , Ele prprio, a
Verdade, e Ele no pode ser confinado a meras palavras, apesar de que, como cremos ardentemente, Ele
mesmo inspirou as palavras. O que  espiritual no pode ser encerrado por tinta nem cercado por tipos e
papel. O melhor que um livro pode fazer  dar-nos alerta da verdade. Se alguma vez recebemos mais que
isso, h de ser pelo Esprito Santo que no-lo d.

    A grande necessidade da hora presente entre as pessoas espiritualmente famintas  dupla: Primeiro,
conhecer as Escrituras, sem as quais nenhuma verdade salvadora ser concedida por nosso Senhor;
segundo, ser iluminado pelo Esprito, sem Quem as Escrituras no sero compreendidas.


31.      A Cruz E uma Coisa Radical

      A cruz de Cristo  a coisa mais revolucionria que j apareceu entre os homens.

    Depois que Cristo ressurgiu dos mortos, os apstolos saram a pregar a Sua mensagem, e o que
pregaram foi a cruz. E por onde quer que fossem pelo mundo, levavam a cruz, e o mesmo poder
revolucionrio ia com eles, A mensagem radical da cruz transformou Saulo de Tarso e o mudou de
perseguidor dos cristos em um terno crente e um apstolo da f. Seu poder mudou homens maus em
bons. Sacudiu a longa escravido do paganismo e alterou completamente toda a perspectiva moral e mental
do mundo ocidental.

    Fez tudo isso, e continuou a faz-lo enquanto se lhe permitiu permanecer como fora originalmente,
uma cruz. Seu poder se foi quando foi mudado de uma coisa de morte para uma coisa de beleza. Quando os
homens fizeram dela um smbolo, penduraram-na nos seus pescoos como ornamento ou fizeram o seu
contorno diante dos seus rostos como um sinal mgico para proteg-los do mal, ento ela veio a ser, na sua
melhor expresso, um fraco emblema, e na pior, um inegvel feitio. Como tal.  hoje reverenciada por
milhes que no sabem absolutamente nada do seu poder.

    A cruz atinge os seus fins destruindo o modelo estabelecido, o da vtima, e criando outro modelo, o seu
prprio. Assim, ela tem sempre o seu mtodo. Vence derrotando o seu oponente e lhe impondo a sua
vontade. Domina sempre. Nunca se compromete, nunca faz barganhas, nunca faz concesso, nunca cede um
ponto por amolda paz. No se preocupa com a paz; preocupa-se em dar fim  sua oposio to depressa
quanto possvel.

     Com perfeito conhecimento disso tudo, Cristo disse: "Se algum quer vir aps mim, a si mesmo se
negue, tome a sua cruz e siga-me." Assim a cruz no s pe fim  vida de Cristo; termina tambm a primeira
vida, a velha vida. de cada um dos Seus seguidores verdadeiros. Ela destri o velho modelo, o modelo de
Ado, na vida do crente, e lhe d fim. Ento o Deus que levantou a Cristo dos mortos levanta o crente, e uma
nova vida comea.

     Isto, e nada menos que isto,  o cristianismo verdadeiro, embora no possamos seno reconhecer a
aguda divergncia que h entre esta concepo e a sustentada pelo tipo comum de cristos conservadores
hoje. Mas no ousamos qualificar a nossa posio. A cruz ergue-se muito acima das opinies dos homens e
a essa cruz todas as opinies tero que vir afinal para julgamento. Uma liderana superficial e mundana
gostaria de modificar a cruz para agradar os religiosos manacos por entretenimento que querem divertir-
se at mesmo dentro do santurio; faz-lo, porm,  cortejar a tragdia espiritual e arriscar-se  ira do
Cordeiro feito Leo.

     Temos que fazer alguma coisa quanto  cruz, e s podemos fazer uma destas duas: fugir ou morrer
nela. E se formos to temerrios que fujamos, com esse ato estaremos pondo fora a f vivida por nossos
pas e faremos do cristianismo uma coisa diferente do que , Neste caso, teremos deixado somente o vazio
linguajar da salvao; o poder se ir juntamente com a nossa partida para longe da verdadeira cruz.

    Se somos sbios, faremos o que Jesus fez: suportaremos a cruz e desprezaremos a sua vergonha pela
alegria que est posta diante de ns. Fazer isso  submeter todo o esquema da nossa vida, para ser
destrudo e reconstrudo no poder de uma vida que no se acabar mais. E veremos que  mais que poesia,
mais que doce hinologia e elevado sentimento, A cruz cortar fundo as nossas vidas onde fere mais, no nos
poupando nem a ns mesmos nem as nossas reputaes cultivadas. Ela nos derrotar e por fim s nossas
vidas egostas. S ento poderemos elevar-nos em plenitude de vida para estabelecer um padro de vida
totalmente novo, livre e cheio de boas obras.

    A modificada atitude para com a cruz que vemos na ortodoxia moderna prova, no que Deus mudou,
nem que Cristo afrouxou a Sua exigncia de que levemos a cruz; em vez disto, significa que o cristianismo
corrente desviou-se dos padres do Novo Testamento. Para to longe nos desviamos que nada menos que
uma nova reforma restabelecer a cruz em seu lugar certo na teologia e na vida da igreja.
# Excertos Extrados de De Deus e o Homem

32.     O Relatrio do Observador


     Se um observador ou um santo oriundo do fulgente mundo do Alto viesse para estar entre ns por
algum tempo com o poder de diagnosticar os males espirituais do povo da igreja, h um item que estou
certo apareceria na imensa maioria dos seus relatrios: Definida evidncia de lassido espiritual crnica;
nvel do entusiasmo moral extremamente baixo.

     O que d especial significado a esta condio  que os americanos no so por natureza um povo sem
entusiasmo. Na verdade gozam reputao mundial de serem justamente o contrrio. Visitantes que chegam
s nossas costas vindos doutros pases nunca cessam de maravilhar-se ante o vigor e a energia com que
atacamos os nossos problemas. Vivemos febris, e se erigimos edifcios, construmos rodovias, promovemos
atividades atlticas, comemoramos dias especiais ou recepcionamos heris em seu regresso, sempre o faze-
mos com exagerado vigor. Os nossos edifcios ho de ser mais altos, as nossas estradas mais largas, as
nossas competies atlticas mais coloridas, as nossas celebraes mais elaboradas e mais dispendiosas do
que de fato seriam em quaisquer outros lugares da terra, Caminhamos mais depressa, dirigimos mais
depressa, ganhamos mais, gastamos mais e temos presso sangnea mais alta do que qualquer outro povo
do mundo.

    Somente num campo de interesse humano somos lentos e apticos: o da religio pessoal. A. por
alguma estranha razo, o nosso entusiasmo lerdeia. O povo da igreja habitualmente aborda a questo da
sua relao pessoal com Deus de maneira vagarosa e desanimada, em total desacordo com o seu
temperamento geral e inteiramente incoerente com a importncia do assunto.

      verdade que existe muita atividade religiosa entre ns. Torneios de bola-ao-cesto entre as igrejas,
festas levemente religiosas seguidas de devoes, excurses para acampamentos nos fins de semana com
perguntas bblicas ao redor do fogo, convescotes das escolas dominicais, campanhas em prol dos fundos de
construo e almoos ministeriais esto conosco em nmero incrvel, e so levados a efeito com o tpico
gosto americano.  quando entramos na rea da religio pessoal do corao que de repente perdemos todo
o entusiasmo.

     Assim, vemos esta situao estranha e contraditria: um mundo de ruidosa e altaneira atividade
religiosa realizada sem energia ou sem fervor espiritual. Numa viagem de um ano pelas igrejas, raramente
se encontra um crente cuja contagem do sangue seja normal e cuja temperatura esteja acima do normal. A
emoo e o arrebatado vigor da alma inflamada de amor tm de ser procurados no Novo Testamento ou
nas biografias dos cristos fiis; procuramo-los em vo entre os confessos seguidores de Cristo dos nossos
dias.

     Ora, se h alguma realidade dentro de toda a esfera da experincia humana que, por sua prpria
natureza,  digna de desafiar a mente, encantar o corao e levar a vida integral a um centro focai ardente,
 a realidade que gira ao redor da Pessoa de Cristo. Se Ele  quem e o que a mensagem crist declara que ,
ento, pensar nEle deveria ser a coisa mais animadora e estimulante a entrar na mente humana. No 
difcil entender como Paulo pde juntar vinho e o Esprito num mesmo versculo: "E no vos embriagueis
com vinho, no qual h dissoluo, mas enchei-vos do Esprito" (Ef 5:18). Quando o Esprito apresenta Cristo
 nossa viso interior, produz um efeito alvoroador na alma, muito parecido com o que o vinho produz no
corpo. O homem cheio do Esprito Santo pode literalmente viver num estado de fervor espiritual que
remonta a uma embriaguez branda e pura.

     Deus vive num estado de perptuo entusiasmo. Deleita-se com tudo que  bom, e se preocupa
amorosamente com tudo que  errado. Leva avante os seus labores sempre com plenitude de santo zelo.
No  de admirar-se que o Esprito veio no Pentecostes como um som de um vento impetuoso e pousou em
lnguas de fogo sobre as frontes de cada um dos presentes. Fazendo-o. estava agindo como uma das
Pessoas da bendita divindade.

      Seja o que for que ademais tenha acontecido no Pentecostes, uma coisa que no pode ser esquecida
pelo observador mais casual foi o repentino surgimento do entusiasmo moral. Aqueles primeiros
discpulos ficaram ardendo com um constante logo interior. Entusiasmaram-se ao ponto de chegarem 
renncia completa.

     Dante, em sua viagem imaginria pelo inferno, aproximou-se de um grupo de almas perdidas que
suspiravam e gemiam continuadamente enquanto giravam sem objetivo no ar sombrio. Virglio, seu guia,
explicou que eram os "indivduos desprezveis", os "quase sem alma", que, quando viviam na terra, no
tinham energia moral bastante para serem bons ou maus. No tinham recebido nem louvor nem acusao.
E com eles, e compartilhando o seu castigo, estavam os anjos que no tomaram partido, nem ao lado de
Deus, nem ao lado de Satans. O destino de todo o grupo de fracos e irresolutos era o de ficarem eles
suspensos para sempre entre um inferno que os desprezava e um cu que no queria receber a sua
presena manchada. Nem sequer os seus nomes deviam ser mencionados de novo no cu, na terra, ou no
inferno. "Olha", disse o guia, "e passa adiante".

    Estaria Dante dizendo a seu modo o que o Senhor disse muito tempo antes  igreja de Laodicia:
"Quem dera fosses frio ou quente! Assim, porque s morno, nem s quente nem frio, estou a ponto de
vomitar-te da minha boca"?

    O baixo nvel de entusiasmo moral entre ns pode ter significao mais profunda do que estamos
dispostos a acreditar.


33.    Exposio Requer Aplicao

    Charles G. Finney acreditava que o ensino da Bblia sem aplicao moral podia ser pior do que no se
ministrar nenhum ensino e podia resultar em verdadeiro dano aos ouvintes. Eu achava que esta poderia
constituir uma posio extremista, mas, depois de anos de observao, cheguei perto dela, ou a uma
opinio quase idntica a ela.

     Dificilmente haver alguma coisa to ftua e sem sentido como ensinar doutrina bblica apenas por
amor da doutrina. A verdade divorciada da vida no  verdade no sentido bblico, mas  coisa diferente e
inferior. A teologia  um conjunto de fatos a respeito de Deus, do homem e do mundo. Estes fatos podem
ser, e muitas vezes so, expostos como valores em si mesmos; e a est a armadilha, tanto para o mestre
como para o ouvinte.

    A Bblia , entre outras coisas, o livro da verdade revelada. Isto , so revelados nele certos fatos que
no poderiam ser descobertos pela mente mais brilhante. Estes fatos so de tal natureza que poderiam
passar despercebidos. Estavam ocultos atrs de um vu e, enquanto certos homens que falaram quando
foram movidos pelo Esprito Santo no tiraram o vu, nenhum mortal pde conhec-los. A este levantar do
vu de coisas no conhecidas partindo de coisas no suscetveis de serem descobertas, chamamos
revelao divina.

     Contudo, a Bblia  mais do que um volume que contem fatos at ento ignorados sobre Deus, o
homem e o universo.  um livro de exortao baseada naqueles fatos. Em grande proporo, a maior parte
do livro  dedicada a um insistente esforo para persuadir as pessoas a mudarem os seus caminhos e a pr
as suas vidas em harmonia com a vontade de Deus como exposta em suas pginas.

     Ningum fica melhor por saber que no princpio Deus criou os cus e a terra. O diabo o sabe, como
tambm o sabiam Acabe e Judas Iscariotes. Ningum fica melhor por saber que de tal maneira amou Deus
ao mundo, que deu o seu Filho unignito para morrer para a sua redeno. No inferno h milhes que
sabiam disso. A verdade teolgica  intil enquanto no  obedecida. O propsito por trs de toda doutrina
 assegurar a ao moral.

    O que geralmente se passa por alto  que a verdade, como exposta nas Escrituras crists,  uma coisa
moral; no se dirige somente ao intelecto, mas tambm  vontade. Dirige-se ao homem total, e no lhe 
possvel desincumbir-se das suas obrigaes captando-a mentalmente. Ela ocupa a cidadela do corao
humano, e no ficar satisfeita enquanto no subjugar tudo que h ali. Cabe  vontade aparecer e entregar a
sua espada. Tem de ficar em posio de alerta para receber ordens, e tem de obedecer a essas ordens. Me-
nos que isso, qualquer conhecimento da verdade  inadequado e intil.
     Expor a Bblia sem fazer aplicao moral no provoca oposio nenhuma.  s quando o ouvinte 
levado a compreender que a verdade est em conflito com o seu corao que a resistncia comea.
Enquanto as pessoas puderem ouvir a verdade ortodoxa divorciada da vida, freqentaro e sustentaro as
igrejas e as instituies sem objeo. A verdade  uma cano amena, e se torna agradvel pela associao
demorada e terna; e visto que no pede nada. seno alguma soma de dinheiro, e oferece boa msica,
amizades agradveis e confortvel sensao de bem-estar, no encontra resistncia da parte dos fiis.
Muita coisa que passa por cristianismo neo-testamentrio  pouco mais que a verdade objetiva adocicada
com canes e tornada saborosa por meio de entretenimentos religiosos.

    Provavelmente nenhuma outra poro das Escrituras pode comparar-se com as epstolas paulinas na
produo de santos artificia is. Pedro advertiu que os ignorantes e os instveis torcem para a prpria
destruio deles os escritos de Paulo, e basta que compareamos a uma conferncia sobre a Bblia, dessas
que se fazem comumente, e ouamos algumas prelees, para sabermos o que Pedro quis dizer. O que 
nefasto  que as doutrinas paulinas podem ser ensinadas com completa fidelidade  letra do texto, sem
melhorar os ouvintes nem um pouco. O mestre pode, e freqentemente o faz, ensinar a verdade de molde a
deixar os ouvintes sem senso de obrigao moral.

    Uma razo do divrcio entre a verdade e a vida pode ser a falta de iluminao do Esprito. Outra 
decerto a falta de disposio do mestre para meter-se em dificuldades. Qualquer homem dotado de belos
dons para o plpito pode trabalhar em harmonia com a igreja normal, se simplesmente a "alimentar" e a
deixar a ss, D uma poro de verdades objetivas aos ouvintes e nunca insinue que esto errados e
precisam corrigir-se, e ficaro contentes.

     Por outro lado, o homem que prega a verdade e a aplica s vidas dos seus ouvintes, sentir os cravos e
os espinhos. Levar uma vida dura, mas gloriosa. Queira Deus levantar muitos profetas assim. A igreja tem
aguda necessidade deles.


34.    Cuidado com a Mentalidade de Carto de Fichrio

     A essncia da verdadeira religio  a espontaneidade, os soberanos movimentos do Esprito Santo
sobre o esprito livre do homem redimido e no seu esprito. Atravs dos anos da histria humana, tem sido
este o autntico sinal da excelncia espiritual, a prova da realidade num mundo de irrealidade.

    Quando a religio perde o seu carter soberano e se torna mera forma, esta espontaneidade tambm
se perde, e em seu lugar vem a mentalidade de precedente, de propriedade, de sistema -- de fichrio.
    Subjacente  mentalidade de fichrio est a crena em que a espiritualidade pode ser organizada.
Ento se introduzem na religio aquelas idias que jamais lhe pertenceram -- nmeros, estatstica, a lei
das mdias, e outras coisas naturais e humanas como essas. E a arrepiante morte segue-se sempre.

    Ora, o fichrio  um pequeno instrumento deveras inofensivo e til para alguns propsitos. 
esplndido para manter os registros de freqncia da Escola Dominical, e sem ele dificilmente se pode
controlar bem uma lista de endereos para expedio postal.  uma boa coisa em seu lugar prprio, e
mortal fora do seu lugar. O seu perigo vem da bem conhecida tendncia humana de depender de ajudas
externas no trato de coisas internas.

    Quando o carto de fichrio comea a dirigir a vida do cristo, imediatamente se torna um estorvo e
uma maldio. Quando ele sai do arquivo e entra no corao humano, ai de ns; nada, seno uma revoluo
espiritual interior pode livrar a vtima do seu destino.

     Eis como o fichrio funciona quando entra na vida crist e comea a criar hbitos mentais: Divide a
Bblia em sees adaptadas para os dias do ano, e compele o cristo a ler de acordo com a regra. No
importa o que o Esprito Santo esteja querendo dizer a um homem, ele ainda continua lendo onde a ficha
lhe diz que leia, subservientemente, checando-a todo dia.

     Todo santo dirigido pelo Esprito sabe que h vezes em que  retido por uma compulso interna num
captulo, ou mesmo num versculo, durante dias, ocasio em que ele luta com Deus, at que alguma verdade
faz o seu trabalho dentro dele. Deixar dita passagem para seguir um plano de leitura programada -lhe
totalmente impossvel. Ele est nas mos do Esprito independente, e a realidade est perante ele para
quebrantar, humilhar, levantar, libertar e encorajar. Porm, somente a alma livre pode saber a glria disso.
A isto o corao preso ao sistema ser um estranho para sempre.

    O escravo do fichrio logo v que as suas oraes perdem a sua liberdade e se tornam menos
espontneas, menos eficazes. V-se preocupado com questes que no deveriam preocup-lo em nada --
quanto tempo passou orando ontem, se ele completou ou no a lista de assuntos de orao para o dia, se se
levanta cedo como de costume ou se permanece em orao at tarde da noite como costumava.
Inevitavelmente, o calendrio afasta o Esprito e a face do mostrador do relgio esconde a face de Deus. A
orao deixa de ser a livre respirao de uma alma resgatada e se torna um dever para cumprir-se. E
mesmo que sob tais circunstncias consiga fazer a sua orao atingir algo, ainda assim sofre trgicas
perdas e impe  sua alma um jugo do qual Cristo morreu para livr-lo.

     O pastor tambm deve vigiar para no vir a ser vtima do fichrio. Para quem tem uma rota a
percorrer, parece boa idia elaborar um sistema de sermes de ampla cobertura, delimitando as doutrinas
da Bblia como o fazendeiro divide os seus acres de terra. dedicando certo espao de tempo durante o ano
para sermes sobre vrias verdades da Bblia, de sorte que o fim de dado perodo se tenha dado a devida
ateno a cada uma delas. Teoricamente isto deveria ser excelente, mas matar qualquer homem que o
siga, e matar a sua igreja tambm; e uma caracterstica desta espcie de morte  que nem o pastor nem o
povo se do conta de que ela chegou.

     Os responsveis pelas atividades das igrejas e os que trabalham pelo Evangelho tambm devem estar
atentos a armadilha do fichrio.  uma coisa mortal e  capaz de sufocar a espontnea operao do Esprito,
Homem nenhum precisa morrer, homem nenhum precisa ficar em paciente e sofredora orao na presena
de Deus enquanto o Esprito infunde a sua vontade soberana em seu corao crente. Nada de viso de Deus,
alta e exaltada, nada de chocante exposio de impureza interior. nada de dores de uma brasa viva nos
lbios.

     A glria do Evangelho  a sua liberdade. Os fariseus, que eram escravos, odiavam a Cristo porque Ele
era livre. A batalha pela liberdade espiritual no terminou quando o nosso Senhor ressurgiu dos mortos.
Ela prossegue, e num grau trgico os filhos da liberdade a esto perdendo. Muitos que tm melhor
conhecimento esto entregando a sua liberdade apenas com uma luta simblica. Acham mais fcil
consultar o fichrio do que buscar em orao um lugar de iluminao espiritual e segurana proftica
interior.

     Ser realmente motivo de lamento em Sio quando a raa dos livres morrer na igreja e a obra de Deus
for totalmente confiada aos escravos das fichas.


35.     O Uso e Abuso do Bom Humor

    Poucas coisas so to benficas na vida crist como um agradvel senso de humor, e poucas so to
mortais como um senso de humor descontrolado.

     Muitos perdem a carreira da vida por sua frivolidade. Paulo tem o cuidado de advertir-nos. Diz ele
claramente que a maneira de conduzir-se caracterstica do cristo no deve ser a da conversao
zombeteira e tola. mas sim, a de aes de graas (Ef 5:1-5),  significativo que nessa passagem o apstolo
classifica a leviandade, ou "palavras vs", juntamente com a impureza, a cobia e a idolatria.

     Ora,  bvio que uma apreciao do humorstico no e um mal em si. Quando Deus nos fez, incluiu o
senso de humor como um trao caracterstico embutido em nossa estrutura, e o ser humano normal possui
este dom, pelo menos em algum grau, A fonte do humorismo e a capacidade de perceber o incngruo. As
coisas que esto fora de foco nos parecem engraadas, e podem despertar em ns um sentimento de
diverso que irromper em risada.

   Os ditadores e os fanticos no tm senso de humor. Hitler nunca percebeu como ele parecia divertido,
nem Mussolini soube como soava ridculo quando declamava solenemente as suas frases bombsticas.

      O religioso fantico olha para situaes to cmicas que chegam a provocar incontrolvel hilaridade
em pessoas normais, e no v nada de divertido nelas. Este ponto cego em sua constituio impede que
veja quo seriamente fora de foco esto a sua vida e as suas crenas. E na medida em que  cego para o
incngruo,  anormal; no e integralmente o que Deus quer que ele seja.

    Bom humor  uma coisa, mas frivolidade  outra muito diferente. O cultivo de um esprito que no
pode levar nada a srio  uma das grandes maldies da sociedade e, dentro da igreja, tem servido para
impedir muita bno espiritual que doutro modo teria descido sobre ns. Todos temos encontrado
aqueles que no so srios nunca. Reagem a tudo com uma risada e com uma observao engraada. Isto j
e bastante ruim no mundo, mas positivamente intolervel entre os cristos.

    No permitamos que um senso de humor pervertido nos arrune. Algumas coisas so engraadas, e
podemos muito bem rir algumas vezes. Mas o pecado no  divertido; a morte no  divertida. No h nada
de engraado num mundo cambaleando  beira da destruio; nada de engraado na guerra e na viso de
rapazes esvaindo-se em sangue nos campos de batalha; nada de engraado nos milhes que perecem cada
ano sem jamais terem ouvido o Evangelho de amor.

      hora de traarmos uma linha divisria entre o falso e o verdadeiro, entre as coisas incidentais e as
vitais. Montes de coisas podemos deixar passar com um sorriso. Mus quando o humorismo toma a
religio como seu objeto de diverso, j no  natural --  pecaminoso e deve ser denunciado pelo que . e
deve ser evitado por todo aquele que deseja andar com Deus.

     Tm sido feitas inumerveis prelees, canes tm sido entoadas e livros tm sido escritos
exortando-nos a encarar a vida com um sorriso e a rir de modo que o mundo possa rir conosco; lembremo-
nos. porm, de que, por mais alegres que os cristos possam ficar, o diabo no  tolo. Ele  insensvel e
srio, e afinal veremos que ele estivera competindo para ganhar. Se ns que nos proclamamos seguidores
do Cordeiro no levarmos as coisas a srio, Satans o far, e ele e bastante astuto para usar a nossa
leviandade para destruir-nos.

    No estou argumentando em prol de uma solenidade antinatural; no vejo valor na melancolia, e no
vejo mal numa boa risada. Minha luta  por uma seriedade grandiosa que harmonizar a nossa disposio
de nimo com a do Filho do homem, dos profetas e dos apstolos das Escrituras. A alegria do Senhor pode
tornar-se a msica dos nossos coraes, e o jbilo do Esprito Santo modular as harpas dentro de ns.
Ento poderemos alcanar aquela felicidade morai que  uma das marcas da verdadeira espiritualidade, e
tambm poderemos escapar dos maus efeitos do humorismo imprprio.


36.    Cultivemos a Simplicidade e a Solido

     Ns cristos temos de simplificar as nossas vidas, ou leremos de perder tesouros incontveis, na terra
e na eternidade.

    A civilizao moderna  to complexa que torna a vida de devoo quase impossvel. Cansa-nos
multiplicando distraes e nos prostra destruindo a nossa soledade, quando, doutro modo, poderamos
beber e renovar as nossas foras antes de sair para enfrentar de novo o mundo.

     "A alma que gosta de meditar, retira-se para a solido", disse o poeta de outros tempos, tempos mais
tranqilos; mas, onde est a solido para a qual podemos retirar-nos hoje? A cincia, que propiciou aos
homens certas comodidades materiais, roubou-lhes as almas, cercando-os com um mundo hostil  sua
existncia. "Converse com o seu corao em seu leito, e fique tranqilo",  um conselho sbio e com poder
curativo, mas como pode ser seguido nestes dias de jornais, telefone, rdio e televiso? Estes brinquedos
modernos, como filhotes de tigre de estimao, cresceram e ficaram to grandes e perigosos, que ameaam
devorar-nos a todos. O que foi planejado para ser uma bno tornou-se positivamente uma maldio.
Lugar nenhum est salvo agora da intruso do mundo.

    Um modo pelo qual o mundo civilizado destri os homens  impedindo-os de ter os seus prprios
pensamentos.

   Os nossos "meios de comunicao enormemente melhorados", de que os de viso curta se jactam alto e
bom som, agora capacitam uns poucos homens, em centros estratgicos, a alimentar milhes de mentes
com contedo de pensamento alheio, pr-fabricado e pr-digerido. Uma pequena assimilao, sem esforo,
destas idias tomadas por emprstimo, e o homem comum ter acionado todo o pensamento que quer ou
que pode acionar. Esta sutil lavagem cerebral prossegue dia aps dia e ano aps ano, para prejuzo eterno
da populao -- populao que, casualmente, est disposta a pagar grandes somas de dinheiro para obter
trabalho pronto, sendo que a razo disso, suponho eu,  que isso a livra da tarefa rdua e muitas vezes
assustadora de chegar a decises independentes pelas quais ter de assumir a responsabilidade.

     Houve poca, no faz muito tempo, em que o lar de um homem era o seu castelo, refgio seguro para o
qual podia voltar para ter sossego e soledade. Ali "as chuvas do cu podem despejar-se, mas nem o prprio
rei pode entrar sem permisso", diziam os orgulhosos ingleses, e no se gabavam em vo. Isso era de fato
um lar. Sobre to sagrado lugar o poeta cantou:
Oh! quando a salvo estou cm meu rstico lar, piso o orgulho da Grcia e a arrogncia de Roma; e quando 
boa sombra dos pinhais me estendo, onde a estrela da tarde to pura resplende, rio-me do saber e da vaidade
do homem, das escolas sofistas e da casta dos doutos; pois, que so eles todos, em sua presuno, quando na
sara o homem pode estar com Deus?2

     Embora um tanto fora do escopo da presente obra, no posso abster-me de observar que o sinal mais
ominoso da destruio que est para sobrevir ao nosso pas  o passamento do lar americano. Os
americanos no vivem mais nos lares, mas nos teatros. Os membros de muitas famlias mal se conhecem
uns aos outros, e o rosto de algum astro popular da TV  to familiar para muitas esposas como o dos seus
maridos. Que ningum sorria. Antes, devemos chorar pelo que isso pressagia. De nada adiantar buscarmos
proteo debaixo das estrelas e listras da nossa bandeira. Nenhuma nao cujo povo se tenha vendido por
po e circo pode durar por muito tempo. Os nossos pais dormem profundamente, e a desagradvel con-
fuso do rudo comercializado que nos engolfa como algo do Inferno de Dante, no pode perturbar o sono
deles. Eles nos legaram uma formosa herana. Para preservar essa herana, precisamos ter um carter
nacional to forte como o deles. E isto s se pode desenvolver num lar cristo.

     A necessidade de soledade e quietude nunca foi maior do' que hoje. O que o mundo far a respeito 
problema dele. Aparentemente, as massas querem as coisas como esto, e na maioria os cristos acham-se
to conformados com a presente era, que eles tambm querem que as coisas continuem como esto. Talvez
estejam um pouco aborrecidos pelo clamor e pela vida de aqurio que levam, mas evidentemente no esto
suficientemente aborrecidos para fazer algo a respeito. Contudo, h alguns poucos cristos que j deram o
basta. Querem reaprender os caminhos da soledade e da simplicidade, e obter as riquezas infinitas da vida
interior. Querem descobrir a bem-aventurana daquilo que o Dr. Max Reich chamava de "solido espi-
ritual". A esses irmos ofereo um breve pargrafo de conselho.

     Retire-se do mundo todo dia para algum local privado, ainda que seja apenas o quarto (por um tempo
fiz o meu retiro na cmara da caldeira de aquecimento, por falta de lugar melhor). Permanea no locai
secreto at que os rudos circundantes comecem a esvair-se do seu corao e a sensao da presena de
Deus o envolva. Deliberadamente desligue os sons desagradveis e saia do seu recanto secreto
determinado a no ouvi-los. Oua a voz interior at aprender a reconhec-la. Pare de tentar competir com
outros. Entregue-se a Deus, e ento seja o que e quem , sem se importar com o que os outros pensam.
Reduza os seus interesses a uns poucos. No procure saber coisas que no lhe sejam teis. Evite a mente
condensada -- cheia de pedaos de fatos no relacionados entre si, histrias bonitas e ditos brilhantes.
Aprenda a orar interiormente a todo momento. Aps algum tempo, voc poder fazer isso enquanto traba-
lha. Pratique a candura, a sinceridade da criana, a humildade. Ore pedindo olhos simples. Leia menos, mas
leia mais daquilo que  importante para a sua vida interior. Jamais permita que a sua mente fique dispersa
por muito tempo. Chame para casa os seus pensamentos errantes. Contemple Cristo com os olhos da alma.
Exercite a concentrao espiritual.

     Tudo que acima foi dito depende da correta relao com Deus por meio de Cristo, e da meditao
diria nas Escrituras. Faltando estas coisas, nada nos ajudar; asseguradas, a disciplina recomendada
conseguir neutralizar os maus efeitos do externalismo e nos far conhecer bem a Deus e s nossas
prprias almas.




2
    Good-bye, Ralph Waldo Emerson.
37.    O Mundo Bblico E o Mundo Real

     Quando l as Escrituras, a pessoa sensvel por certo sente a marcante diferena entre o mundo como a
Bblia o revela e o mundo como concebido pelos religiosos de hoje. E o contraste no nos favorece.

    O mundo como o viam os homens e mulheres da Bblia era um mundo pessoal, clido, amigo, povoado.
O mundo deles continha primeiramente o Deus que o criara, que ainda habitava nele como num santurio,
e que poderia ser descoberto a passear entre as rvores do jardim, se o corao humano fosse bastante
puro para sentir e os olhos bastante aptos para verem. Tambm estavam presentes l muitos seres
enviados de Deus para ministrarem queles que eram os herdeiros da salvao. Reconheciam tambm a
presena de foras sinistras s quais era dever dele opor-se, e que podiam vencer facilmente apelando para
Deus em orao.

    Os cristos pensam hoje no mundo em termos totalmente diferentes. A cincia, que nos trouxe muitos
benefcios, tambm trouxe com eles um mundo totalmente diverso daquele que vemos nas Escrituras. O
mundo de hoje consiste de espaos amplos e ilimitados, tendo aqui e ali, a remotas distncias uns dos
outros, corpos cegos e sem sentido, controlados somente por leis naturais das quais eles no podem
escapar nunca. Esse mundo  frio e impessoal, e completamente sem habitantes, exceto quanto ao homem,
o pequeno e trmulo ser efmero que se agarra ao solo enquanto gira "no percurso dirio pela terra, com
rochas, pedras e rvores".

    Que glorioso  o mundo, como o conheciam os homens da Bblia! Jac viu uma escada posta sobre a
terra com Deus no alto dela, e os anjos subindo e descendo por ela. Abrao, Balao e Mano, e tantos
outros, encontraram-se com anjos de Deus e conversaram com eles. Moiss viu a Deus na sara; Isaas O viu
num alto e sublime trono, e ouviu o cntico antifnico enchendo o templo.

    Ezequiel viu uma grande nuvem como fogo a revolver-se, e do meio da nuvem saa a semelhana de
quatro seres viventes. Anjos estiveram presentes para falar do nascimento de Jesus e para celebrar esse
nascimento quando se deu em Belm; anjos confortaram nosso Senhor quando orava no Getsmani;
mencionam-se anjos em algumas das epstolas inspiradas, e o Livro do Apocalipse refulge com a presena
de estranhas e belas criaturas atentas s atividades da terra e do cu.

     Sim, o mundo verdadeiro  um mundo povoado. Os olhos cegos dos cristos modernos no podem ver
o invisvel, mas isto no destri a realidade da criao espiritual. A incredulidade nos tirou o consolo de um
mundo pessoal. Aceitamos o mundo vazio e sem sentido da cincia como sendo o mundo verdadeiro,
esquecendo-nos de que a cincia s  vlida quando trata com coisas materiais, e nada pode saber de Deus
e do mundo espiritual.

     Precisamos ter f; e no nos desculpemos por isso, porquanto a f  um rgo do conhecimento e nos
pode dizer mais sobre a realidade ltima do que as descobertas da cincia. No nos opomos  cincia, mas
reconhecemos as suas limitaes e nos recusamos a parar onde ela  compelida a parar. A Bblia fala de
outro mundo, fino demais para ser descoberto pelos instrumentos de pesquisa cientfica. Pela f nos
comprometemos com esse mundo e o fazemos nosso. -nos acessvel mediante o sangue da aliana eterna.
Se crermos, podemos desde j desfrutar a presena de Deus e o ministrio dos seus mensageiros celestes.
Somente a incredulidade pode privar-nos deste privilgio principesco.


38.    Louvor em Trs Dimenses

    Cristo  tantas coisas maravilhosas para os seus, e lhes traz tal riqueza de benefcios, que a mente no
pode compreender, nem o corao pode encontrar palavras para expressar.

    Estes tesouros so presentes e futuros. O Esprito da Verdade, falando por meio de Paulo, afirma-nos
que em Cristo Deus nos abenoou com todas as bnos espirituais. Estas nos pertencem, como filhos da
nova criao que somos, e so postas ao nosso alcance pela obedincia da f.

     Pedro, movido pelo mesmo Esprito, fala-nos de uma herana que nos  garantida pela ressurreio de
Cristo, herana incorruptvel, sem mcula, imarcescvel, reservada nos cus para ns.
    No h contradio aqui, pois um apstolo fala dos benefcios presentes, e o outro, dos benefcios que
ainda havero de ser-nos conferidos por ocasio da vinda de Cristo. E ambos esgotam a linguagem humana
para celebrar as muitas bnos que j recebemos.

    Talvez nos ajudasse a compreender, se pensssemos em ns como um peixe num rio imenso, ao
mesmo tempo gozando o pleno fluxo da caudal, lembrando com gratido a corrente que j passou, e
esperando com jubilosa antecipao a plenitude que se move ao nosso encontro das cabeceiras do rio.
Embora isso no passe de uma imperfeita figura de linguagem,  verdade absolutamente literal que ns,
que confiamos em Cristo, somos sustentados pela graa presente, enquanto nos lembramos com gratido
da bondade que desfrutamos nos dias passados e ansiamos com feliz expectativa pela graa e bondade que
ainda nos esperam.

    Bernardo de Claraval fala algures de um "perfume composto dos recordados benefcios de Deus". Tal
fragrncia  rara demais. Todo cristo deveria recender esse aroma; pois no temos recebido, todos ns,
mais da bondade de Deus do que a nossa imaginao poderia ter concebido antes de O conhecermos e de
descobrir por ns mesmos quo rico e quo generoso Ele ?

     Que recebemos da Sua plenitude graa sobre graa ningum negar; mas a fragrncia no provm do
recebimento; provm da recordao, que  de fato uma coisa muito diferente. Dez leprosos receberam a
cura; esse foi o benefcio. Um deles voltou para agradec-lo ao seu benfeitor; esse foi o perfume. Benefcios
no lembrados podero, como moscas mortas, fazer o ungento exalar cheiro ftido.

    Bnos rememoradas, gratido por favores atuais e louvor pela graa prometida, mesclam-se como
mirra, alos e cssia para formar um fino ramalhete para adorno dos santos. Davi tambm ungiu a sua
harpa com este perfume, e deste os hinos dos sculos tm sido docemente impregnados.

    Talvez se exija f mais pura para louvar a Deus por bnos no concretizadas do que pelas j
desfrutadas ou pelas que ora desfrutamos. Todavia, muitos h que subiram a essa culminncia ensolarada,
como se deu com Anna Waring, quando escreveu:
Dou glria a Ti por toda graa que ainda no provei. . .

     Conforme nos movemos rumo a uma familiaridade pessoal mais profunda com o Trino Deus, creio que
a nfase da nossa vida se apartar do passado e do presente para o futuro. Lentamente nos tornaremos
filhos de uma esperana viva e de um amanh seguro. Os nossos coraes se enternecero com as
lembranas de ontem, e as nossas vidas se encantaro de gratido a Deus pelo caminho seguro que
percorremos; mas os nossos olhos focalizaro mais e mais a bendita esperana do amanh.

    Grande parte da Bblia  dedicada  predio. De tudo que Deus j fez por ns, nada se pode comparar
com tudo que est escrito na segura palavra da profecia. E nada do que Ele fez ou pode fazer ainda por ns,
pode comparar-se com o que Ele  e ser para ns. Talvez a autora de hinos tivesse isto em mente quando
cantou:

"Tenho uma herana de alegria que ainda no devo ver; a mo que sangrou para faz-la minha
guarda-a para mim".

    Poderia essa "herana de alegria" ser menos do que a Beatfica Viso?
# Excertos Extrados de O Homem: a Habitao de Deus

39.    O Homem: a Habitao de Deus

    No mais profundo de cada indivduo existe um santurio particular onde habita a misteriosa essncia
do seu ser. Esta realidade interior  aquela parte do homem que  o que  sem referncia a qualquer outra
parte de sua complexa natureza. Trata-se do "eu sou" do homem, um dom do EU SOU que lhe deu vida.

     O EU SOU que  Deus  auto-existente e original; o "eu sou" que  o homem tem origem em Deus e
depende a cada momento das ordens de seu Criador para continuar a existir. Um deles  o Criador,
exaltado sobre todos, o ancio de dias, habitando na luz inatingvel. O outro  uma criatura e, embora
privilegiada em relao a todas as demais, no passa mesmo assim de criatura, dependente de
generosidade divina e um pedinte diante do seu trono.

    A entidade humana oculta de que falamos  chamada nas Escrituras de esprito do homem. "Porque,
qual dos homens sabe as coisas do homem, seno o seu prprio esprito que nele est? assim tambm as
coisas de Deus ningum as conhece seno o Esprito de Deus" (I Co 2:11). Da mesma maneira que o
autoconhecimento de Deus se encontra no Esprito eterno, o do homem se faz pelo seu prprio esprito, e
seu conhecimento de Deus  obtido pela influncia direta do Esprito divino sobre o humano.

    A importncia de tudo isto jamais pode ser superestimada,  medida que refletimos, estudamos e
oramos. Ela revela a espiritualidade essencial do ser humano, negando que o homem seja uma criatura
dotada de esprito e declarando que ele  um esprito dotado de corpo. Aquilo que faz dele um ser humano
no  o seu corpo mas seu esprito, impregnado da semelhana de Deus.

     Uma das afirmativas que nos do mais liberdade no Novo Testamento  esta: "Os verdadeiros
adoradores adoraro o Pai em esprito e em verdade; porque so estes que o Pai procura para seus
adoradores. Deus  esprito; e importa que os seus adoradores o adorem em esprito e em verdade" (Joo
4:23,24). A natureza da adorao  mostrada aqui como sendo absolutamente espiritual. A verdadeira
religio no fica presa a datas e jejuns, vestes e cerimnias, sendo colocada no lugar que lhe pertence -- a
unio do esprito do homem com o Esprito de Deus.

     Do ponto de vista humano a perda mais trgica sofrida na Queda foi a partida do Esprito de Deus
deste santurio interior. No ponto mais oculto do ser humano existe uma sara (um arbusto) preparada
para ser a habitao do Deus Trino. Deus planejou repousar ali e brilhar, ardendo como uma chama moral e
espiritual. O homem, por ter pecado, perdeu este privilgio magnfico e indescritvel e deve habitar agora
sozinho nesse lugar. To ntimo e oculto ele , que ningum pode chegar at ele, seno somente Cristo, e Ele
s entrar mediante o convite da f. "Eis que estou  porta e bato; se algum ouvir a minha voz, e abrir a
porta, entrarei em sua casa. e cearei com ele e ele comigo" (Ap 3:20).

     Mediante a operao misteriosa do Esprito por ocasio do novo nascimento, aquilo que Pedro chama
de "natureza divina" penetra no mais ntimo do corao do crente e estabelece ali a sua morada. "E se
algum no tem o Esprito de Cristo, esse tal no  dele", pois, "o prprio Esprito testifica com o nosso
esprito que somos filhos de Deus" (Rm 8:9,16). Tal indivduo  um verdadeiro cristo, e somente uma
pessoa assim. O batismo, a confirmao, receber os sacramentos -- nada disso tem significado a no ser
que o ato supremo de Deus tambm tenha lugar na regenerao. As exterioridades religiosas podem ter
significado para a alma habitada por Deus; para quaisquer outros elas no s so inteis como podem
tornar-se at mesmo armadilhas que os faam cair num conceito de segurana falso e perigoso.

    "Guarde o seu corao com toda a diligncia"  mais que um ditado sbio, mas uma responsabilidade
solene colocada sobre ns por Aquele que mais se interessa pela nossa pessoa. Devemos dar toda ateno a
essas palavras, a f i m de no escorregarmos.


40.    Por Que Alguns Acham a Bblia Difcil
     Ningum pode negar que algumas pessoas acham a Bblia difcil. Os testemunhos quanto s
dificuldades encontradas na leitura bblica so inmeros e no podem ser desconsiderados levianamente.

     Na experincia humana existe geralmente um complexo de motivos e no um s motivo para tudo, o
mesmo acontece com as dificuldades que encontramos na Bblia. No se pode dar uma resposta
instantnea para a pergunta: Por que a Bblia  difcil de entender? Qualquer resposta irrefletida tem toda
probabilidade de estar errada. O problema no  singular, mas plural, e por esta razo o esforo de
encontrar para ele uma soluo nica ser frustrado.

    Apesar desse raciocnio, ouso dar uma resposta curta para a pergunta, e embora esta no responda a
tudo, contm boa parte da soluo do problema envolvido numa questo assim complexa. Acredito que
achamos a Bblia difcil porque tentamos l-la como teramos qualquer outro livro, mas ela no se assemelha
a nenhum outro livro.

    A Bblia no  dirigida a qualquer um. sua mensagem tem como alvo alguns escolhidos. Quer esses
poucos sejam escolhidos por Deus num ato soberano de eleio ou por corresponderem a determinadas
qualificaes, deixo para cada um decidir como possa, sabendo perfeitamente que sua deciso ser
determinada pelas suas crenas bsicas sobre assuntos tais como predestinao, livre-arbtrio, os decretos
eternos e outras doutrinas relativas. Mas o que quer que tenha tido lugar na eternidade, o que acontece no
tempo fica evidente: alguns crem e outros no; alguns so moralmente receptivos e outros no; alguns
tm capacidade espiritual e outros no. So para os primeiros que a Bblia foi escrita, os demais iro l-la
inutilmente.

     Sei que alguns leitores vo apresentar objees vigorosas neste ponto, e as razes para elas so fceis
de descobrir. O cristianismo de hoje se concentra no homem e no em Deus. O Senhor precisa aguardar
com toda pacincia e at mesmo respeito, sujeitando-se aos caprichos humanos. A imagem de Deus aceita
pelo povo  a de um Pai aflito, esforando-se em desespero amargurado para fazer com que as pessoas
aceitem um Salvador de que elas no sentem necessidade e em quem tm pouco interesse. A fim de
persuadir essas almas auto-suficientes a responderem s suas ofertas generosas, Deus far quase tudo,
usando at mesmo mtodos de venda especiais e lhes falando da maneira mais ntima possvel. Este ponto
de vista , naturalmente, um tipo de religio romantizada que consegue fazer do homem a estrela do
espetculo, embora usando com freqncia termos elogiosos e at mesmo embaraosos em relao a Deus.

     A idia de que a Bblia e dirigida a todos criou confuso dentro e fora da igreja. O esforo de aplicar os
ensinamentos contidos no Sermo do Monte s naes no-regeneradas do mundo  um exemplo disto. Os
tribunais e poderes militares da terra so instados a seguirem os ensinos de Cristo, algo evidentemente
invivel para eles. Citar as palavras de Cristo como diretriz para policiais, juizes e militares  interpretar
absolutamente errado essas palavras e revelar completa falta de compreenso dos propsitos da revelao
divina. O convite gracioso de Cristo  estendido aos filhos da graa e no s naes gentias cujos smbolos
so o leo, a guia, o drago e o urso.

     Deus no s dirige suas palavras de verdade aos que tm capacidade para receb-las, como tambm as
oculta aos demais. O pregador faz uso de histrias para esclarecer a verdade, nosso Senhor usou-as muitas
vezes para ocult-la. As parbolas de Cristo foram o exato oposto da moderna "ilustrao" que serve para
esclarecer; as parbolas eram "ditos obscuros" e Cristo afirmou que fazia uso delas algumas vezes a fim de
que seus discpulos pudessem compreender, mas no os inimigos. (Veja Mateus 13:10-17.) Assim como a
coluna de fogo iluminava Israel, mas servia para ocult-los aos olhos dos egpcios, as palavras do Senhor
brilham no corao do seu povo embora deixem o incrdulo presunoso nas trevas da noite moral.

     O poder salvador da Palavra fica reservado para aqueles a quem ele se destina. O segredo do Senhor
est com aqueles que O temem. O corao impenitente no descobrir na Bblia seno um esqueleto de
fatos sem carne, vida, ou flego de vida. Shakespeare pode ser apreciado sem necessidade de
arrependimento; podemos entender Plato sem acreditar numa palavra que ele diz; mas a penitncia e a
humildade juntamente com a f e a obedincia so necessrias a fim de que as Escrituras possam ser
compreendidas corretamente.

     Nos assuntos naturais, a f segue-se  evidncia, sendo impossvel sem ela, mas no reino do esprito,
ela precede o entendimento; e no se segue a ele. O homem natural precisa saber a fim de acreditar; o
homem espiritual precisa crer para vir a conhecer. A f que salva no  uma concluso extrada da
evidncia; mas uma coisa moral, uma coisa do esprito, uma infuso sobrenatural de confiana em Jesus
Cristo, um perfeito dom de Deus.

    A f salvadora se baseia na Pessoa de Cristo; ela leva imediatamente a uma rendio do nosso ser total
a Cristo, cujo ato  impossvel ao homem natural. Crer corretamente  um milagre comparvel ao da
ressurreio de Lzaro sob a ordem de Cristo.

      A Bblia  um livro sobrenatural e s pode ser entendido com ajuda sobrenatural.


41.      A F: uma Doutrina Incompreendida

     No esquema divino da salvao, a doutrina da f  essencial. Deus dirige suas palavras  f, e onde no
existe f,  impossvel uma verdadeira revelao. "Sem f  impossvel agradar a Deus."

     Cada um dos benefcios derivados da expiao de Cristo chega ao indivduo pela porta da f. Perdo,
purificao, regenerao, o Esprito Santo, todas as respostas  orao, so concedidas  f e recebidas pela
f. No existe outro meio. Esta  uma doutrina evanglica comum e aceita onde quer que a cruz de Cristo 
compreendida.

    Pelo fato de a f ser to vital a todas as nossas expectativas, to necessria ao cumprimento de cada
uma das aspiraes de nosso corao, no ousamos tomar nada como certo em relao a ela. Uma coisa que
abrange tanto bem e tanto mal, que na verdade decide nosso cu e nosso inferno,  demasiado importante
para ser negligenciada. No nos  possvel de modo algum manter-nos no-informados ou mal-informados.
 preciso saber.

     Meu corao se manteve durante muitos anos preocupado com a doutrina da f, como ela  recebida e
ensinada entre os cristos evanglicos por toda parte. Grande nfase  dada  f nos crculos ortodoxos, e
isso  bom; mas continuo preocupado. Meu temor especfico se prende ao fato de o moderno conceito de f
no ser bblico. Quando os professores de hoje usam a palavra, eles no tm em mente o mesmo significado
que os escritores bblicos lhe deram, segundo penso.

     As causas de minha preocupao so as seguintes:
     1. A falta de um fruto espiritual na vida de tantos que afirmam ter f.
     2. A raridade de uma transformao radical na conduta e perspectiva geral das pessoas que professam
sua nova f em Cristo como seu Salvador pessoal.
     3. O fracasso de nossos professores em definir ou mesmo descrever aquilo a que a palavra f deveria
referir-se.
     4. O fracasso completo de multides de interessados, por mais sinceros que sejam, de tirar qualquer
proveito da doutrina ou receber atravs dela qualquer experincia satisfatria.
     5. O perigo real de que uma doutrina to servilmente imitada e recebida sem crticas por tantos seja
to falsa quanto a compreenso que tm da mesma.
     6. Tenho visto f sendo apresentada como um substituto  obedincia, uma fuga da realidade, um
refgio da exigncia de raciocinar, um esconderijo para um carter fraco. Conheci pessoas que davam o
nome de f aos espritos de animais superiores, ao otimismo natural, s emoes e a tiques nervosos.
     7. O bom senso comum deveria dizer-nos que qualquer coisa que no transforme a pessoa que a
professa, tambm no faz diferena para Deus. No podemos deixar de observar que para um nmero
incontvel de pessoas a mudana da falta de f para a f no faz uma diferena real na vida delas.

    Talvez seja til saber primeiro o que a f no . a fim de podermos entender aquilo que ela . No 
acreditar numa declarao que sabemos ser verdadeira. A mente humana foi feita de tal forma que
acredita necessariamente quando a evidencia a ela apresentada  convincente. No pode agir de outro
modo. Quando a evidncia no consegue convencer, a f  impossvel. Nenhuma ameaa ou castigo
consegue obrigar a mente a crer quando existe evidncia clara em contrrio.

     A f baseada na razo  um tipo de f, mas no se trata do carter da f bblica, pois segue
infalivelmente a evidncia e no possui uma natureza moral ou espiritual. A ausncia de f baseada na
razo tambm no pode servir para condenar ningum, pois a evidncia e no o indivduo  quem decide o
veredicto. Enviar um homem para o inferno pelo nico fato de seguir a evidncia at a sua concluso
adequada seria demasiada injustia; j ustifi ca r um pecador dizendo que ele tomou suas decises segundo
fatos claros seria fazer da salvao o resultado das operaes de uma lei comum da mente, aplicvel tanto a
Judas como a Paulo. Seria tirar a salvao da esfera da vontade e coloc-la num plano mental, onde,
segundo as Escrituras, ela certamente no se enquadra.

     A verdadeira f se apia no carter de Deus e no pede outras provas alm das perfeies morais
d'Aquele que no pode mentir. Basta que Deus tenha afirmado, e se a declarao for contrria a cada um
dos cinco sentidos e a todas as concluses da lgica, o crente mesmo assim continua crendo. "Seja Deus
verdadeiro e mentiroso todo homem" (Rm 3:4),  a linguagem da f real. O cu aprova tal tipo de f porque
ela se eleva sobre as simples provas e se apia no seio de Deus.

     Em anos recentes tem havido um movimento entre certos evanglicos no sentido de provar as
verdades bblicas apelando para a cincia.  buscada evidncia no mundo natural, a fim de apoiar a
revelao supranatural. Flocos de neve, sangue, pedras, criaturas marinhas estranhas, pssaros e muitos
outros objetos naturais tm sido apresentados como prova de que a Bblia diz a verdade. Isto tem sido
considerado como um grande aliado da f, afirmando que se uma doutrina bblica puder ser provada como
verdadeira, a f ir brotai e florescer em resultado disso.

    O que esses irmos no percebem  que o prprio fato de eles sentirem a necessidade de buscar
provas para as verdades das Escrituras traz  luz algo completamente diverso, a saber, sua prpria
descrena bsica. Quando Deus fala, a incredulidade pergunta: "Como posso saber se isso  verdade?" EU
SOU O QUE SOU  a nica base para a f. Escavar entre as rochas ou pesquisar as profundezas dos mares a
fim de conseguir evidncia para apoiar as Escrituras  insultar QUEM as escreveu. Acredito sinceramente
que isto no  feito intencionalmente, mas no vejo como escapar  concluso de que de todo modo isso
acontece.

     A f, como apresentada na Bblia,  confiana em Deus e em seu Filho Jesus Cristo.  a resposta da alma
ao carter divino, como revelado nas Escrituras, e mesmo esta resposta  impossvel sem a operao do
Esprito Santo. A f  um dom de Deus  alma arrependida e nada tem a ver com os sentidos ou 
informao por eles prestada. A f  um milagre;  a capacidade dada por Deus para que confiemos em seu
Filho, e qualquer coisa que no resulte em ao segundo a vontade de Deus no  f, mas algo inferior a ela.

    A f e a moral so dois lados da mesma moeda. A moral  de fato a prpria essncia da f. Qualquer f
em Cristo como Salvador pessoal que no submeta a vida da pessoa  obedincia completa a Cristo 
insuficiente e ir trair sua vtima no final.

    O homem que cr obedecer; a falha em obedecer  uma prova convincente de que no existe
verdadeira f. A fim de tentar o impossvel Deus deve conceder f, caso contrrio ela no existir, e Ele s
concede f ao corao obediente. H obedincia quando h arrependimento; pois este no  apenas tristeza
pelos erros e pecados do passado, mas tambm uma deciso de comear a fazer desde agora a vontade de
Deus como revelada por Ele a ns.


42.    A Verdadeira Religio no se Baseia em Sentimentos mas na Vontade

    Uma das questes desconcertantes que mais cedo ou mais tarde surge para confundir o cristo  como
pode cumprir o mandamento bblico de amar a Deus de todo o corao e o prximo como a si mesmo.

    O cristo sincero, enquanto medita nesta obrigao sagrada de amar a Deus e  humanidade, pode
experimentar uma certa frustrao gerada pelo conhecimento de que ele no pode criar deliberadamente
qualquer entusiasmo emocional com relao a seu Senhor ou seus irmos. Ele deseja isso, mas no
consegue faz-lo. As deliciosas fontes do sentimento simplesmente no correm.

     Muitas pessoas sinceras desanimaram por causa da ausncia de emoo religiosa e concluram que
no eram crists afinal de contas, achando que perderam o caminho certo em algum ponto e sua religio
tornou-se praticamente vazia de sentido. Durante algum tempo ento censuram-se pela sua frieza e
finalmente entram num estado de desnimo completo, mal sabendo o que pensar. Elas acreditam em Deus;
confiam verdadeiramente em Cristo como seu Salvador, mas o amor que esperavam sentir lhes escapa
sempre. Qual ser o problema?
     Ele no  fcil. Existe uma dificuldade real, a qual pode ser estabelecida em forma de pergunta: Como
posso amar obrigado? De todas as emoes de que a alma  passvel, o amor  a mais livre, a menos
racional, a que tem menor probabilidade de atender ao chamado do dever ou da obrigao, e certamente
aquela que no atende ao mandado de outrem. Nenhuma lei jamais foi passada que pudesse compelir um
ser moral a amar outro, pois pela sua prpria natureza o amor deve necessariamente ser voluntrio.
Ningum pode ser coagido ou ameaado a fim de amar algum. O amor no surge assim. O que fazer ento
com o mandamento do Senhor para amar a Deus e a nosso prximo?

     A fim de descobrir o caminho que leva da escurido para a luz, precisamos apenas saber que existem
duas espcies de amor: o amor do sentimento e o amor da vontade. Um deles est preso s emoes, o outro
 vontade. Sobre o primeiro  mnimo o nosso controle. Ele vem e vai, sobe e desce, chameja e desaparece
segundo lhe apraz e muda de quente para morno, para frio, e depois se aquece de novo como faz o tempo.
No foi a esse amor que Cristo se referiu quando disse aos seus discpulos que amassem a Deus e uns aos
outros. Tentar fazer com que este tipo de afeio caprichosa entrasse obrigatoriamente em nosso corao
seria o mesmo que ordenar a uma borboleta que pousasse em nosso ombro.

     O amor recomendado na Bblia no  o amor-sentimento; mas o amor-vontade, uma deciso tomada
deliberadamente. (Agradeo essas frases to adequadas a um mestre da vida interior cuja pena foi h pouco
silenciada pela morte.)

    Deus jamais pretendeu que um ser como o homem fosse presa de suas emoes. A vida emocional 
uma parte nobre e adequada da personalidade total, mas, pela sua prpria natureza, tem uma importncia
secundria. A religio tem como base a vontade e o mesmo acontece com a retido. O nico bem que Deus
reconhece  o bem deliberado; a nica santidade vlida  a deliberada,

    O pensamento de que diante de Deus todo homem  aquilo que quer ser deve animar-nos. O primeiro
requisito na converso  a transformao da vontade. "Quem quiser", diz o Senhor e interrompe-se nesse
ponto. A fim de satisfazer as exigncias do amor para com Deus, a alma precisa apenas querer amar e o
milagre comea a florescer como a vara de Aro.

     A vontade  o piloto automtico que mantm a alma no rumo certo. "Voar  fcil" disse um amigo que
pilota seu prprio avio. "Basta coloc-lo no ar, apont-lo para a direo que deseja seguir e ligar o piloto.
Depois disso ele voa sozinho." Embora no devamos demorar-nos muito nesta idia,  todavia
abenoadamente verdadeiro que a vontade, e no os sentimentos, determina a direo moral.

    A raiz de todos os males na natureza humana  a corrupo da vontade. Os pensamentos e intenes
do corao so errados e, como conseqncia, toda a vida se torna errada. O arrependimento  em primeiro
lugar uma mudana de propsito moral, uma inverso sbita e violenta da direo seguida pela alma. O
prdigo deu o primeiro passo para sair do chiqueiro quando disse: "Levantar-me-ei e irei ter com meu pai".
Da mesma forma que um dia desejou sair da casa do pai, queria agora voltar. Sua atitude subseqente
provou sua sinceridade. Ele realmente voltou.

   Alguns podem concluir pelo que ficou dito acima que estamos querendo eliminar o jbilo do Senhor
como uma parte vlida da vida crist. A fim de evitar essa concluso errada, ofereo a seguinte explicao.

     Para amar a Deus de todo o corao devemos primeiramente querer isso.  preciso arrepender-nos de
nossa falta de amor e decidir deste momento em diante fazer de Deus o objeto de nossa devoo. Devemos
fixar nossa afeio nas coisas do alto e dirigir nossos coraes para Cristo e as coisas celestiais. Devemos
ler as Escrituras todos os dias e obedecer-lhes com esprito de orao, sempre desejando firmemente amar
a Deus de todo corao e a nosso prximo como a ns mesmos.

    Se fizermos essas coisas podemos estar certos de que experimentaremos uma transformao
maravilhosa em toda a nossa vida interior. Logo descobriremos para nossa grande alegria que nossos
sentimentos esto se tornando menos errticos e esto comeando a mover-se no sentido da deciso
tomada deliberadamente. Nossas emoes tornar-se-o disciplinadas e dirigidas. Comearemos a gozar da
"doura penetrante" do amor de Cristo.

    Nossos sentimentos religiosos se elevaro uniformemente sobre asas firmes em lugar de esvoaar por
toda parte, ociosos, sem propsito ou direo inteligente. A vida, como um delicado instrumento. ser
sintonizada para dar louvores quele que nos amou e que nos lavou de nossos pecados em seu prprio
sangue.

      Mas. em primeiro lugar devemos querer, pois a vontade  senhora do corao.


43.     A Velha e a Nova Cruz

     Sem fazer-se anunciar e quase despercebida uma nova cruz introduziu-se nos crculos evanglicos dos
tempos modernos. Ela se parece com a velha cruz, mas  diferente; as semelhanas so superficiais; as
diferenas, fundamentais.

     Uma nova filosofia brotou desta nova cruz com respeito  vida crist, e dessa nova filosofia surgiu uma
nova tcnica evanglica -- um novo tipo de reunio e uma nova espcie de pregao. Este novo
evangelismo emprega a mesma linguagem que o velho, mas o seu contedo no  o mesmo e sua nfase
difere da anterior.

     A velha cruz no fazia aliana com o mundo. Para a carne orgulhosa de Ado ela significava o fim da
jornada, executando a sentena imposta pela lei do Sinai. A nova cruz no se ope  raa humana; pelo
contrrio,  sua amiga ntima e, se compreendemos bem. considera-a uma fonte de divertimento e gozo
inocente. Ela deixa Ado viver sem qualquer interferncia. Sua motivao na vida no se modifica; ele
continua vivendo para seu prprio prazer, s que agora se deleita cm entoar coros e a assistir filmes
religiosos em lugar de cantar canes obscenas e tomar bebidas fortes. A nfase continua sendo o prazer,
embora a diverso se situe agora num plano moral mais elevado, caso no o seja intelectualmente.

    Este artigo apareceu pela primeira vez no "The Alliance Witness" em 1946. Foi impresso em
praticamente todos os pases de lngua inglesa no mundo e publicado em forma de folheto por vrios
editores, inclusive a Christian Publications. Inc. Ele aparece de vez em quando na imprensa
religiosa.

    A nova cruz encoraja uma abordagem evangelstica nova e por completo diferente. O evangelista no
exige a renncia da velha vida antes que a nova possa ser recebida. Ele no prega contrastes mas
semelhanas. Busca a chave para o interesse do pblico, mostrando que o cristianismo no faz exigncias
desagradveis; mas, pelo contrrio, oferece a mesma coisa que o mundo, somente num plano superior. O
que quer que o mundo pecador esteja idolizando no momento e mostrado como sendo exatamente aquilo
que o evangelho oferece, sendo que o produto religioso  melhor.

    A nova cruz no mata o pecador, mas d-lhe nova direo. Ela o faz engrenar num modo de vida mais
limpo e agradvel, resguardando o seu respeito prprio. Para o arrogante ela diz: "Venha e mostre-se
arrogante a favor de Cristo"; e declara ao egosta: "Venha e vanglorie-se no Senhor". Para o que busca
emoes, chama: "Venha e goze da emoo da fraternidade crist". A mensagem de Cristo  manipulada na
direo da moda corrente a fim de torn-la aceitvel ao pblico.

     A filosofia por trs disto pode ser sincera, mas sua sinceridade no impede que seja falsa.  falsa por
ser cega, interpretando erradamente todo o significado da cruz.

     A velha cruz  um smbolo da morte. Ela representa o fim repentino e violento de um ser humano. O
homem, na poca romana, que tomou a sua cruz e seguiu pela estrada j se despedira de seus amigos. Ele
no mais voltaria. Estava indo para o seu fim. A cruz no fazia acordos, no modificava nem poupava nada;
ela acabava completamente com o homem, de uma vez por todas. No tentava manter bons termos com sua
vtima. Golpeava-a cruel e duramente e quando terminava seu trabalho o homem j no existia.

    A raa de Ado est sob sentena de morte. No existe comutao de pena nem fuga. Deus no pode
aprovar qualquer dos frutos do pecado, por mais inocentes ou belos que paream aos olhos humanos. Deus
resgata o indivduo, liquidando-o e depois ressuscitando-o em novidade de vida.

     O evangelismo que traa paralelos amigveis entre os caminhos de Deus e os do homem  falso em
relao  Bblia e cruel para a alma de seus ouvintes. A f manifestada por Cristo no tem paralelo humano,
ela divide o mundo. Ao nos aproximarmos de Cristo no elevamos nossa vida a um plano mais alto; mas a
deixamos na cruz. A semente de trigo deve cair no solo e morrer.

    Ns, os que pregamos o evangelho, no devemos julgar-nos agentes ou relaes pblicas enviados para
estabelecer boa vontade entre Cristo e o mundo. No devemos imaginar que fomos comissionados para
tornar Cristo aceitvel aos homens de negcios,  imprensa, ao mundo dos esportes ou  educao
moderna. No somos diplomatas mas profetas, e nossa mensagem no  um acordo mas um ultimato.

     Deus oferece vida, embora no se trate de um aperfeioamento da velha vida. A vida por Ele oferecida
 um resultado da morte. Ela permanece sempre do outro lado da cruz. Quem quiser possu-la deve passar
pelo castigo.  preciso que repudie a si mesmo e concorde com a justa sentena de Deus contra ele.

    O que isto significa para o indivduo, o homem condenado que quer encontrar vida em Cristo Jesus?
Como esta teologia pode ser traduzida em termos de vida?  muito simples, ele deve arrepender-se e crer.
Deve esquecer-se de seus pecados e depois esquecer-se de si mesmo. Ele no deve encobrir nada, defender
nada, nem perdoar nada. No deve procurar fazer acordos com Deus, mas inclinar a cabea diante do golpe
do desagrado severo de Deus e reconhecer que merece a morte.

     Feito isto, ele deve contemplar com sincera confiana o Salvador ressurreto e receber dEle vida, novo
nascimento, purificao e poder. A cruz que terminou a vida terrena de Jesus pe agora um fim no pecador;
e o poder que levantou Cristo dentre os mortos agora o levanta para uma nova vida com Cristo.

     Para quem quer que deseje fazer objees a este conceito ou consider-lo apenas como um aspecto
estreito e particular da verdade, quero afirmar que Deus colocou o seu selo de aprovao sobre esta
mensagem desde os dias de Paulo at hoje. Quer declarado ou no nessas exatas palavras, este foi o
contedo de toda a pregao que trouxe vida e poder ao mundo atravs dos sculos, Os msticos, os
reformadores, os revivalistas, colocaram aqui a sua nfase, e sinais, prodgios e poderosas operaes do
Esprito Santo deram testemunho da aprovao divina.

     Ousaremos ns, os herdeiros de tal legado de poder, manipular a verdade? Ousaremos ns com nossos
lpis grossos apagar as linhas do desenho ou alterar o padro que nos foi mostrado no Monte? Que Deus
no permita! Vamos pregar a velha cruz e conhecermos o velho poder.


44.    Deus Deve Ser Amado por Ele Mesmo

    Sendo Deus o que Ele , precisamos busc-lo por Ele mesmo e jamais como um meio para obter uma
outra coisa.

    Quem quer que busque outros objetos e no Deus est sozinho;  possvel que venha a conseguir tais
objetos, mas jamais ter a Deus. Deus nunca  encontrado acidentalmente. "Buscar-me-eis, e me achareis.
quando me buscardes de todo o vosso corao" (Jr 29:13).

     Quem quer que busque a Deus como um meio para atingir um fim desejado, no encontrar Deus. O
Deus poderoso, o criador dos cus e da terra. no ser um dentre muitos tesouros, nem sequer e maior
deles. Ele ser tudo em todos ou nada ser. Deus no se deixa manipular. Sua misericrdia e graa so
infinitas e sua compreenso paciente  incomensurvel. mas no ajudar os homens em seu esforo egosta
para obter ganhos pessoais. No auxiliar os homens a atingir fins que. uma vez alcanados, usurpem o
lugar que por direito lhe pertence no seu interesse e afeio,

     O cristianismo popular, entretanto, d a sua maior nfase  idia de que Deus existe para ajudar as
pessoas a progredirem neste mundo. O Deus dos pobres tornou-se o Deus de uma sociedade afluente.
Cristo no mais se recusa a ser juiz ou divisor entre irmos gananciosos. Ele pode ser agora persuadido a
ajudar o irmo que o aceitou a aproveitar-se do irmo que o rejeitou.

     Um exemplo crasso do esforo moderno para manipular Deus, favorecendo propsitos egostas,  a
histria do conhecido comediante que depois de repetidos fracassos, prometeu a algum que chamava de
Deus que se o ajudasse a ter sucesso no mundo do palco ele o recompensaria contribuindo generosamente
para o cuidado das crianas enfermas. Pouco depois teve xito em vrias casas noturnas e na televiso. Ele
cumpriu a sua palavra e est levantando grandes somas em dinheiro para construir hospitais infantis.
Essas contribuies para a caridade, em sua opinio, so um preo bem pequeno a pagar pelo sucesso em
um dos campos mais difceis do empreendimento humano.

     possvel desculpar a atitude desse artista como algo a ser esperado de um pago do sculo vinte;
mas que multides de evanglicos na Amrica do Norte acreditassem realmente que Deus tivesse algo a ver
com o acontecido no pode ser to facilmente posto de lado. Esta viso diminuda e falsa da divindade 
uma das principais razes da imensa popularidade gozada por Deus hoje em dia entre os bem nutridos
ocidentais.

    O ensino bblico  que Deus  Ele mesmo o fim para o qual o homem foi criado. "Quem mais lenho eu
no cu?" clamou o salmista, "No h outro em quem eu me compraza na terra" (SI 73:25). O primeiro e
maior mandamento  amar a Deus com todas as fibras de nosso ser. Onde existe um amor assim, no pode
haver lugar para um segundo objeto. Se amarmos a Deus quanto devemos, no podemos certamente
sequer imaginar um objeto a ser amado alm dEle, que possa ajudar-nos a obter.

    Bernard de Clairvaux inicia seu pequeno e brilhante tratado sobre o amor de Deus com uma pergunta
e uma resposta. A pergunta: por que devemos amar a Deus? A resposta: porque Ele  Deus. Ele desenvolve
ainda mais a idia, mas para o corao esclarecido pouco mais precisa ser dito. Devemos amar a Deus
porque Ele  Deus, Alm disto os anjos no podem pensar.

     Sendo quem , Deus deve ser amado por Ele mesmo. Ele  a razo para que o amemos, da mesma
forma que  a razo de seu amor por ns e para todos os outros atos por Ele realizados, os que ir realizar e
est realizando, perpetuamente. O principal motivo de Deus para tudo  o seu prprio prazer. A busca de
razes secundrias  gratuita e perfeitamente intil. Ela supre os telogos de uma ocupao e acrescenta
pginas aos livros de doutrina, mas  duvidoso que apresente quaisquer explicaes vlidas.

     Est, porm, na natureza de Deus o partilhar. Seus poderosos atos de criao e redeno foram feitos
para o seu prprio prazer, mas o seu prazer se estende a todas as coisas criadas. Basta olhar para uma
criana sadia brincando ou ouvir o canto de ura pssaro no fim da tarde e saberemos que Deus quis que
seu universo fosse cheio de alegria.

    Os que foram espiritualmente capacitados a amar a Deus por Ele mesmo, iro descobrir milhares de
fontes brotando do trono cercado de arco-ris, e ofertando tesouros incontveis que devem ser recebidos
com gratido reverente como sendo o transbordar do amor de Deus por seus filhos. Cada dom  um
presente da graa que, por no ter sido buscado egoisticamente, pode ser gozado sem prejuzo para a alma.
Neles se incluem as bnos simples da vida, tais como a sade, o lar, a famlia, amigos congeniais,
alimento, abrigo, as alegrias puras da natureza ou os prazeres mais artificiais da msica e da arte.

    O esforo de encontrar esses tesouros, buscando-os diretamente, em separado de Deus, tem sido a
principal atividade humana no correr dos sculos; e este tem sido o fardo e o mal do homem. O esforo de
obt-los como o motivo oculto por trs da aceitao de Cristo pode ser algo novo sob o sol; mas novo ou
velho  um mal que s pode terminar em condenao.

    Deus quer que ns o amemos por Ele mesmo sem quaisquer razes ocultas, confiando nEle para
que seja tudo o que nossa. naturezas requerem. Nosso Senhor disse isto muito bem: "Busca pois, em
primeiro lugar, o seu reino e a sua justia, e todas estas coisas vos sero acrescentadas" (Mt 6:33).


45.    Como Provar os Espritos

     Estes so os tempos que provam a alma dos homens. O Esprito afirmou expressamente que nos
ltimos dias alguns se desviariam da f, atendendo a espritos sedutores e doutrinas de demnios; falando
mentiras com hipocrisia; tendo a conscincia cauterizada a ferro quente. Esses dias esto sobre ns e no
podemos fugir deles; devemos triunfar em meio aos homens, pois essa  a vontade de Deus para ns.

    Por estranho que parea, o perigo  maior hoje para os cristos fervorosos do que para os mornos e os
complacentes. Aquele que busca as melhores coisas de Deus est sempre disposto a ouvir quem quer que
oferea um caminho pelo qual possa alcan-las. Ele aspira por uma nova experincia, uma viso elevada
da verdade, uma operao do Esprito que o faa transcender o nvel aptico da mediocridade religiosa que
o circunda, e por esta razo est pronto a dar ateno a tudo que  novo e maravilhoso em matria de
religio, especialmente se for apresentado por algum cuja personalidade seja atraente e que possua fama
de grande santidade.

     O Senhor Jesus, esse grande Pastor das ovelhas, no deixou seu rebanho  merc dos lobos. Ele nos deu
as Escrituras, o Esprito Santo e um poder natural de observao, e espera que faamos uso constante
deles. "Julgai todas as coisas, retende o que  bom", disse Paulo (1 Ts 5:21). "Amados, no deis crdito a
qualquer esprito: antes, provai os espritos se procedem de Deus, porque muitos falsos profetas tm sado
pelo mundo afora" (I (o 4:1). "Acautelai-vos dos falsos profetas", advertiu o Senhor, "que se vos apresentam
disfarados em ovelhas, mas por dentro so lobos roubadores" (Mt 7:15). A seguir acrescentou as palavras
pelas quais eles podem ser testados: "Pelos seus frutos os conhecereis".

     Fica claro ento que no s surgiro falsos espritos, pondo em risco nossa vida crist, como tambm
eles podem ser identificados e conhecidos pelo que so. Como  natural, uma vez que saibamos a sua
identidade e conheamos as suas artimanhas, o poder de nos prejudicar fica anulado. "Pois debalde se
estende a rede  vista de qualquer ave" (Pv 1:17).

     Minha inteno  estabelecer um mtodo pelo qual possamos provar os espritos e todas as coisas
religiosas e morais que se nos apresentem ou nos sejam oferecidas por algum. Ao tratar desses assuntos,
devemos ter em mente que nem todas as fantasias religiosas so obra de Satans. A mente humana  capaz
de muitos atos nocivos sem qualquer ajuda do diabo. Alguns tm positivamente a especialidade de
confundir-se e iro tomar a iluso por realidade em plena luz, com a Bblia aberta diante deles. Pedro
pensava nisso quando escreveu: "O nosso amado irmo Paulo j falou com grande sabedoria acerca destas
mesmas coisas em muitas das suas cartas. Algumas explicaes dele no so fceis de entender, e h
pessoas intencionalmente ignorantes que sempre esto pretendendo alguma interpretao fora do comum;
eles torceram as cartas dele de todos os lados, para significarem uma coisa completamente diferente
daquilo que ele queria dizer, tal como fazem com as outras partes das Escrituras, mas o resultado  a runa
deles" {2 Pe 3:15,16 -- A Bblia Viva).

    Acho pouco provvel que os confirmados apstolos da confuso venham a ler o que est escrito aqui
ou que tirassem grande proveito caso o fizessem; mas existem muitos cristos sensatos que foram
desviados, mas mostraram suficiente humildade para admitir seus erros e esto agora prontos a voltar
para o Pastor e Bispo de suas almas. Esses podem ser resgatados dos caminhos falsos. Mais importante
ainda, existem sem dvida inmeras pessoas que no deixaram o caminho verdadeiro mas querem uma
regra mediante a qual possam provar tudo e provar a qualidade do ensino e experincia crists quando
entram em contato com elas, dia aps dia, em sua vida ocupada. Para indivduos assim vou contar um
pequeno segredo que venho usando h muitos anos para testar minhas prprias experincias espirituais e
impulsos religiosos.

      Em resumo, o teste  este: Essa nova doutrina, esse novo hbito religioso, essa nova viso da verdade
ou experincia espiritual -- de que forma afetou minha atitude com relao a Deus e minha comunho com
Ele, com Cristo, com o Esprito Santo, comigo mesmo, com outros cristos, com o mundo e o pecado? Com este
teste, composto de sete elementos, podemos testar tudo quanto pertence  religio e saber, sem sombra de
dvida, se vem ou no de Deus. Pelo fruto se conhece a rvore. Temos ento apenas de perguntar a respeito
de qualquer doutrina ou experincia: O que isto est fazendo para mim? e saberemos imediatamente se
vem do alto ou das profundezas da terra.

    1. Um teste vital de toda experincia religiosa  como ela afeta nosso relacionamento com Deus, nosso
conceito de Deus e nossa atitude para com Ele.

     Por ser quem Ele , Deus deve sempre manter-se como o juiz supremo de todos os assuntos religiosos.
O universo veio a existir como um meio atravs do qual o Criador pudesse manifestar suas perfeies a
todos os seres morais e intelectuais: "Eu sou o Senhor, este  o meu nome; a minha glria, pois, no a darei
a outrem" (Is 42:8). "Tu s digno, Senhor e Deus nosso, de receber a glria, a honra e o poder, porque todas
as coisas tu criaste, sim, por causa da tua vontade vieram a existir e foram criadas" (Ap 4:11).

    O equilbrio e a sanidade do universo exigem que Deus seja enaltecido em todas as coisas. "Grande  o
Senhor e mui digno de ser louvado; a sua grandeza  insondvel." Deus age apenas para a sua glria e tudo
o que vem dele tem como finalidade enaltec-lo. Qualquer doutrina, qualquer experincia que sirva para
exalt-lo, ter sido provavelmente inspirada por Ele. E, de modo oposto, tudo o que oculte a sua glria ou
que o faa parecer menos maravilhoso  certo que foi gerado pela carne ou pelo diabo.

     O corao do homem se assemelha a um instrumento musical e pode ser tocado pelo Esprito Santo,
por um esprito mau ou pelo esprito do prprio homem. As emoes religiosas so tambm assim, no
importa quem as manipule. Muitos sentimentos agradveis podem ser despertados na alma por uma
adorao inferior ou at mesmo idlatra A freira que se ajoelha "em adorao esttica" diante da imagem
da Virgem est tendo uma experincia religiosa genuna. Ela sente amor, temor e reverncia, emoes
essas que causam tanto prazer como se ela estivesse adorando a Deus. As experincias msticas dos hindus
e sufis no podem ser postas de lado como simples pretenses. Nem ousamos desprezar os altos vos
religiosos dos espritas e outros ocultistas como mera imaginao. Eles podem ter e algumas vezes tm
encontros reais com alguma coisa ou algum alm de si mesmos. Os cristos so tambm algumas vezes
levados a experincias emocionais que transcendem o seu poder de compreenso. Encontrei alguns que me
perguntaram ansiosos se a experincia que haviam tido vinha de Deus.

    O grande teste  este; Que influncia isto teve em minha relao com o Deus e Pai de nosso Senhor
Jesus Cristo? Se esta nova viso da verdade -- este novo encontro com coisas espirituais -- me fez amar
mais a Deus, se o exaltou a meus olhos, se purificou meu conceito de seu ser e fez com que parecesse mais
maravilhoso do que antes, posso ento concluir que no me desviei para o caminho agradvel mas perigoso
e proibido do erro.

     2. O teste que vem a seguir  este: Como esta nova experincia afetou minha atitude para com o Senhor
Jesus Cristo? Qualquer que seja a posio que a religio de hoje conceda a Cristo, Deus lhe deu o primeiro
lugar no cu e na terra. "Este e o meu Filho amado, em quem me comprazo", falou a voz de Deus do cu com
respeito ao Senhor Jesus. Pedro, cheio do Esprito Santo, declarou: "Esse mesmo Jesus, a quem crucificastes,
Deus o fez Senhor e Cristo" (Atos 2:36). Jesus disse a respeito de si mesmo: "Eu sou o caminho, e a verdade,
e a vida; ningum vem ao Pai seno por mim" (Jo 14:6). Pedro falou de novo sobre Ele: "E no h salvao
em nenhum outro; porque abaixo do cu no existe nenhum outro nome, dado entre os homens, pelo qual
importa que sejamos salvos" (At 4:12). O livro de Hebreus inteiro  dedicado  idia da superioridade de
Cristo sobre todos. Ele  mostrado como sendo superior a Aro e Moiss, e at os anjos so chamados para
prostrar-se e ador-lo. Paulo diz que Ele  a imagem do Deus invisvel, que nele habita a plenitude da
divindade corporalmente e que em todas as coisas ele deve ter a preeminncia. Eu no teria tempo
suficiente para falar sobre a glria concedida a Ele pelos profetas, patriarcas, apstolos, santos, ancios,
salmistas, reis e serafins. Ele  feito para ns sabedoria e justia, santificao e redeno. Ele  nossa
esperana, nossa vida, nosso tudo em todos, agora e para sempre.

    Tudo isto sendo verdade, fica claro que deve estar sempre no centro de toda verdadeira doutrina, toda
prtica aceitvel, toda experincia crist genuna. Tudo que faz dEle menos do que Deus declarou que Ele ,
no passa de iluso pura e simples, devendo ser rejeitado, por mais agradvel ou satisfatrio que seja
no momento.

     O cristianismo sem Cristo parece contraditrio, mas ele existe como um fenmeno real em nossos
dias. Muito do que est sendo feito em nome de Cristo  falso em relao a Ele, sendo concebido pela
carne, incorporando mtodos carnais e buscando fins carnais. Cristo  mencionado de tempos a tempos da
mesma forma e pela mesma razo que um poltico ambicioso menciona Lincoln e a bandeira do pas, a fim
de prover uma fachada santa para as atividades carnais e enganar os ouvintes ingnuos. O que denuncia a
falsidade  o fato de Cristo no ser o centro: Ele no  tudo em todos.

     Existem experincias psquicas que emocionam o recipiente e o levam a crer que teve um encontro
real com o Senhor, sendo transportado ao terceiro cu; mas a verdadeira natureza do fenmeno 
descoberta mais tarde quando a face de Cristo comea a esmaecer no consciente da vtima e ela passa a
depender mais e mais dos xtases emocionais para provar a sua espiritualidade.

     Se, por outro lado, a nova experincia tende a tornar Cristo indispensvel, se coloca em Cristo o nosso
interesse em lugar de em nossos prprios sentimentos, estamos no caminho certo. O que quer que nos faa
amar Cristo  seguro que vem de Deus.

    3. Outro teste revelador quanto  solidez da experincia religiosa : Como ela afeta minha atitude para
com as Sagradas Escrituras?

     Esta nova experincia, esta nova viso da verdade, foi gerada pela prpria Palavra de Deus ou 
resultado de algum estmulo externo, fora da Bblia? Os cristos emotivos com freqncia se tornam
vtimas de presses psicolgicas fortes aplicadas proposital ou inocentemente por meio de um testemunho
pessoal ou por uma histria pitoresca contada por um pregador fervoroso que talvez pregue com
determinao proftica mas que no verificou a mesma em relao aos fatos nem testou a solidez de suas
concluses com a Palavra de Deus.

     O que quer que tenha origem fora das Escrituras deve ficar sob suspeita at que venha a mostrar-se de
acordo com elas. Se for descoberto que contraria a Palavra da verdade revelada, nenhum cristo sincero ir
aceit-lo como proveniente de Deus. Por mais alto que seja o contedo emocional, nenhuma experincia
pode ser provada como autentica a no ser que se encontre autoridade para ela nas Escrituras.  "palavra e
ao testemunho" deve caber sempre a prova final.

    Tudo o que seja novo ou singular deve tambm ser observado com precauo at que possa oferecer
prova escriturstica de sua validade. Neste ltimo meio sculo vrias noes no-escritursticas tm sido
aceitas pelos cristos, alegando achar-se entre as verdades que deveriam ser reveladas nos ltimos dias.
 certo, afirmam os defensores desta teoria dos ltimos dias, que Agostinho no sabia, nem Lutero, John
Knox, Wesley, Finney e Spurgeon no compreendiam isso; mas uma luz mais brilhante desceu sobre o povo
de Deus e ns, que vivemos nestes ltimos dias, temos a vantagem de uma revelao maior. No devemos
questionar a nova doutrina nem fugir desta experincia mais avanada. O Senhor est preparando sua
Noiva para a ceia das bodas do Senhor. Devemos todos ceder a este novo movimento do Esprito.  o que
nos dizem.

    A verdade  que a Bblia no ensina que haver uma nova luz e experincias espirituais mais
avanadas nos ltimos dias; ela ensina justamente o oposto. Nada em Daniel ou no Novo Testamento pode
ser manipulado a fim de defender a idia de que ns, que vivemos no final da era crist, iremos receber luz
que no foi conhecida no incio. Suspeite de todo homem que alegue ser mais sbio do que os apstolos ou
mais santo do que os mrtires da primeira igreja. A melhor maneira de lidar com ele  levantar-se e sair da
sua presena. Voc no pode ajud-lo e ele com certeza tambm no ajudar voc.

     Concedido, porm, que as Escrituras nem sempre sejam claras e que existem diferenas de
interpretao entre homens igualmente sinceros, este teste ir fornecer toda a prova necessria com
relao a qualquer assunto de religio, a saber: Como ele afeta o meu amor e apreciao pelas Escrituras?

     Embora o verdadeiro poder no esteja na letra do texto mas no Esprito que o inspirou, jamais
devemos subestimar o valor da letra. O texto da verdade tem a mesma relao com esta que o favo tem com
o mel. Um serve de receptculo para o outro. Mas a analogia termina a. O mel pode ser removido do favo,
mas o Esprito da verdade no opera em separado da letra das Sagradas Escrituras. Por esta razo, uma
familiaridade crescente com o Esprito Santo sempre significa um maior amor pela Bblia. As Escrituras so
na forma impressa aquilo que Cristo  em pessoa. A Palavra inspirada se assemelha a um retrato fiel de
Cristo. Mas de novo o smbolo no  perfeito, pois Cristo est na Bblia como ningum pode estar num
simples retrato, j que a Bblia  um livro de idias santas e a Palavra eterna do Pai pode habitar e habita no
pensamento por Ele mesmo inspirado. Os pensamentos so coisas, e os pensamentos das Sagradas
Escrituras formam um templo grandioso para a habitao de Deus.

     Segue-se ento naturalmente que aquele que ama de fato a Deus amar tambm sua Palavra. Tudo
o que venha a ns por parte do Deus da Palavra ir aprofundar nosso amor pela Palavra de Deus. Esta 
uma seqncia lgica, mas temos a confirmao de uma testemunha muito mais digna de confiana do que
a lgica, a saber, o testemunho combinado de um grande exrcito de testemunhas, vivas e mortas. Elas
declaram a uma voz que seu amor pelas Escrituras intensificou-se  medida que cresceu a sua f e sua
obedincia tornou-se consistente e jubilosa.

    Caso a nova doutrina, a influncia desse novo professor, a nova experincia emocional, venham a
encher meu corao de vontade de meditar sobre as Escrituras dia e noite, tenho toda razo para crer que
Deus falou  minha alma e que minha experincia  genuna. De modo contrrio, se meu amor pelas
Escrituras esfriou um pouco, se minha ansiedade em comer e beber da Palavra inspirada abateu-se mesmo
numa escala mnima, devo humildemente admitir que deixei de ver o sinal de Deus em algum ponto e
voltar atrs imediatamente at encontrar de novo o verdadeiro caminho.

    4. Posso tambm provar a qualidade da experincia religiosa pelo seu efeito sobre a vida do "eu".

     O Esprito Santo e o "eu" humano decado so diametralmente opostos, '"Porque a carne milha contra
o Esprito, e o Esprito contra a carne, porque so opostos entre si; para que no faais o que porventura
seja do vosso querer" (Gl 5:17). "Porque os que se inclinam para a carne cogitam das coisas da carne; mas
os que se inclinam para o Esprito, das coisas do Esprito. . . Por isso o pendor da carne  inimizade contra
Deus, pois no est sujeito  lei de Deus, nem mesmo pode estar" (Rm 8:5,7).

     Antes que o Esprito de Deus possa operar criativamente em nosso corao, Ele precisa condenar e
matar a "carne" que existe em ns; isto , precisa ter nosso pleno consentimento para substituir nosso "eu"
natural pela Pessoa de Cristo. Esta substituio  cuidadosamente explicada em Romanos 6, 7 e 8. Quando o
cristo sincero passa pela experincia da crucificao descrita nos captulos 6 e 7, ele  introduzido nas
regies mais amplas e livres do captulo 8, e nelas o "eu"  destronado e Cristo entronizado para sempre.

    Sob esta luz, no  difcil ver por que o comportamento do cristo em relao ao "eu"  um teste
excelente da validade de suas experincias religiosas. A maioria dos grandes mestres da vida interior, tais
como Fenelon, Molinos, Joo da Cruz, Madame Guyon e muitos outros, advertiram contra as experincias
pseudo-religiosas que suprem gozo carnal mas alimentam a carne e enchem o corao de amor prprio.

     Uma boa regra  a seguinte: se esta experincia serviu para humilhar-me e me tornar pequeno e vil a
meus prprios olhos, vem de Deus; mas se me proporcionou um sentimento de gratificao,  falsa e deve
ser abandonada como emanando do "eu" ou do diabo. Nada que venha da parte de Deus ir aumentar meu
orgulho ou auto-satisfao. Se me vejo tentado a ser complacente e a sentir-me superior por ter tido uma
viso notvel ou uma experincia espiritual avanada, devo ajoelhar-me imediatamente e arrepender-me
de tudo o que aconteceu. Ca vtima do inimigo.

    5. Nossa relao e nossa atitude com nossos irmos cristos  outro teste definitivo de nossa
experincia religiosa.

     O cristo sincero, depois de um notvel encontro espiritual, pode s vezes afastar-se de seus irmos na
f e desenvolver um esprito crtico. Ele pode estar sinceramente convencido de que sua experincia 
superior -- que se acha agora num estado avanado de graa, e que os membros de sua igreja no passam
de uma multido mista sendo ele o nico e legtimo filho de Israel. Ele pode esforar-se para mostrar
pacincia com esses indivduos mundanos, mas sua linguagem suave e sorriso de condescendncia revelam
sua verdadeira opinio sobre eles -- e sobre si mesmo. Este estado de mente  perigoso, e tanto mais
perigoso porque pode justificar-se atravs de fatos. O irmo teve uma experincia notvel; ele recebeu
orientao maravilhosa sobre as Escrituras; ele entrou numa terra esplndida que lhe era desconhecida
antes. Pode ser tambm facilmente verdade que os cristos professos de suas relaes sejam mundanos.
apticos, sem qualquer entusiasmo espiritual. Ele est enganado, mas no so os seus fatos que provam
isso, mas a sua reao aos fatos  carnal. Sua nova espiritualidade o tornou menos caridoso.

     Lady Juliana nos conta em seu ingls castio como a verdadeira graa crist influi em nossa atitude
para com nossos semelhantes: "Pois, acima de tudo, a contemplao e o amor do Criador diminuem a alma
a seus prprios olhos, e a enchem de temor reverente e sincera humildade; manifestando abundncia de
sentimentos caridosos em relao aos irmos em Cristo". Qualquer experincia religiosa que deixe de
aprofundar nosso amor pelos cristos pode ser com certeza descartada como falsa.

    O apstolo Joo faz do amor por nossos companheiros cristos um teste da verdadeira f. "Filhinhos,
no amemos de palavra, nem de lngua, mas de fato e de verdade. E nisto conheceremos que somos da
verdade, bem como, perante ele, tranqilizaremos o nosso corao" (Jo 3:18,19). E de novo repete:
"Amados, amemo-nos uns aos outros, porque o amor procede de Deus; e todo aquele que ama  nascido
de Deus, e conhece a Deus. Aquele que no ama no conhece a Deus, pois Deus  amor" (1 Jo 4:7,8).

     medida que crescemos na graa crescemos em amor para com o povo de Deus. "Todo aquele que
ama ao que o gerou, tambm ama ao que dele  nascido" (1 )o 5:1). Isto significa simplesmente que se
amarmos a Deus iremos amar tambm a seus filhos. Toda verdadeira experincia crist ir aprofundar
nosso amor pelos demais cristos.
     Devemos ento concluir que tudo o que nos separa pessoalmente, ou no corao, de nossos irmos em
Cristo, no vem de Deus, mas pertence  carne ou ao diabo. E, de maneira oposta, tudo o que nos leva a
amar os filhos de Deus vem provavelmente de Deus. "Nisto conhecero todos que sois meus discpulos, se
tiverdes amor uns aos outros" (Jo 13:35).

    6. Este  um outro teste seguro da fonte de nossa experincia religiosa: Note como ela afeta a nossa
relao e nossa atitude para com o mundo.

    Por "mundo" no estou indicando, naturalmente, a maravilhosa ordem da natureza criada por Deus
para gozo da humanidade. Nem me refiro ao mundo dos homens perdidos no sentido usado pelo Senhor
quando disse; "Porque Deus amou ao mundo de tal maneira que deu o seu Filho unignito, para que todo o
que nele cr no perea, mas tenha a vida eterna. Porquanto Deus enviou o seu Filho ao mundo, no para
que julgasse o mundo, mas para que o mundo fosse salvo por ele" (Jo 3:16,17). Todo e qualquer toque de
Deus na alma ir com certeza aprofundar nossa apreciao das belezas da natureza e intensificar nosso
amor pelos perdidos. Refiro-me aqui a uma coisa por completo diferente.

    Vejamos isso nas palavras de um apstolo: "Porque tudo que h no mundo, a concupiscncia da carne,
a concupiscncia dos olhos e a soberba da vida, no procede do Pai, mas procede do mundo. Ora, o mundo
passa, bem como a sua concupiscncia; aquele, porm, que faz a vontade de Deus permanece eternamente"
(1 Jo 2:16,17).

    Este  o mundo pelo qual podemos testar os espritos.  o mundo do gozo carnal, dos prazeres mpios,
da busca dos bens e da fama desta terra, e da felicidade pecaminosa. Ele segue seu curso sem Cristo,
seguindo o conselho dos perversos e sendo animado pelo prncipe das potestades do ar, o esprito que
opera nos filhos da desobedincia (Ef 2:2). Sua religio  uma forma de divindade. sem poder, que tem
fama de estar viva, mas est morta. Trata-se, em resumo, da sociedade humana no-regenerada seguindo
alegre a caminho do inferno, o exato oposto da verdadeira Igreja de Deus, que  uma sociedade de almas
regeneradas, caminhando com sobriedade e jbilo para o cu que as espera.

    Qualquer operao real de Deus em nosso corao tender a nos separar da companhia do mundo.
"No ameis o mundo nem as coisas que h no mundo. Se algum amar o mundo, o amor do Pai no est
nele" (1Jo 2:15). "No vos ponhais em jugo desigual com os incrdulos; porquanto, que sociedade pode
haver entre a justia e a iniqidade? ou que comunho da luz com as trevas?" (2 Co 6:14). Podemos afirmar
sem qualquer dvida que todo esprito que permite condescendncia com o mundo  um falso esprito.
Qualquer movimento religioso que imite o mundo em qualquer de suas manifestaes  falso em relao 
cruz de Cristo, encontrando-se ao lado do demnio -- e isto sem considerar os esforos de seus lderes em
convencer voc de "aceitar Cristo" ou "deixar que Deus governe sua vida".

    7. O ltimo teste da autenticidade da experincia crist  o que ela faz com relao  nossa atitude
para com o pecado.

    A operao da graa no interior do corao do indivduo crente ir afastar esse corao do pecado e
orient-lo em direo  santidade. "Porque o dom gratuito da salvao eterna agora est sendo oferecido a
todos; e juntamente com este dom, vem a compreenso de que Deus quer que nos voltemos da vida mpia e
dos prazeres pecaminosos para uma vida correta no temor de Deus, dia a dia, aguardando ansiosamente
aquele tempo quando se ver a sua glria -- a glria do nosso grande Deus e Salvador Jesus Cristo" (Tito
2:11-13).

    No vejo como isso possa ser mais claro. A mesma graa que salva, ensina; e seu ensinamento e tanto
positivo como negativo. De modo negativo ela ensina-nos a negar a impiedade e os desejos mundanos.
Positivamente, nos ensina a viver sensata, justa e piedosamente neste mundo.

     O homem sincero no encontrar dificuldade nisto. Ele precisa apenas verificar suas prprias
inclinaes a fim de saber se est preocupado em grau maior ou menor quanto ao pecado cm sua vida
desde que a suposta obra de graa foi realizada. Qualquer coisa que enfraquea seu dio pelo pecado pode
ser imediatamente identificado como falso para com as Escrituras, o Salvador e sua prpria alma. O que
quer que torne a santidade mais atraente e o pecado mais intolervel pode ser aceito como genuno. "Pois
tu no s Deus que se agrade com a iniqidade, e contigo no subsiste o mal. Os arrogantes no
permanecero  tua vista; aborreces a Todos os que praticam iniqidade" (Sl 5:4.5).

    Jesus advertiu, "porque surgiro falsos cristos e falsos profetas operando grandes sinais e prodgios
para enganar, se possvel, os prprios eleitos'' (Mt 24:24). Essas palavras descrevem perfeitamente a
nossa poca para no passarem de simples coincidncia. Na esperana de que os "eleitos" possam tira r
proveito delas estabeleci esses testes. O resultado est nas mos de Deus.


46.    Algumas Idias sobre os Livros e a Leitura

    Um dos grandes problemas em muitas partes do mundo contemporneo  aprender a ler, e em outras
 descobrir o que ler depois de ter aprendido. Em nosso ocidente favorecido somos esmagados sob o peso
do material impresso, e o problema para ns se torna ento o da escolha do que ler. Devemos tambm
decidir o que no ler.

     H quase um sculo, Emerson declarou que se o homem pudesse comear a ler no dia em que nasce e
continuasse lendo sem interrupo durante setenta anos, no final desse perodo teria lido um nmero de
livros suficiente apenas para preencher um pequeno nicho na Biblioteca Britnica. A vida  to curta e os
livros de que podemos dispor so tantos que ningum pode vir a conhecer mais que uma frao de um por
cento dos livros publicados.

    No  preciso dizer que a maioria de ns no sabe escolher o material de leitura. Fico s vezes
imaginando quantos metros quadrados de material impresso passa  frente dos olhos do homem civilizado
comum no espao de um ano, Com certeza chega a muitos acres, e temo que nosso leitor mediano no colha
uma grande colheita de seus acres. O melhor conselho que ouvi neste sentido foi dado por um ministro
metodista: "Leia sempre o seu jornal de p". Henry David Thoreau tambm tinha um baixo conceito
da imprensa diria. Pouco antes de deixar a cidade para a sua agora famosa permanncia s margens do
Lago Walden, um amigo lhe perguntou se gostaria que o jornal fosse entregue em sua casa de campo.
"No", replicou Thoreau, "j vi um jornal".

     Em nossa leitura sria somos provavelmente bastante influenciados pela idia de que o principal valor
de um livro  informar; e se estivermos falando de livros didticos, ento isso ser naturalmente verdade,
mas quando nos referimos a livros, seja em converse ou por escrito, no temos em mente esse tipo de
leitura,

     O melhor livro no  aquele que simplesmente informa, mas o que estimula o leitor a informar-se. O
melhor escritor  o que nos acompanha atravs do mundo das idias como um guia amigo que anda a nosso
lado pela floresta indicando-nos uma centena de prodgios naturais que no tnhamos notado antes.
Aprendemos ento com ele a ver por ns mesmos e logo no mais necessitamos de um guia. Se ele tiver
feito bem o seu trabalho, podemos continuar sozinhos sem perder quase nada de interessante no caminho.

     O autor que nos ajuda mais  aquele que traz  nossa ateno pensamentos que esto pairando em
nossa mente,  espera de serem reconhecidos como nossos. Tal pessoa faz o papel de uma parteira,
assistindo ao nascimento das idias que se achavam em gestao h muito tempo em nossa alma, mas que
sem esse auxlio talvez no viessem a nascer jamais.

    So poucas as emoes que nos satisfazem tanto quanto a alegria proveniente do ato de
reconhecimento, quando vemos e identificamos os nossos prprios pensamentos. Todos tivemos mestres
que procuraram educar-nos introduzindo idias estranhas em nossa mente, idias com as quais no
sentamos qualquer afinidade espiritual ou intelectual. Tentamos integrar essas noes no conjunto de
nossa filosofia espiritual, mas sempre sem qualquer resultado.

    Num sentido muito real homem algum pode ensinar outro; mas apenas ajud-lo a ensinar-se a si
mesmo. Os fatos podem ser transferidos de uma para outra mente, da mesma forma que uma cpia  feita
passando o contedo da fita original para um gravador. Histria, cincia e at mesmo teologia podem ser
ensinadas desta forma, mas isso resulta num tipo de aprendizado bastante artificial e raras vezes influencia
positivamente a vida do aluno num sentido mais profundo. O que o aprendiz contribui para o processo de
aprendizado  to importante quanto tudo que o professor possa contribuir. Se o aluno no participar com
nada os resultados sero nulos; o mais que se pode esperar  a criao artificial de um outro professor,
imitao do primeiro, que ir repetir em mais algum o mesmo processo fatigante, ad infinitum.

     A percepo das idias em lugar da estocagem das mesmas deve ser o alvo da educao. A mente deve
ser um olho que v em lugar de um recipiente ou depsito de fatos. O homem ensinado pelo Esprito Santo
ser melhor classificado como um vidente do que como um erudito. A diferena est em que o erudito v e
o vidente v atravs, sendo essa com efeito uma enorme diferena.

     O intelecto humano, mesmo em sua condio decada,  uma obra respeitvel de Deus, mas permanece
nas trevas at que seja iluminado pelo Esprito Santo. O Senhor pouco tem a dizer de bom da mente no-
iluminada, mas se compraz naquela que foi renovada e esclarecida pela graa. Ele sempre torna glorioso o
lugar onde pousa os ps; dificilmente se encontra nesta terra algo to belo quanto a mente cheia do
Esprito, e certamente nada existe de mais maravilhoso do que a mente alerta e entusiasta tornada
incandescente pela presena do Cristo interior.

     Desde que aquilo que lemos entra na alma de maneira concreta,  de vital importncia que leiamos o
que e melhor e nada seno o melhor. Acho que os cristos estavam mais seguros quando no havia tanta
coisa para ser lida. Precisamos hoje disciplinar com severidade nossos hbitos de leitura. Todo cristo deve
conhecer bem a Bblia ou, pelo menos, passar horas, dias e anos tentando isso. Ele deve sempre ler a sua
Bblia, como disse George Muller: "com meditao, reflexo".

    Depois da Bblia o livro mais valioso para o cristo  o hinrio. O jovem cristo que passar um ano
meditando com esprito de orao sobre os hinos de Watts e Wesley j ter possibilidade de tornar-se um
excelente telogo. Depois disso, deve alimentar-se com uma dieta equilibrada dos cristos puritanos
msticos. Os resultados sero muito melhores do que poderia ter sonhado.


47.    Os Santos Devem Andar a Ss

    A maioria das grandes almas deste mundo foram almas solitrias. A solido parece ser o preo que o
santo deve pagar pela sua santidade.

    Na manh do mundo (ou talvez devssemos dizer, naquela estranha escurido que surgiu logo aps a
alvorada da criao do homem), aquela alma piedosa, Enoque, andou com Deus e j no era, porque Deus a
tomou; e embora no seja dito exatamente nessas palavras, pode-se muito bem inferir que Enoque seguiu
por um caminho bem diferente daquele de seus contemporneos.

    Abrao tinha Sara e L, assim como muitos servos e pastores, mas quem pode ler a sua histria e o
comentrio apostlico sobre ela sem sentir imediatamente ser ele um homem "cuja alma se assemelhava a
uma estrela e habitava na solido"? Ao que sabemos, Deus jamais se dirigiu a ele quando acompanhado por
outras pessoas. Abrao se comunicava diante do seu Deus, e a dignidade inata do homem proibia que
assumisse esta postura na presena de outros.

    Como foi doce e solene a cena naquela noite do sacrifcio quando ele viu o fogo movendo-se entre os
pedaos da oferta. Ali, sozinho com o horror da grande escurido  sua volta, ele ouviu a voz de Deus e
soube que tinha sido marcado com o favor divino.

   Este captulo foi originalmente escrito para a revista "Eternity," sendo usado aqui com a
permisso da mesma.

    Moiss foi tambm um homem separado. Embora ainda tivesse ligao com a corte do Fara, ele fazia
grandes caminhadas sozinho. Durante um desses passeios, enquanto estava ainda longe da multido, ele
viu um egpcio e um hebreu brigando e foi em auxlio de seu conterrneo. Depois do rompimento com o
Egito, que resultou desse ato, ele habitou em quase completa recluso no deserto. Ali, enquanto vigiava
sozinho seu rebanho, o prodgio da sara ardente surgiu diante dele e mais tarde, no alto do Sinai, ficou
abaixado, sozinho, para contemplar em fascinado terror a Presena, parcialmente oculta, parcialmente
revelada, dentro da nuvem e do fogo.

   Os profetas das eras pr-crists eram muito diferentes uns dos outros, mas uma coisa que tiveram em
comum foi a sua solido forada. Eles amavam seu povo e se gloriavam na religio dos pais mas sua
lealdade ao Deus de Abrao, Isaque e Jac, e seu zelo pelo bem-estar da nao de Israel os afastou da
multido, lanando-os em longos perodos de isolamento. "Tornei-me estranho a meus irmos, e
desconhecido aos filhos de minha me" (Sl 69:8), clamou um deles e sem saber falou por todos os demais.

     A viso mais reveladora foi a dAquele de quem Moiss e todos os profetas escreveram, seguindo
solitrio para a cruz. Sua profunda solido no foi mitigada pela presena das multides.
 meia-noite e no alto do monte das Oliveiras As estrelas que brilhavam esmaeceram;  meia-noite agora
no jardim, O Salvador que sofre ora sozinho.
 meia-noite e afastado de todos, O Salvador luta s com seus temores; Nem mesmo o discpulo a quem
amava, Observa o sofrimento e as lgrimas do Mestre.
William B. Tappan

     Ele morreu s na escurido, oculto aos olhos do homem mortal e ningum observou quando ressurgiu
triunfante, deixando a sepultura, embora muitos o vissem mais tarde e testemunhassem quanto ao que
viram. Existem coisas sagradas demais para qualquer olho observar alm do de Deus. A curiosidade, o
clamor, o esforo bem-intencionado mas sem jeito, podem prejudicar cm vez de ajudar a alma que
espera e tornar improvvel seno impossvel a comunicao da mensagem secreta de Deus ao corao do
adorador.

     Algumas vezes reagimos com uma espcie de reflexo religioso e repetimos obrigatoriamente palavras
e frases adequadas, embora elas no expressem nossos sentimentos reais e lhes falte a autenticidade da
experincia pessoal. Isso est acontecendo agora. Uma certa lealdade convencional pode fazer algum que
oua esta verdade pouco familiar expressa pela primeira vez dizer com animao: "Oh, nunca me sinto
sozinho. Cristo afirmou 'No te deixarei nem te desampararei', e 'Estarei contigo para sempre'. Como posso
sentir-me solitrio quando Jesus est comigo?"

    No quero julgar a sinceridade de qualquer alma crist, mas este testemunho  demasiado tpico para
ser real. Trata-se evidentemente do que o indivduo pensa que deveria ser verdadeiro em lugar do que
provou ser verdade mediante o teste da experincia. Esta alegre negativa da solido prova apenas que a
pessoa jamais andou com Deus sem o apoio e nimo supridos pela sociedade. A sensao de
companheirismo que ele erradamente atribui  presena de Cristo pode ter origem, e provavelmente tem,
na presena de amigos. Lembre-se sempre: voc no pode levar a cruz acompanhado. Embora o homem
possa estar cercado por uma imensa multido, a sua cruz lhe pertence e o fato de carreg-la faz dele um
ente  parte. A sociedade se voltou contra ele, caso contrrio no teria uma cruz. Ningum mostra amizade
pelo homem com uma cruz. "Todos deixando-o. fugiram."

    A dor da solido est ligada  constituio de nossa natureza. Deus nos fez uns para os outros. O desejo
de companhia  completamente natural e certo. A solido do crente nasce do seu andar com Deus num
mundo mpio, um caminhar que freqentemente o afasta da companhia de bons cristos assim como do
mundo no-regenerado. O instinto que lhe foi concedido por Deus clama por manter amizade com outros
que se identifiquem com ele, outros que possam compreender seus anseios, suas aspiraes, sua absoro
no amor de Cristo; e pelo fato de no seu crculo de amigos serem to poucos os que partilham de suas
experincias ntimas, ele  forado a andar sozinho. O anseio insatisfatrio dos profetas pela compreenso
humana levou-os a queixar-se em voz alta e chorar, e at o Senhor tambm sofreu assim.

     O homem que entrou na presena divina numa experincia interior real no encontrar muitos que o
compreendam. Uma certa fraternidade social lhe ser naturalmente oferecida enquanto se mistura com
pessoas religiosas nas atividades regulares da igreja, mas verdadeiro companheirismo espiritual vai ser
difcil de achar, embora no deva esperar outra coisa. Afinal de contas, ele  um peregrino e a jornada
empreendida no  feita com os ps, mas com o corao. Ele anda com Deus no jardim de sua prpria alma
-- e quem seno Deus pode andar ali com ele? O seu esprito difere do das multides que caminham pelos
ptios da casa do Senhor. Ele viu aquilo que elas s tiveram oportunidade de ouvir, e anda em seu meio
como Zacarias andou depois de sua volta do altar quando o povo sussurrou: "Teve uma viso".

    O indivduo verdadeiramente espiritual  de fato extravagante. No vive para si mesmo mas para
promover os interesses de Outro. Ele procura persuadir as pessoas a darem tudo de si ao Senhor e no
pede qualquer poro para si mesmo. Compraz-se em ver seu Salvador glorificado aos olhos dos homens, e
no em receber honras pessoais. Sua alegria  ver seu Senhor promovido e ele prprio negligenciado. So
poucos os que desejam trocar idias com ele sobre o objeto supremo do seu interesse, e fica ento no geral
silencioso e preocupado em meio s conversas religiosas barulhentas e triviais. Ganha assim a reputao de
ser aborrecido e srio em excesso, sendo evitado e alargando cada vez mais o abismo entre ele e a
sociedade. Busca amigos em cujas vestes pode sentir o aroma da mirra e do alos sados de palcios de
marfim, mas encontrando poucos ou nenhum, como Maria fez antigamente, guarda essas coisas em seu
corao.

     Justamente essa solido o faz lanar-se de volta a Deus. "Quando meu pai e minha me me
abandonarem, ento o Senhor me tomar para si." Sua incapacidade de encontrar companhia humana o
leva a buscar em Deus o que no descobre em lugar algum. Aprende em solido interior o que jamais
poderia ter aprendido junto  multido -- que Cristo  Tudo em Todos, que Ele foi feito para ns sabedoria,
retido, santificao e redeno, que nEle temos e possumos o summum bonum da vida.

     Duas coisas precisam ainda ser ditas. A primeira  que o homem solitrio que mencionamos no e
arrogante, nem  o tipo "mais santo do que tu" amargamente satirizado na literatura popular. Com toda
probabilidade sente-se o mais insignificante de todos os homens e culpa-se a si mesmo de sua solido. Quer
partilhar seus sentimentos com outros e abrir o corao a algum cuja alma se identifique com a sua, mas o
clima espiritual que o rodeia no o anima e permanece ento em silncio, contando suas mgoas somente a
Deus.

     A segunda coisa  que o santo solitrio no  o homem arredio que endurece o corao contra o
sofrimento humano e passa os dias contemplando os cus. O oposto  verdade. Sua solido o faz acolher
com simpatia os que tm o corao partido, os que caram pelo caminho e os que foram manchados pelo
pecado. Por achar-se desligado do mundo, tem muito maior capacidade para ajud-lo. Meister Eckhart
ensinou seus seguidores que se estivessem orando como para serem transportados para o terceiro cu e
acontecesse lembrarem de uma pobre viva que precisava de alimento, deviam interromper
imediatamente a orao e ir cuidar da viva. "O Senhor no permitir que percam nada com isso", disse-
lhes. "Podem retomar a orao no ponto em que a deixaram e o Senhor ir aceit-la da mesma forma". Isto
 tpico dos grandes msticos e mestres da vida interior, desde Paulo at hoje.

    A fraqueza de tantos cristos modernos  que eles se sentem  vontade no mundo. Km seu esforo para
conseguir um "ajuste" agradvel  sociedade no-regenerada, eles perderam seu carter de peregrinos e se
tornaram uma parte da prpria ordem moral contra a qual foram enviados para protestar. O mundo os
reconhece e os aceita pelo que so. E esta  justamente a coisa mais triste que pode ser dita a seu respeito.
No so solitrios, mas tambm no so santos.
# Excerto Extrado de Como Encher-se com o Esprito
Santo
48.    Como Encher-se com o Esprito Santo

     Antes de tratarmos da questo de como encher-se com o Esprito Santo, existem alguns assuntos que
precisam ser estabelecidos. Como crentes, precisamos tir-los do caminho e  ento que surgem as
dificuldades. Tenho medo que meus ouvintes tenham de alguma forma concebido a idia de que eu
conheo uma doutrina sobre como encher-se com o Esprito em cinco lies fceis, que poderia transmitir a
voc. Se voc tem qualquer noo nesse sentido, s posso dizer-lhe que "sinto muito", pois no  verdade.
No posso ensinar-lhe esse curso. O que eu digo  que existem certas coisas que precisamos determinar.
Uma delas e esta: Antes de ser enchido com o Esprito Santo voc deve estar certo de que pode ser enchido.

     Satans tem objetado a doutrina da vida cheia do Esprito mais do que qualquer outra. Ele procurou
confundi-la, cerc-la de falsos conceitos e temores e ops-se a ela. bloqueando todo esforo da Igreja de
Cristo para receber do Pai seu patrimnio divino e comprado com sangue. A igreja negligenciou
tragicamente esta grande verdade libertadora -- que o filho de Deus pode ser agora ungido com o Esprito
Santo de maneira plena, maravilhosa e completamente satisfatria,

    Voc deve ento certificar-se de que pode receber esse dom. Deve estar certo de que essa  a vontade
de Deus para a sua pessoa; isto , que o mesmo faz parte do plano total, que est includo e envolvido na
obra de Cristo na redeno; que ele foi, como diziam os antigos, "comprado pelo seu sangue".

    Eu quero fazer uma pausa aqui e dizer que vou referir-me no decorrer deste captulo tanto ao dom,
como ao Esprito Santo em si, e para diferenciar, sempre que me referir ao Esprito usarei maisculas no
pronome pessoal, pois o Esprito  uma pessoa.

    A vida cheia do Esprito no  uma edio especial, de luxo, do cristianismo. Ela faz parte do plano total
de Deus para o seu povo.

     Fique satisfeito por ela no ser anormal. Admito que no seja comum, pelo fato de haverem to poucos
que andam  luz da mesma ou gozam dela, mas no  um fenmeno. Num mundo em que todos estivessem
doentes a sade seria incomum, mas no anormal. Isto  pouco comum porque nossas vidas acham-se
terrivelmente enfermas e muito aqum de onde deveriam estar.

     Voc deve ficar tambm feliz porque no existe nada esquisito, estranho ou misterioso a respeito do
Esprito Santo. Acredito ter sido obra do demnio cercar a pessoa do Esprito Santo com um halo de
estranheza ou esquisitice, de maneira que o povo de Deus sente que esta vida cheia do Esprito e estranha e
peculiar, um tanto sinistra.

    Nada disso  verdade, meu amigo. Foi o diabo que fabricou essas histrias. Foi ele que as inventou, o
mesmo diabo que uma vez falou  nossa primeira me: " assim que Deus disse?" e assim difamou o Deus
Todo-poderoso. Esse mesmo diabo caluniou o Esprito Santo. Nada existe de misterioso, nada de estranho,
nada contrrio s operaes normais do corao humano sobre o Esprito Santo. Ele  apenas a essncia de
Jesus transmitida aos crentes. Quando l os quatro evangelhos voc tem oportunidade de ver como Jesus
era maravilhosamente calmo, puro, sadio, simples, doce, natural e digno de amor. At mesmo os filsofos
que no crem na sua divindade tm de admitir que seu carter era admirvel.

    Voc deve estar certo disto tudo at o ponto de convico. Isto , precisa estar convencido a ponto de
no tentar persuadir a Deus.

    Voc no precisa fazer isso de modo algum. No h necessidade de persuaso. O Dr. Simpson
costumava dizer: "Ficar cheio do Esprito  to fcil quanto respirar; basta inspirar e respirar". Ele escreveu
um hino nesse sentido. Sinto que o hino no seja muito bom, mas a teologia  excelente.

    A no ser que tenha alcanado esse ponto em seu modo de pensar, meditar e orar, sabendo que a vida
cheia do Esprito foi feita para voc, que no h dvida a respeito -- que nenhum livro que tenha lido,
sermo que tenha ouvido, ou tratado que algum lhe enviou o est perturbando; voc se sente tranqilo a
respeito disso tudo; est convencido de que no sangue de Jesus, quando ele morreu na cruz, achava-se
includo, como parte da compra feita com esse sangue, o seu direito a uma vida plena, cheia do Esprito -- a
no ser que se ache convencido disso, a no ser que esteja certo de que no se trata de um acrscimo extra,
um item de luxo que voc precisa pedir a Deus, suplicando e batendo com os punhos na cadeira para obter,
recomendo-lhe o seguinte: no faa nada a respeito a no ser meditar sobre as Escrituras relativas a esta
verdade. Leia a Palavra de Deus e aquelas partes que tratam do assunto em discusso, meditando sobre ele,
pois "a f vem pelo ouvir esta Boa Nova -- a Boa Nova a respeito de Cristo". A verdadeira f no surge
atravs dos sermes, mas da Palavra de Deus, e dos sermes somente no sentido de que so da Palavra de
Deus. Recomendo calma e confiana. No se excite, no desanime. A hora mais sombria  justamente aquela
que antecede a madrugada.  possvel que esse perodo de desnimo pelo qual voc est passando seja
preliminar ao romper de um novo e belo estilo de vida, se continuar caminhando tara conhecer o Senhor.

     Lembre-se, o medo pertence  carne e o pnico ao diabo. Jamais tema nem entre em pnico. Quando as
pessoas se aproximavam de Jesus s os hipcritas tinham razo para tem-lo. Quando um hipcrita
procurava Jesus, Ele simplesmente o cortava em pedaos e o despedia sangrando por todos os poros. Se
estavam dispostos a abandonar seus pecados e seguir o Senhor, aproximando-se com sinceridade e
dizendo: "Senhor, que devo fazer?", o Senhor lhes dava todo o seu tempo, conversando com eles e
explicando, a fim de corrigir quaisquer impresses falsas ou idias erradas que tivessem. Ele  o Mestre
mais doce, mais compreensivo e maravilhoso do mundo, e nunca pe ningum em pnico. S o pecado faz
isso. Se houver um senso de pnico em sua vida, pode ser que haja pecado nela e precisa libertar-se do
mesmo.

    Assim sendo, antes de voc poder ser enchido com o Esprito deve primeiro sentir esse desejo. Surge
aqui um pouco de confuso. Algum pode perguntar: "Como pode dizer que  preciso querer esse dom,
quando sabe que tal desejo j existe? No falamos com voc pelo telefone? No estamos aqui hoje para
ouvir o sermo sobre o Esprito Santo? Tudo isso no indica muito bem que desejamos ser cheios do
Esprito?"

     No necessariamente, e vou explicar o porqu. Por exemplo, est certo de que deseja ser possudo por
um outro esprito alm do seu? Mesmo que esse esprito seja o puro Esprito de Deus? Mesmo que seja a
prpria essncia da gentileza do amvel Jesus? Mesmo que seja sadio, puro e livre? Mesmo que seja a
sabedoria personificada, a prpria sabedoria, e que tenha um ungento precioso e com poder para curar?
Mesmo que seja to amoroso quanto o corao de Deus? Esse Esprito, se vier a possuir voc, ser o Senhor
da sua Vida!

     Pergunto ento: voc quer que Ele seja o Senhor de sua vida? Sei que deseja os seus benefcios. Tenho
isso como certo. Mas quer ser possudo por Ele? Quer entregar as chaves de sua alma ao Esprito Santo e
dizer: "Senhor, daqui por diante no tenho mais sequer a chave de minha prpria casa. Entro e saio
conforme suas ordens"? Est preparado para entregar ao Senhor o escritrio de sua empresa, a sua alma, e
dizer a Jesus: "Esta cadeira  sua, use os telefones e tome conta do pessoal, sendo Senhor desta firma?" 
isso que estou querendo indicar. Est certo que deseja isso?  isso que quer?

     Est certo que deseja ver sua personalidade dirigida por Algum que ir esperar obedincia  Palavra
escrita e viva? Que ela seja dirigida por Aquele que no tolera os pecados do "eu"? Por exemplo, amor-
prprio, egosmo. No se pode ter o Esprito Santo e amor por si mesmo a um s tempo, seria como praticar
a pureza e a impureza em conjunto e num s lugar. Ele no permitir que voc seja autoconfiante, auto-
suficiente. Amor-prprio, autoconfiana, auto-retido. auto-admirao. auto-exaltao e autopiedade so
proibidos pelo Todo-poderoso, e Ele no pode enviar seu poderoso Esprito a fim de possuir o corao que
abriga tais sentimentos.

     Quero perguntar tambm se voc deseja ver a sua personalidade absorvida por Algum que se destaca
em franca oposio  vida fcil do mundo. Nenhuma tolerncia do mal, nada de rir das anedotas obscenas,
nada de tratar como triviais as coisas que Deus odeia. O Esprito de Deus, quando toma posse, ir fazer com
que voc se oponha ao mundo da mesma forma que Jesus. O mundo crucificou Jesus porque no podia
suport-lo! Havia algo nEle que os censurava e o odiaram por isso, acabando por crucific-lo. O mundo
odeia o Esprito Santo tanto quanto odiou Jesus, Aquele de quem Ele procede. Voc tem certeza, irmo? Sei
que quer a ajuda dEle, quer muitos dos seus benefcios; mas est disposto a acompanh-lo em sua oposio
s transigncias do mundo? Caso no esteja, no pea mais do que j tem, porque voc no O quer, s pensa
que deseja isso!

    Por outro lado, est certo que precisa ser enchido? No pode continuar como est? Voc tem uma vida
boa. Ora, l a Bblia. contribui para os trabalhos missionrios, gosta de cantar hinos, agradece a Deus por
no beber, nem jogar ou ir a teatros ou cinemas, por ser honesto e por fazer devocionais em sua casa. Est
contente com tudo isso. No pode continuar assim? Acha que precisa mais do que isso? Quero ser justo com
voc. Quero fazer o que Jesus fez. Voltou-se para aqueles que o seguiam e lhes falou a verdade. No quero
engan-lo com falsas pretenses. "Esto certos de que querem seguir-me?", perguntou Ele e muitos o
abandonaram. Mas Pedro exclamou: "Senhor, para quem iremos? Tu tens as palavras da vida eterna". E os
que no se afastaram foram os que fizeram a histria. Os que no se retiraram foram aqueles que se
acharam a!i quando o Esprito Santo veio e encheu o lugar onde estavam reunidos. A multido que foi
embora jamais soube o que aconteceu.

     Mas talvez voc sinta em seu corao que no pode continuar como est, que o nvel de espiritualidade
a que se sente chamado est ainda muito alm de onde se encontra. Se sente que existe algo que precisa ter,
a fim de que seu corao possa satisfazer-se, que existem nveis de espiritualidade, profundezas e alturas
msticas de comunho espiritual, pureza e poder que voc desconhece, que existe fruto que voc deveria
produzir e no produz, vitria que sabe deveria alcanar e no alcana -- eu ento diria: "Venha", pois
Deus tem algo para lhe dar hoje.

    Existe uma solido espiritual, um isolamento interior, um lugar ntimo aonde Deus leva aquele que
busca, onde ele fica to s como se no houvesse outro membro da igreja em qualquer outra parte do
mundo. Ah! quando voc chega ali. existe uma escurido mental, um vazio no corao, uma solido na alma,
mas  como se fosse uma preliminar da alvorada.  Deus, leva-nos de alguma forma ao romper do dia!

     Eis aqui como receber. Primeiro, apresente o seu corpo a Ele (Rm 12:1,2). Deus no pode encher aquilo
que no possui. Pergunto ento: Voc est pronto a apresentar seu corpo com todas as suas funes e tudo
o que ele contm -- sua mente, sua personalidade. seu esprito, seu amor, suas ambies, tudo enfim? Esse
 o primeiro passo. Um ato simples e fcil -- a apresentao do corpo. Est disposto a isso?

    A segunda coisa  pedir (Lc 11:9-11), e ponho de lado todas as objees teolgicas a este texto. Elas
dizem que no se aplica hoje. Por que ento o Senhor o deixou na Bblia? Por que no o colocou em outro
lugar; por que o deixou onde eu o pudesse ler se no queria que cresse nele? Tudo  para ns, e se o Senhor
quisesse, poderia dar-nos sem que pedssemos, mas Ele prefere que pecamos: "Pea e eu darei",  sempre a
ordem de Deus. Por que no pedir ento?

    Lemos em Atos 5:32 a terceira coisa a ser feita. Deus d o seu Esprito Santo aos que lhe obedecem.
Voc est disposto a obedecer, fazendo o que lhe  ordenado? O que seria isso? Simplesmente viver de
acordo com as Escrituras, da forma como as entende. Simples, mas revolucionrio.

     O passo seguinte  ter f (Gl 3:2). Ns O recebemos pela f, como recebemos o Senhor na salvao pela
f. Ele vem como um dom de Deus a ns em poder. A princpio numa certa medida quando somos
convertidos; de outra forma no poderamos ser convertidos. Sem Ele no poderamos nascer de novo, pois
nascemos do Esprito. Estou porm falando de algo muito diferente agora, um avano alm desse ponto.
Estou me referindo  vinda dEle e  sua posse do corpo, da mente, da vida e do corao do indivduo;
tomando para si a sua personalidade, com gentileza, mas diretamente, a fim de que se torne a habitao de
Deus atravs do Esprito.

    Vamos supor agora que cantemos. Vamos cantar O Consolador Veio, porque Ele realmente veio. Se no
veio em toda a plenitude ao seu corao, Ele o far; mas Ele veio  terra. Est aqui e preparado, quando
apresentarmos nosso vaso, para ench-lo, se pedirmos e crermos. Voc vai fazer isso?
# Excerto Extrado de A Adorao: Jia Ausente na
Igreja Evanglica
49.    A Adorao: Ocupao Normal dos Seres Morais

    Por que Cristo veio? Por que foi concebido? Por que nasceu? Por que foi crucificado? Por que
ressuscitou? Por que est agora  destra do Pai?

    A resposta a todas essas perguntas : "Para que pudesse transformar os rebeldes em adoradores; para
que nos restaurasse, fazendo-nos voltar ao lugar de adorao que conhecemos quando fomos criados no
princpio".

     Por termos sido criados para adorar, a adorao  a ocupao normal dos seres morais. Trata-se da
ocupao norma! e no de algo acrescentado, como ouvir a um concerto ou admirar as flores. A adorao
faz parte da natureza humana. Todo vislumbre do cu os mostra em atitude de adorao: Ezequiel 1:1-5, as
criaturas sadas do fogo estavam adorando Deus; Isaas 6:1-6, vemos o Senhor sentado num alto e sublime
trono e ouvimos as criaturas dizendo: "Santo, santo, santo,  o Senhor dos Exrcitos"; Apocalipse 4:8-11,
Deus abre os cus e as vemos ali, adorando Deus Pai; e no quinto captulo, versos 6 a 14, ns as vemos
adorando Deus Filho.

     A adorao  um imperativo moral. Em Lucas 19:37-40, toda multido dos discpulos se achava
adorando o Senhor quando Ele veio e alguns fizeram censuras. O Senhor lhes disse: "Asseguro-vos que. se
eles se calarem, as prprias pedras clamaro".

     A adorao  porm a jia ausente no meio evanglico moderno. Somos organizados, trabalhamos,
temos nossos compromissos. Temos quase tudo, mas existe uma coisa que as igrejas, at mesmo as
evanglicas no tm: a capacidade para adorar, No estamos cultivando a arte da adorao. Essa  a gema
brilhante que falta na igreja de hoje, e acredito que devamos procur-la at que possa ser encontrada.

     Acho que devo estender-me mais um pouco sobre o que  a adorao e o que seria se existisse na
igreja,  uma atitude, um estado de mente, um ato sujeito a graus de perfeio e intensidade. No momento
em que Deus envia o Esprito de seu Filho aos nossos coraes, dizemos "Abba" e estamos adorando. Esse 
um lado. Mas muito diferente  sermos adoradores no pleno sentido da palavra no Novo Testamento.

    Eu disse que a adorao  sujeita a graus de perfeio e intensidade. Houve alguns que adoraram a
Deus at o ponto do xtase. Vi certa vez um homem ajoelhar-se junto ao altar, tomando a comunho; de
repente foi tomado de um riso santo. Esse homem riu at cruzar os braos ao redor de si mesmo, como se
temesse explodir de gozo na presena do Deus Altssimo. Outras vezes vi pessoas em tal xtase de adorao
que se sentiam arrebatadas por ela, e ouvi certos convertidos de corao simples dizerem, "Abba Pai". A
adorao pode ento passar por uma escala, dos sentimentos mais simples at os mais intensos e sublimes.

     Quais so os fatores que iremos encontrar na adorao? Vou falar de alguns,  medida que escrevo. Em
primeiro lugar a confiana ilimitada. Voc no pode adorar um Ser em quem no confie. A confiana 
necessria para haver respeito, e o respeito  necessrio para a adorao. A adorao cresce ou diminui em
qualquer igreja, dependendo de nossa atitude para com Deus, se o consideramos grande ou pequeno. A
maioria de ns v Deus em ponto pequeno; nosso Deus  diminuto. Davi exclamou: ''Magnificai a Deus
comigo" e "magnificar" no significa tornar Deus grande, pois voc no pode fazer isso. O que pode fazer 
v-lo grande.

    A adorao, como disse, cresce ou diminui segundo o nosso conceito de Deus. Essa a razo pela qual
no creio nesses indivduos meio-convertidos que chamam Deus de "o Homem L de Cima". No acredito
que adorem de forma alguma, pois o seu conceito de Deus  indigno dEle e deles tambm. Se existe uma
enfermidade terrvel na igreja de Cristo  a de no vermos Deus to grande como ele . Ns tratamos Deus
com excesso de familiaridade.

   A comunho com Deus  uma coisa, e a familiaridade com ele outra absolutamente diversa. No gosto
nem mesmo (e isto poder ferir alguns de seus sentimentos -- mas eles iro ficar bons de novo) de ouvir
Deus chamado de "Voc". "Voc"  uma expresso coloquial. Posso chamar um homem de "voc", mas devo
chamar Deus de "Senhor", "Tu" e "Ti". Sei que so palavras antigas, mas sei tambm que existem algumas
coisas to preciosas que no devemos abandon-las e acho que ao falarmos com Deus devemos usar os
pronomes puros e respeitosos.

    Tambm acho que no devemos falar muito de Jesus como simplesmente Jesus. Penso que temos de
lembrar-nos de quem Ele . "Ele  seu Senhor, e  preciso ador-lo". Embora Ele desa ao ponto mais baixo
de nossa necessidade e se torne acessvel a ns, com a ternura da me para com seu filho, no se esquea
porm que quando Joo o viu -- aquele Joo que reclinara a cabea em seu peito caiu aos ps dEle como
morto.

    J ouvi toda espcie de pregadores. Ouvi ignorantes presunosos, homens aborrecidos e secos, assim
como oradores eloqentes; mas os que mais me ajudaram foram aqueles que se mostraram reverentes na
presena do Deus de quem falavam. Poderiam ter senso de humor, mostrando-se at mesmo joviais; mas
quando falavam de Deus sua voz tinha outro tom; tratavam agora de outra coisa, algo maravilhoso.
Acredito que devamos ter novamente o velho conceito bblico de Deus que torna Deus terrvel e faz os
homens se prostrarem, gritando: "Santo, santo, santo  o Senhor Todo-Poderoso". Isso faria mais pela igreja
do que qualquer coisa.

     Vem a seguir a admirao, isto , a apreciao da excelncia de Deus. O homem est melhor
qualificado do que qualquer outra criatura a apreciar Deus, por ter sido a nica criatura feita  sua imagem,
Esta admirao por Deus cresce cada vez mais at encher o corao com admirao e prazer. "Em nossa
reverncia atnita confessamos Tua beleza incriada", cantou o escritor de hinos. "Em nossa reverncia
atnita". O Deus do evanglico moderno raramente deixa algum atnito. Ele consegue manter-se muito
bem dentro da constituio, jamais quebrando nossos regulamentos internos.  um Deus bem comportado,
muito denominacional, muito integrado em nosso meio, e lhe pedimos que nos ajude quando temos
dificuldades e esperamos que nos guarde quando dormimos. O Deus do evanglico moderno no me
inspira muito respeito. Mas quando o Esprito Santo nos mostra Deus como Ele , ns O admiramos at o
ponto de encher-nos de espanto e prazer.

    A fascinao  um outro elemento na verdadeira adorao. Sentir-se cheio de excitao moral, cativo,
enlevado e arrebatado. O seu entusiasmo no est ligado com a idia de quo grande voc est se tornando,
nem como a oferta foi grande, nem com o nmero de pessoas que compareceu ao culto. Mas voc se enleva
com a noo de quem Deus , e fica atnito diante da inconcebvel elevao, magnitude e esplendor do
Deus Todo-Poderoso.

    Lembro-me da primeira vez que tive uma viso de Deus, terrvel, maravilhosa, arrebatadora. Eu me
achava numa floresta, sentado num tronco, lendo as Escrituras junto com um evangelista irlands, j idoso,
chamado Robert J. Cunningham, que h muito se acha no cu. Levantei-me e segui um pouco adiante, a fim
de orar sozinho. Eu estivera lendo uma das passagens mais ridas que se possa imaginar -- aquele trecho
em que Israel saiu do Egito e Deus os fez dispor o acampamento na forma de um losango. Colocou Levi no
centro, Rben na frente e Benjamim atrs. Era como uma cidade em movimento, na forma de losango, com
uma chama de fogo em seu meio, fornecendo luz. De repente pude compreender: Deus  um gemetra. Ele
 um artista! Quando Ele disps aquela cidade, planejou-a habilmente com uma coluna no centro, e esses
pensamentos vieram sobre mim como uma enorme onda: como Deus  belo, Ele  um artista, poeta e
msico, e adorei a Deus ali, debaixo daquela rvore, sozinho. A partir daquele momento comecei a amar os
velhos hinos e continuo a am-los at hoje.

     Temos depois a adorao, amar a Deus com todo poder em nosso ntimo. Amar a Deus com temor e
espanto, desejo e reverncia. Ansiar por Deus, am-lo at o ponto de sentir dor e prazer. Isto nos leva a um
silncio empolgado. Penso que as maiores oraes so aquelas onde voc no diz uma palavra nem pede
nada. Deus porm responde e nos d o que pedimos. Isso  claro, e ningum pode negar tal coisa a no ser
que negue as Escrituras. Mas esse  apenas um dos aspectos da orao, no sendo nem mesmo o mais
importante. Algumas vezes me dirijo a Deus dizendo: "Senhor, mesmo que nunca mais responda a
nenhuma de minhas oraes enquanto eu viver, continuarei ainda assim a ador-lO, tanto nesta vida como
na vindoura, por aquilo que o Senhor j fez". J devo tanto a Deus que mesmo que vivesse durante milnios
e milnios jamais poderia pagar-lhe o que fez por mim.

    Vamos a Deus como iramos ao supermercado com uma longa lista de coisas a serem compradas.
"Deus, d-me isto, isto, e isto," e nosso Deus gracioso freqentemente nos d o que pedimos. Mas penso que
fica desapontado quando fazemos dele apenas uma fonte de atendimento. At o Senhor Jesus  com
demasiada freqncia apresentado como "Algum que suprir as suas necessidades". Esse  o ncleo do
evangelismo moderno. Voc tem necessidades e Jesus ir satisfaz-las. Ele  o Supridor das Necessidades.
De fato, Ele  tambm isso, mas, ah, infinitamente mais que isso!

     Quando os fatores mentais, emocionais e espirituais de que falei estiverem presentes e, como admiti,
em vrios graus da intensidade, atravs de cnticos, louvor, orao, voc est adorando. Voc sabe o que 
orao mental? Estou querendo saber se voc tem idia do que seja orar continuamente. O irmo
Lawrence, que escreveu o livro The Practice of the Presence of God ("A Prtica da Presena de Deus"),
disse: "Se estiver lavando pratos, fao isso para a glria de Deus e se apanho um fiapo do cho tambm o
fao para a glria de Deus. Estou todo o tempo em comunho com Deus". Ele continuou. "As regras me
dizem que tenho de tomar tempo para estar sozinho e orar, e cumpro esse mandamento, mas esses
perodos no so em nada diferentes de minha comunho regular". Ele aprendera a arte da comunicao
com Deus, contnua e ininterrupta.

    Temo pelo pregador que sobe ao plpito como uma pessoa diferente do que era antes. Meu amigo,
voc jamais deveria ter um pensamento, praticar um ato ou ser apanhado em qualquer situao que no
pudesse levar consigo para o plpito sem sentir-se embaraado. Voc jamais deveria precisar ser um novo
homem, usar uma nova voz e um novo senso de solenidade ao subir ao plpito.

    Deve poder apresentar-se no plpito com o mesmo esprito e o mesmo senso de reverncia que tinha
antes quando estava falando com algum sobre as coisas corriqueiras da vida. Moiss desceu do monte
para falar ao povo. Ai da igreja cujo pastor sobe ao plpito ou entra no plpito! Ele deve sempre descer ao
plpito. Conta-se que Wesley habitualmente morava com Deus, mas de vez em quando descia para falar ao
povo. O mesmo deve acontecer conosco. Amm.
# Excerto Extrado de Quem Colocou Jesus na Cruz?

50.     Cristo, Voc se Considera Muito Inferior?

Aguardando ansiosamente aquele tempo quando se ver a sua glria -- a glria do nosso grande Deus e
Salvador Jesus Cristo, que morreu debaixo da condenao de Deus sobre os nossos pecados. para que
pudesse livrar-nos de cair constantemente no pecado e fazer de ns o seu prprio povo, de corao
purificado e com profundo entusiasmo para fazer coisas boas pelos outros.
Tito 2:13-14 (Bblia Viva)

     O povo de Deus, os cristos que esto vivendo entre os dois grandes acontecimentos da encarnao de
Cristo e sua volta prometida, no est vivendo no vazio!

      surpreendente ver que os grupos da igreja crist que negam a possibilidade da volta iminente do
Senhor Jesus acusam os que crem que Ele vir logo de ficarem sentados, de mos cruzadas, olhando para o
cu, e esperando vagamente o melhor!

    Nada poderia estar mais longe da verdade. Vivemos no intervalo entre as suas duas aparies, mas no
vivemos no vazio. Temos muito a fazer e pouco tempo para executar o que deve ser feito!

      Pense um pouco e considere alguns fatos muito evidentes em nossos dias.

     Quem so os cristos que esto dando tudo para ajudar os missionrios em todo o mundo? Quem so
os cristos que esto ficando em casa e sacrificando-se, a fim de colaborar no grande avano evanglico em
toda parte? Os que acreditam fervorosamente que Ele est chegando.

    Quais as igrejas que esto ocupadas orando e ensinando, contribuindo e preparando seus jovens para
o ministrio e o trabalho missionrio? As igrejas que esto respondendo ao apelo de Cristo para "se
ocuparem at que eu venha!"

     No texto em foco, Tito nos apresentou uma doutrina crist vlida tanto  luz da esperada volta de Jesus
Cristo como em face da morte.

     Conta-se a respeito dos primeiros metodistas na Inglaterra, quando passavam por perseguies e
tributaes de todos os lados, que John Wesley exclamou: "Nosso povo morre bem!"

     Em anos mais recentes, ouvi uma citao feita por um bispo denominacional que calculava que apenas
dez por cento dos homens e mulheres membros do corpo de sua igreja achavam-se preparados e
espiritualmente prontos para morrer quando chegar a sua hora.

    Acredito que s se pode morrer bem quando se viveu bem, do ponto de vista espiritual. Esta doutrina
da vida crist e vitalidade espiritual do crente como proposta por Tito  muito vlida em face de qualquer
contingncia que nos aguarde.

    Tito identifica rapidamente Jesus Cristo como o Salvador "o qual a si mesmo se deu por ns", e
podemos de igual modo aprender de imediato o valor de qualquer objeto pelo preo que as pessoas esto
dispostas a pagar por ele. Eu talvez deva explicar que voc pode no vir a saber o justo valor, pois em
minha opinio particular um diamante ou outra jia no tem qualquer valor intrnseco.

    Voc pode estar lembrado da histria do galo que procurava no galinheiro milho para comer. De
repente achou uma prola de valor fabuloso que tinha sido perdida anos antes, mas ele apenas empurrou-a
e continuou em busca de milho. A prola no valia nada para o galo, embora fosse muito valiosa para
aqueles que lhe tinham dado um preo.

    Existem vrios tipos de mercado no mundo, e aquilo que no tem valor para a pessoa desinteressada
pode ser considerado valioso por quem o deseja e compra.
      neste sentido ento que aprendemos como somos caros e preciosos para Cristo, segundo aquilo que
Ele se disps a dar por ns.

    Acredito serem muitos os cristos que se deixam tentar por uma atitude de inferioridade artificial. No
estou falando contra a verdadeira humildade e meu conselho  este: Julgue-se to insignificante quanto
quiser, mas lembre-se sempre que o Senhor Jesus Cristo o tinha em alta considerao o bastante para
sacrificar-se e morrer por voc.

    Se o diabo se aproximar de voc e sussurrar em seu ouvido, dizendo-lhe que voc no presta para
nada, no discuta com ele. De fato, pode at admiti-lo, mas depois faa com que ele se lembre: "Apesar do
que voc diz sobre mim, devo contar-lhe como o Senhor se sente a meu respeito. Ele me disse que tenho
tanto valor a seus olhos que se deu por mim na cruz!"

    O valor  ento estabelecido pelo preo pago -- e, no nosso caso, o preo foi o prprio Senhor!

    O fim que o Salvador tinha em vista foi o de remir-nos de toda iniqidade, isto , do poder e
conseqncias da iniqidade.

     Cantamos com freqncia as palavras de um hino de Charles Wesley em que a morte do Senhor Jesus 
descrita como "uma cura dupla" para o pecado. Penso que muitas pessoas cantam esse hino sem saber o
significado das palavras de Wesley.

    "Seja do pecado a dupla cura, Salva-me da sua ira e poder." A ira de Deus contra o pecado e o poder do
pecado na vida humana ambos podem ser curados. Assim sendo, quando Ele se deu por ns, remiu-nos
com uma cura dupla, livrando-nos das conseqncias do pecado e do poder que este exerce na vida do
homem.

    Nessa preciosa jia de verdade espiritual, Tito nos recorda que o Cristo Redentor realiza uma obra de
purificao no povo de Deus.

    Voc tem de concordar comigo que uma das molstias mais profundas e disseminadas do mundo e da
sociedade atual  a impureza, e ela se manifesta em mltiplos sintomas. Temos a tendncia de considerar
certos atos fsicos obscenos e indecentes como sendo as impurezas que assolam a vida humana e a
sociedade -- mas a cobia, a intriga, os pianos e as tramas tm sua origem numa fonte de impureza muito
mais profunda dentro da mente e no mais ntimo dos homens e mulheres pecadores.

    Se fssemos um povo de mos limpas e coraes puros, estaramos constantemente praticando
aquelas coisas que agradam a Deus. A impureza no consiste apenas num ato errado, mas ela  um estado
de mente, de corao e de alma, justamente o oposto da pureza e integridade.

    O comportamento sexual imprprio  um sintoma do mal da impureza, mas o dio tambm o . O
orgulho e o egosmo, o ressentimento e a avareza surgem de mentes e coraes pecadores e impuros, assim
como a gula, a preguia e a complacncia. Todos esses e inmeros outros vm  superfcie com sintomas
externos da molstia profunda e interior do egosmo e pecado.

    Por ser este um fato na vida e na experincia, Jesus Cristo opera espiritualmente a fim de purificar seu
povo atravs de seu sangue, e para libert-lo dessa enfermidade to grave. Essa  a razo por que Ele 
chamado de o Grande Mdico, por ter capacidade para curar-nos do mal da impureza e iniqidade,
remindo-nos das conseqncias dos nossos pecados e purificando-nos da presena deles.

     Agora, irmos, ou isto  verdadeiro e exeqvel na vida e experincia humana ou o cristianismo no
passa de uma fraude. Ou se trata de uma opo espiritual verdadeira e confivel, ou devemos fechar a
Bblia e coloc-la ao lado das demais obras de literatura clssica que no tm qualquer validade especial
em face da morte.

    Graas a Deus pelos milhes que ousam reunir-se como um grande coral e exclamar comigo: "
verdade! Ele deu-se realmente para nos remir de toda iniqidade e Ele realiza esta obra de purificao em
nossas vidas todos os dias!"
    O resultado da obra purificadora de Cristo  o aperfeioamento do povo de Deus, referido nesta
passagem como "exclusivamente seu", ou "peculiar" como em algumas verses.

     Muitos sabem que esta palavra "peculiar" tem sido usada com freqncia para disfarar a conduta
religiosa estranha e irracional. Alguns praticam atos bastante esquisitos e depois dizem com um sorriso
constrangido, como a se desculpar: "Bem, ns somos um povo peculiar!"

    Quem quer que se interesse sria e honestamente pelas advertncias e instrues bblicas pode
aprender que esta palavra "peculiar" na linguagem usada em 1611, que descrevia o povo remido de Deus,
no tinha qualquer conotao com atitudes estranhas, ridculas ou insensatas.

     A mesma palavra foi usada primeiro em xodo 19:5 quando Deus falou que Israel seria a sua
"propriedade peculiar dentre todos os povos". Essa foi uma forma de enfatizar que o seu povo seria para
Ele um tesouro maior que todos os demais. No sentido etimolgico significa "guardado para mim como
minha jia especial".

    Todo pai e me amorosos sabem o que Deus queria dizer. Existem crianas nas casas de cima abaixo
em toda rua, como se pode ver pelas roupinhas penduradas nos varais nos dias de sol.

     Mas na casa onde voc mora, existe uma criana especial, e ela  um tesouro peculiar para voc acima
de todos os outros. Isso no indica necessariamente que seja mais bonita, mas que  um tesouro maior que
todos os outros e que voc no trocaria a sua por qualquer outra criana neste mundo. Ela  um tesouro
peculiar!

    Isto nos d uma idia do que somos -- as jias especiais de Deus, separadas para ele!

    Tito esclareceu ento uma coisa que sempre ir caracterizar os filhos de Deus -- o fato de serem
zelosos de boas obras.

     Tito e todos os outros escritores que tiveram parte na revelao de Deus atravs das Escrituras
concordam neste ponto -- o Senhor jamais fez proviso para que qualquer de seus servidores fosse um
cristo "de braos cruzados". O cristianismo na "torre de marfim", uma crena abstrata, composta
simplesmente de pensamentos bons e belos, no foi em absoluto o que Jesus ensinou.

    A linguagem neste trecho  clara: Os filhos de Deus em Cristo Jesus, remidos pelo dom de Si mesmo,
purificados e tornados para Ele em jias especiais, um povo peculiar, so caracterizados por uma coisa: o
seu zelo pelas boas obras.

    Aprendemos que devido  graa de Deus, esses seguidores de Jesus Cristo so zelosos de boas obras e
na sua experincia diria vivem ''esperando". O cristo deve viver sempre em alegre antecipao da
abenoada esperana e da vinda gloriosa do grande Deus e nosso Salvador Jesus Cristo!

    Existe algo na teologia crist que desejo partilhar com voc. Algumas pessoas dizem que no podem
preocupar-se com a teologia porque no sabem nem grego nem hebraico, mas no posso crer que haja
qualquer cristo cuja humildade chegue ao ponto de insistir que desconhece a teologia.

    A teologia  o estudo de Deus e temos um livro de estudo maravilhoso -- na verdade so 66 livros em
um s. Ns o chamamos de a Bblia. O ponto que quero salientar  este: Notem atravs do estudo e da
experincia que quanto mais vital e importante qualquer verdade teolgica ou doutrinria seja, o diabo se
ope mais fortemente a ela e procura fazer com que surjam mais controvrsias a seu respeito.
Considere por exemplo a divindade de Jesus.

    Mais e mais pessoas esto argumentando, debatendo e lutando em relao a esta verdade
absolutamente vital e fundamental.

   O diabo  bastante esperto para no desperdiar seus ataques sobre os aspectos mais insignificantes e
menos vitais da verdade e ensino cristos.

    O diabo no criar problemas ao pregador que ti ve r tanto medo de sua congregao e estiver to
preocupado com a possibilidade de perder o emprego que prega durante trinta minutos e o resumo de suas
palavras  este: "Sejam bons e vo sentir-se melhor!"

    Voc pode ser to bom quanto quiser e mesmo assim ir para o inferno se no tiver colocado sua
confiana em Jesus Cristo! O diabo no ir perder tempo prejudicando o pregador cuja nica mensagem
contenha esta recomendao: "Seja bom!"

     Mas o cristo vive na alegre esperana da volta de Jesus Cristo e este  um segmento to importante da
verdade que o diabo est sempre disposto a atac-lo e ridiculariz-lo. Um de seus maiores xitos  fazer
com que as pessoas discutam e fiquem zangadas umas com as outras por causa da volta de Jesus, em lugar
de ficar "olhando" e esperando por ela.

     Suponhamos que um homem tenha ficado longe da famlia durante dois anos, do outro lado do mar.
Certo dia chega um telegrama com a mensagem: "Acabei meu trabalho aqui; chego hoje".

     Depois de algumas horas ele chega  porta da frente e encontra a famlia em tumulto. Estiveram
discutindo se ele chegaria de manh ou de tarde. Brigaram tambm sobre o tipo de transporte que
utilizaria. Como resultado, ningum estava  janela com o nariz grudado no vidro  sua espera, ningum
estava olhando para ver primeiro o Papai que voltava.

    Voc pode dizer: "Mas isso  apenas uma ilustrao". E eu respondo: "mas, qual  a situao nos vrios
grupos da comunidade crist?"

    Todos esto brigando e zangados uns com os outros. Esto discutindo se Ele vir e como vir, e esto
ocupados usando provas textuais sobre a queda de Roma e a identificao do anticristo.

     Irmos, isso  trabalho de Satans; fazer com que os cristos discutam sobre os detalhes da vinda dEle
e se esqueam da coisa mais importante. Quantos cristos esto confusos e atnitos com as discusses, a
ponto de esquecer que o Salvador nos purificou para sermos um povo especial, esperando que viva com
sobriedade, retido e piedade, aguardando a vinda gloriosa do grande Deus e Salvador.

     Essa  a Epifania, uma expresso usada na igreja crist com referncia  manifestao de Cristo no
mundo.
Ela  usada em dois sentidos em I Timteo e 2 Timteo.

    Paulo diz, primeiro, em 2 Timteo 1:8-10: "... Deus, que nos salvou e nos chamou com santa vocao;
no segundo as nossas obras, mas conforme a sua prpria determinao e graa que nos foi dada em Cristo
Jesus antes dos tempos eternos, e manifestada agora pelo aparecimento de nosso Salvador Cristo Jesus, o
qual no s destruiu a morte, como trouxe  luz a vida e a imortalidade, mediante o evangelho".

    Nessa passagem temos o registro de sua vinda, quando Ele veio ao mundo para abolir a morte atravs
de sua prpria morte e ressurreio.

    A seguir, em uma daquelas comoventes e belas doxologias, o apstolo disse em I Timteo 6:13-16:
"Exorto-te perante Deus, que preserva a vida de todas as coisas, e perante Cristo Jesus que, diante de
Pncio Pilatos fez a boa confisso, que guardes o mandato imaculado, irrepreensvel, at  manifestao de
nosso Senhor Jesus Cristo".

     Paulo fala da volta de Cristo, quando Ele revelar quem  "o nico Soberano, o Rei dos reis e Senhor
dos senhores; o nico que possui imortalidade, que habita em luz inacessvel, a quem homem algum jamais
viu, nem  capaz de ver, A ele honra e poder eterno. Amm".

    Quando leio coisas assim, escritas pelo apstolo Paulo, elas me fazem lembrar de um sabi ou canrio
pousado num ramo e fazendo ouvir inesperadamente o seu canto melodioso. Paulo muitas vezes irrompe
em uma de suas belssimas e edificantes tiradas de louvor a Jesus Cristo em meio s suas epstolas, e esta 
uma delas!

    Paulo lembra os cristos neste ponto de que na volta de Jesus, ele ir manifestar-se de modo a no
deixar dvidas quanto  Pessoa do Rei dos reis e Senhor dos senhores.
     Paulo cuidou tambm de consolar os cristos da primeira igreja que temiam morrer antes da volta de
Jesus Cristo. Na igreja de Tessalnica alguns membros se preocupavam com duas coisas diferentes. A
primeira era a suposio de que o Senhor j viera e eles haviam ficado esquecidos. A segunda estava ligada
 idia de que morreriam antes de Ele vir e que no participariam ento do jbilo de sua vinda.

    Paulo escreveu ento as duas cartas aos Tessalonicenses, a fim de explicar-lhes a verdade relativa ao
segundo advento de Cristo.

    "Visto que ns cremos que Jesus morreu e depois voltou  vida, podemos tambm crer que, quando
Jesus voltar, Deus trar de volta com Ele todos os cristos que j morreram" -- isto , se voc morrer no
Senhor, Deus ir traz-lo de volta com Jesus quando Ele vier -- "Posso dizer-lhes, diretamente do Senhor,
que ns, os que ainda estivermos vivos quando o Senhor voltar, no subiremos para encontr-lO na frente
daqueles que esto nas sepulturas. Pois o prprio Senhor descer do cu com um potente clamor, com o
vibrante brado do arcanjo e com o vigoroso toque da trombeta de Deus. E os cristos que esto mortos
sero os primeiros a levantar-se para irem ao encontro do Senhor. Ento ns, os que ainda estivermos
vivos e restarmos na terra, seremos arrebatados at eles nas nuvens, a fim de nos encontrarmos com o
Senhor nos ares e ficarmos com Ele para sempre. Portanto, confortem-se e encorajem-se mutuamente com
esta notcia" (I Ts 4:14-18 -- Bblia Viva).

    A explicao inspirada de Paulo nos ensina que os que morreram antes da volta de Jesus no estaro
em desvantagem. Pode ser que at tenham proveito com isso, pois antes do Senhor glorificar os santos que
continuem vivos em toda a terra, Ele ir ressuscitar em corpos glorificados o grande exrcito de crentes
que partiram atravs da morte no correr dos sculos.

     Irmos, foi justamente isso que o apstolo Paulo nos disse nas instrues dadas originalmente aos
cristos de Tessalnica.

    No temos o direito de pensar que  muito estranho que a maioria dos plpitos cristos estejam
completamente silenciosos com respeito a esta gloriosa verdade da volta iminente de Jesus Cristo? Trata-se
de um paradoxo o falo de haver esse grande silncio nas igrejas crists justamente quando o perigo de o
homem ser varrido da face da terra  maior do que jamais o foi.

    A Rssia e os Estados Unidos, as duas grandes potncias nucleares, continuam a medir foras em
termos de matana. Em ingls. o termo usado atualmente para essa matana desenfreada  uma palavra
composta "over-kill", que significa "matar em excesso". Os cientistas no tinham como expressar o poder
praticamente incrvel de destruio das bombas nucleares em nossos depsitos e inventaram ento o
termo "over-kill".

     Tanto os Estados Unidos como a Rssia fizeram declaraes sobre esse poder dos estoques
nucleares, que podem matar todo homem, mulher e criana no mundo -- no uma s vez, mas vinte vezes.
Isso  "over-kill"!

    No  mesmo um estratagema do velho inimigo, Satans, persuadir os santos no Corpo de Cristo a se
envolverem em discusses amargas a respeito de arrebatamento pr e ps-tribulao, ps-milenialismo, a-
milenialismo e pr-milenialismo -- exatamente numa hora em que a ''morte em excesso" paira sobre ns
como uma nuvem negra e ameaadora?

     Irmos, esta  uma poca e hora em que o povo do Senhor deve ficar alerta em relao  esperana e
promessa de sua vinda, de modo a levantar-se cada manh como a criana no dia de Natal -- entusiasmada
e certa de que o dia  hoje!

     Em lugar desse tipo de expectativa, o que vemos na igreja hoje? Discusses pr e contra a sua vinda,
sobre os detalhes do arrebatamento - e algumas criando verdadeiras desavenas. Por outro lado,
encontramos grandes grupos de cristos que parecem ter capacidade para ignorar toda a questo da volta
de Jesus Cristo.

     Poucos ministros se preocupam em pregar a respeito do Livro do Apocalipse hoje em dia, e isso se
aplica tanto aos evanglicos quanto aos fundamentalistas! Estamos sendo intimidados pelo cinismo e
sofisticao de nossos dias.

    Existem tantas anomalias e contradies aparentes na sociedade e nas fileiras dos cristos professos
que algum ir acabar escrevendo um livro a respeito.

    Existe a anomalia da necessidade de conhecer melhor um ao outro a fim de amar e compreender
melhor a cada um. Milhes de pessoas esto viajando e encontrando outras a fim de conhecer-se, e se a
premissa for ento verdadeira, devemos todos amar-nos como uma grande e abenoada famlia.

    Mas, em lugar disso, ns nos odiamos. A verdade  que em todo o mundo as naes se odeiam umas s
outras desmedidamente.

    Quero mencionar outra contradio bastante aparente. Nossos educadores e socilogos nos disseram
que se permitssemos o ensino da educao sexual nas escolas, todos os problemas nesse terreno
desapareceriam.

     No  mesmo estranho que a gerao que tem ensinado mais a respeito das prticas sexuais do que
vinte e cinco geraes combinadas fizeram no passado, seja a gerao que tem-se mostrado mais podre e
pervertida na conduta sexual?

      No  tambm estranho que a prpria gerao que poderia ser reduzida a p pelo processo de "over-
kill" seja justamente a que teme falar da volta do Senhor e no est disposta a considerar suas graciosas
promessas de libertao e glorificao?

    Talvez voc no espere que eu diga, mas vou dizer: como somos esquisitos! Que gerao estranha a
nossa!

    Deus afirmou que iria dar grande galardo  constncia espiritual dos santos cristos, mas como
somos inconstantes quando permitimos que o diabo e nossa prpria carnalidade nos confundam de modo a
desviar-nos de nossa espera paciente da sua volta!

     Vivemos, portanto, entre dois acontecimentos importantes -- o da encarnao, morte e ressurreio
de Cristo, e o da sua manifestao final e glorificao daqueles que Ele morreu para salvar. Este  o perodo
de espera para os santos -- mas no se encontram num vcuo. Ele nos deu muito para fazer e pede a nossa
fidelidade.

    Enquanto isso, somos zelosos de boas obras, vivendo com moderao, reta e piedosamente neste
mundo, olhando para Ele e a sua promessa. Em meio a nossas vidas e entre os dois grandes picos
montanhosos dos atos de Deus no mundo, olhamos para trs e lembramos e olhamos para a frente e temos
esperana! Como membros da fraternidade cheia de amor criada por Ele, partimos o po e bebemos o suco.
Cantamos louvores a Ele e oramos no seu nome, lembrando e aguardando!

    Irmos, isso me comove mais que tudo no mundo.  um privilgio abenoado, mais belo e satisfatrio
do que as amizades, as pinturas ou ocasos ou quaisquer outras maravilhas da natureza. Olhar para trs,
para a sua graa e amor e olhar para a frente, na expectativa da sua volta em glria; enquanto isso,
trabalhamos ativamente e aguardamos jubilosos -- at que Ele volte!
# Excerto Extrado de Caminhos para o Poder

51.     Os Milagres Seguem o Arado

                                           Arai o campo virgem; porque  tempo de buscar ao
                                           Senhor, at que ele venha e chova a justia sobre vs.
                                           Os 10: 12

      Vemos aqui dois tipos de solo: o solo duro ou virgem e aquele que foi amaciado pelo arado.

     O solo duro  convencido, complacente, protegido dos golpes do arado e da agitao pela grade. Um
campo assim, abandonado ano aps ano, acaba tornando-se a habitao do corvo e do gaio. Se tivesse
inteligncia, poderia ter em alta conta a sua reputao; possui estabilidade; a natureza adotou-o; pode ser
tomado como certo que continuar sempre o mesmo,' enquanto os campos que o rodeiam mudam de
marrom para verde e de verde para marrom de novo. Seguro e tranqilo, ele se espalha preguiosamente
ao sol, um verdadeiro retrato da satisfao sonolenta. Mas o preo que paga pela sua tranqilidade 
terrvel: pois ele no v o milagre do crescimento; no sente os movimentos da vida em crescendo nem
aprecia os prodgios da semente brotando ou a beleza do gro que amadurece. Jamais pode conhecer fruto
porque teme o arado e a grade.

    Em oposio direta a isto, o campo cultivado entregou-se  aventura de viver. A cerca protetora abriu-
se para dar entrada ao arado, e este veio como todos eles vm, prtico, cruel, apressado. A paz foi quebrada
pelos gritos do fazendeiro e o rudo das mquinas. O campo sentiu o labor da mudana; foi perturbado,
revolvido, ferido e quebrado, mas suas recompensas valem o sofrimento a que se submeteu. A semente
manifesta  luz do dia seu milagre de vida, curiosa, explorando o mundo  sua volta. Em todo o campo a
mo de Deus est operando no servio da criao, velho como o tempo e sempre renovado. Novas coisas
nascem, crescem, amadurecem e realizam a grande profecia latente no gro quando foi colocado no solo. Os
prodgios da natureza seguem o arado.

    H tambm duas espcies de vida: a dura e a arada. Para obter exemplos de uma vida endurecida no
precisamos ir longe. Existem muitas ao nosso redor.

     O homem de vida endurecida est contente consigo mesmo e com o fruto que produziu no passado.
No quer que o incomodem. Sorri com superioridade quando ouve falar de reavivamentos, jejuns, auto-
anlises, e todas as tarefas ligadas  produo de frutos e  angstia do crescimento. O esprito de aventura
morreu nele.  estvel, "fiel", sempre em seu lugar costumeiro (como o velho campo), conservador e uma
espcie de marco na pequena igreja. Mas  estril. A maldio de uma vida assim  o fato de ser fixa, tanto
em tamanho como em contedo. Ser tomou o lugar de tornar-se. O pior que pode ser dito de tal indivduo 
que  o que ir ser. Ele encerrou-se entre quatro paredes e, atravs desse mesmo ato, deixou Deus do lado
de fora e tambm o milagre.

     A vida arada  aquela que, no ato do arrependimento, derrubou as cercas protetoras e enviou o arado
da confisso  alma. O estmulo do Esprito, a presso das circunstncias e a angstia por uma vida sem
frutos, combinaram-se para humilhar o corao. Uma vida assim abaixou as suas defesas, e abandonou a
segurana da morte pelo perigo da vida. O descontentamento, a ansiedade, a contrio, a obedincia
corajosa  vontade de Deus: feriram e quebraram o solo at que esteja novamente preparado para a
sementeira. E, como sempre, o fruto segue o arado. A vida e o crescimento comeam  medida que Deus faz
"chover justia". Uma pessoa assim pode testemunhar: "E a mo do Senhor estava sobre mim."

     Em correspondncia a esses dois tipos de vida, a histria religiosa mostra duas fases, a dinmica e a
esttica.

    Os perodos dinmicos foram aqueles tempos hericos em que o povo de Deus atendia ao chamado do
Senhor e saa para levar ousadamente seu testemunho ao mundo. Eles trocaram a segurana da inao
pelos riscos do progresso inspirado por Deus. O poder de Deus seguia-se invariavelmente a tais atos. O
milagre de Deus acompanhava seu povo aonde quer que ele fosse; parava quando seu povo parava.
    Os perodos estticos foram aqueles em que o povo de Deus se cansava de lutar e buscava uma vida de
paz e segurana. Eles ento se ocupavam tentando conservar os bens obtidos naqueles tempos mais
ousados em que o poder de Deus se movia entre o povo.

     A histria bblica est repleta de exemplos. Abrao "partiu" em sua grande aventura de f, e Deus o
acompanhou. Revelaes, teofanias, a ddiva da Palestina, alianas e promessas de ricas bnos foram o
resultado. Israel seguiu ento para o Egito, e os prodgios cessaram durante quatrocentos anos. No final
desse perodo, Moiss ouviu o chamado de Deus e adiantou-se para enfrentar o opressor. Uma torrente de
poder acompanhou esse desafio e Israel logo se ps em marcha. Enquanto ousou marchar, Deus enviou
seus milagres a fim de abrir-lhe o caminho. Toda vez que a nao parava como um campo endurecido, Ele
retirava a sua bno e aguardava que se levantasse de novo e pedisse pelo seu poder.

     Este  um esboo rpido mas justo da histria de Israel e da Igreja. Enquanto "saam e pregavam em
toda parte", o Senhor operava junto a eles. . . confirmando a palavra por meio de sinais". Mas quando se
retiravam para monastrios ou brincavam de edificar lindas catedrais, o auxlio de Deus era sustado at
que um Lutero ou um Wesley se levantasse para desafiar novamente o inferno. Deus derramava ento
invariavelmente o seu poder como fizera antes.

    Em toda denominao, sociedade missionria, igreja local ou cristo individual, vemos esta lei em
operao. Deus opera quando seus filhos vivem ousadamente. Ele se interrompe quando no h mais
necessidade de sua ajuda. No momento em que buscamos proteo fora de Deus, ns a encontramos em
prejuzo prprio. No momento em que construmos uma parede de segurana feita de doaes, leis
secundrias, prestgio, mltiplos agentes para a delegao de nossos deveres, a paralisia se introduz
imediatamente, uma paralisia que s pode terminar em morte.

     O poder de Deus s vem atendendo ao apelo do arado Ele s  liberado na igreja quando ela estiver
fazendo algo que necessite do mesmo. Com a palavra "fazendo" no quero indicar simples atividade. J
existe excesso de "movimento" nela, mas cm tocas essas atividades ela cuida para manter intocado o campo
endurecido. Ela toma precaues para confirmar sua movimentao, dentre dos limites da completa
segurana. Essa a razo pela qual  estril, no d fruto. Est segura, mas amadurecida.

     Olhe  sua volta e veja os milagres de poder que esto tendo lugar, veja onde eles se realizam. No  no
seminrio onde cada pensamento  preparado para o aluno, sendo recebido sem esforo e de segunda mo;
no  na instituio religiosa onde a tradio e o hbito tornaram a f desnecessria; no  na velha igreja
onde placas memoriais so colocadas sobre os mveis, prestando um testemunho silencioso quanto a
glria que j se foi. Onde a f destemida est lutando para avanar contra toda e qualquer oposio, Deus
invariavelmente se encontra junto a ela, enviando "ajuda do santurio".

    Na sociedade missionria a que pertenci durante muitos anos, notei que o poder de Deus sempre
pairou sobre as nossas fronteiras. Milagres acompanharam nossos avanos e cessaram quando e onde
permitimos que a complacncia se introduzisse e deixamos de avanar. O credo do poder no pode salvar
um movimento da esterilidade.  preciso que haja tambm o trabalho do poder.

    Estou porm mais preocupado com o efeito desta verdade na igreja local e no indivduo. Olhe para
aquela igreja onde a abundncia de fruto era antes a coisa regular e esperada, mas agora ele  pouco ou
nenhum, e o poder de Deus parece estar em suspenso. Qual o problema? Deus no mudou, nem o seu
propsito para essa igreja modificou-se de forma alguma. Nada disso, foi a igreja que mudou.

     Uma auto-anlise breve revelar que tanto ele como seus membros endureceram. Ela viveu e
trabalhou, mas aceitou agora um estilo de vida mais fcil. Contenta-se com realizar seu programa sem
demasiado esforo, com dinheiro suficiente para pagar suas contas e um nmero de membros bastante
grande para assegurar seu futuro. Os membros esperam dela agora segurana em vez de orientao na
batalha entre o bem e o mal. Ela se tornou uma escola em lugar de um acampamento. Seus membros so
estudantes e no soldados. Eles estudam as experincias de outros cm lugar de buscar novas experincias
por si mesmos.

    O nico caminho para o poder em tal igreja  sair do esconderijo e mais uma vez tomar o caminho
cheio de perigos da obedincia. A sua segurana  o seu maior inimigo. A igreja que teme o arado escreve o
seu prprio epitfio: a igreja que usa o arado anda pelo caminho do reavivamento.
# Excerto Extrado de Deixe Ir o Meu Povo
52.    O Sistema Jaffray

     Este parece ser o ponto adequado para estudar a filosofia Jaffray sobre as misses crists. Tratava-se
de uma filosofia simples baseada em princpios neotestamentrios e repleta de bom senso comum. Ele
extraiu dela um sistema de trabalho, um padro cujas linhas se manifestam atravs de tudo que fez desde
os seus primeiros dias na China at o fim de sua vida.

      duvidoso que Robert Jaffray tivesse jamais sentado e desenvolvido uma teoria. Sua mente no
funcionava assim. Ele recolhia suas idias enquanto se movimentava. A Bblia e um instinto slido o
guiavam e a experincia logo corrigia quaisquer falhas nos projetos. Seus pontos de vista no eram
complexos nem difceis de compreender. O trabalho missionrio afinal de contas no era complexo, con-
sistindo principalmente de quatro coisas a serem feitas: contato, evangelizao, organizao e instruo.
Isso era tudo. Mas na concretizao desses elementos essenciais, a pessoa podia trabalhar toda uma vida, e
seu labor daria fruto, pois foram essas coisas que Cristo pediu a seus servos que fizessem.

    O contato vinha em primeiro lugar. Nada podia ser feito at estabelecer-se a comunicao. O
missionrio devia procurar as tribos perdidas. Este era o princpio bsico em seu credo missionrio, sendo
para ele a voz de comando; criando em sua mente uma ansiedade animada que jamais o deixou enquanto
viveu. A vista de um mapa ou o som de um nome pago estranho motivava-o como o de uma sineta de
alarma para o velho cavalo do carro de bombeiros do passado. Jaffray foi ento um pioneiro, um
explorador, um aventureiro obcecado pela urgncia de descobrir novos povos e tribos ocultas.

      este aspecto do trabalho missionrio que cativa a imaginao do pblico. Todos parecemos crianas
ao nos entusiasmarmos pelas emoes das aventuras missionrias por procurao, e Jaffray sabia disso.
Como bom negociante estava pronto a dar aos que ficavam em casa o que eles queriam. Seus noticirios e
artigos em revistas quase sempre pareciam verdadeiros contos das selvas, mas no fazia isso por diverso.
Jaffray era srio demais para brincadeiras. Se podia chamar ateno com relatrios sinceros de costumes
exticos e formas curiosas de viver de povos estranhos, no se negava a tal, mas seus motivos estavam
sempre  vista. Ele queria ajuda. Queria dinheiro, o mais que pudesse obter; mas, acima de tudo, queria
jovens que colaborassem com ele. E eles apareceram, esses jovens, nas asas da orao e sustentados pela
riqueza consagrada dos que ficaram em casa.

     Depois do contato veio a evangelizao. Cristo dissera a seus discpulos que fossem ao mundo inteiro e
fizessem novos discpulos. Para Jaffray isso s podia significar uma coisa: ganhar homens perdidos para
Cristo, lev-los a confiar nEle como Salvador pessoal imediatamente, sem aguardar influncias civilizadoras
ou longos cursos de instruo a fim de condicion-los. Bastava que ouvissem o evangelho e seriam salvos,
como qualquer homem branco o era.

    Essa  a teoria de Jaffray, e sua solidez foi confirmada na prtica. Ela funcionou, essa  a sua glria.
Vidas foram realmente mudadas da noite para o dia, transformadas por essa simples tcnica. Os homens
puderam saltar da completa selvageria para o reino de Deus, e na maioria, os que fizeram a grande
transio viveram para provar que a mudana foi real e permanente.

     O passo seguinte era organizar os novos cristos, formando uma igreja. Ela devia ser muito simples no
comeo, pouco mais do que uma organizao por consentimento comum, com certos homens escolhidos
como lderes e para dar orientao ao grupo. Mais tarde poderia evoluir para uma forma mais perfeita de
organizao, com um pastor, diconos e presbteros; mas isso podia esperar, pois o missionrio atuaria
como lder at que os novos convertidos estivessem  altura. As pessoas de mente eclesistica podem
sorrir diante da idia, mas ela funcionou, e continua funcionando e ningum pode negar.

    Essa nova igreja deve ser ento instruda a respeito das grandes verdades da f crist, deve ser
ensinada, doutrinada e para isto era necessrio o seguinte: a escola e a impressora. Essas vinham depois da
organizao, e onde Jaffray conseguia, a coisa se fazia rapidamente.
     A impressora era para Jaffray o que as epstolas foram para Paulo, um meio de manter-se em contato
com seus convertidos,  medida que estes cresciam em nmero, e as distncias tornavam impossvel o
contato pessoal. As impressoras tambm punham ao alcance desses novos cristos o melhor em matria de
literatura espiritual. As mquinas de impresso de Jaffray no geral trabalhavam com material escrito por
ele mesmo e dirigido a necessidades particulares, mas tambm produziam livros, tratados, revistas, cursos
bblicos e comentrios sobre cada um dos livros da Bblia,  medida que podia prepar-los e sentia que as
pessoas estavam prontas para receb-los.

    A Escola Bblica funcionava juntamente com a impressora como um instrumento eficaz para a
disseminao da verdade. Jaffray tinha uma confiana incrvel na Escola Bblica, que chegava s raias do
dogmatismo. Ele conhecia o seu poder e a promovia com zelo incansvel. Os missionrios estrangeiros
jamais seriam a ltima palavra na evangelizao de qualquer pas. O trabalho melhor e mais rpido seria
sempre feito pelos cristos nativos agindo entre o seu prprio povo. Mas estes tinham de primeiro
aprender a verdade e ser treinados para prestar um servio eficiente. Esse o papel da Escola Bblica,
nenhum outro agente podia desempenh-lo melhor. Cada zona precisava ter ento a sua escola e mais de
uma se houvesse necessidade. Essa era a opinio de Jaffray e sua solidez foi confirmada na prtica.

    A velocidade com que se espalhou a f crist entre pessoas at ento inatingveis testemunha o fato de
que a viso de Jaffray foi de inspirao divina. Ele jamais permitia que seus obreiros ficassem reunidos,
parados; esperava que se espalhassem e se mantivessem em movimento. Insistia tanto nisto que alguns
chegaram at a duvidar de seu bom senso, e uns poucos ousaram opor-se a ele diretamente. Mas os
resultados no geral o apoiavam e os cticos se viam forados a reconhecer que tinha razo.

     Um oficial diante de quem ele apareceu pedindo permisso para pregar o evangelho dentro de seu
territrio perguntou-lhe: "Voc vai naturalmente concentrar as suas foras, no ?"

     "Certamente", concordou Jaffray. A seguir, aproximando-se de um enorme mapa que pendia da parede,
ele tocou com o dedo cm vrios pontos.

"Vamos concentrar-nos aqui, aqui e aqui."

"Quantos missionrios voc tem?" inquiriu o oficial atnito.

"Seis", respondeu Jaffray sem sorrir.

    Foi esta estratgia de "concentrar-se" por todo o mapa que deu tal mpeto s suas campanhas
missionrias.

    Apesar desta velocidade de avano ele jamais caiu no erro corrente hoje em alguns lugares -- ele no
acreditava ter feito o trabalho do Senhor simplesmente enunciando o evangelho e partindo, pois no
deixava que os novos cristos voltassem ao paganismo. Toda vez que fazia novos convertidos, era formada
uma igreja; os bens precisavam ser consolidados. O mensageiro podia ento partir, mas no antes disso.
Essas medidas continham grande dose de sabedoria e tratava-se do mtodo usado no Novo Testamento,
podendo perfeitamente servir de padro para todas as sociedades missionrias.

     A idia de que precisamos anunciar o evangelho apenas uma vez a cada tribo e depois passar para
outra sem considerar os resultados  to velha quanto falsa. Embora seja a filosofia de apoio de muitos
empreendimentos missionrios modernos, trata-se entretanto de pura heresia quanto ao mtodo, com
base em uma interpretao errada das ordens.  interessante saber que Wesley e os seus metodistas tive-
ram de enfrentar isto em suas primeiras atividades missionrias, e  instrutivo aprender como resolveram
a situao.

    Em uma seo da antiga Disciplina Metodista, publicada em 1848 e trazendo (segundo penso) as
marcas das idias do prprio Wesley em data anterior, sob o ttulo, "Regras pelas quais devemos Continuar
ou Desistir de Pregar cm Qualquer Parte", a pergunta  feita: "F recomendvel que preguemos em quantos
lugares pudermos sem formar qualquer sociedade?" A resposta  enftica: "De modo algum. Abrimos a
trilha em vrios pontos e durante muito tempo, mas toda a semente caiu  beira do caminho. O fruto que
resta  mnimo."
     Jaffray era presbiteriano e  difcil que tenha dado muita ateno aos mtodos dos primeiros
metodistas, mas no fogo ardente da experincia ele aprendeu as mesmas lies que eles haviam aprendido
antes e chegou s mesmas concluses. Esta pode no ser a ltima palavra que venha a ser dita sobre o
assunto, mas o missionrio sbio ir ouvir respeitosamente esses mestres. Eles apresentam como apoio de
sua filosofia o argumento irrespondvel do sucesso total
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